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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DA ÁSIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOS , QUE OS PoRTUGUEZES FIZERAM 

NA CONQUISTA , E DESCUBRIMENTO 

DAS TERRAS, E MARES DO ORIENTE. 

DÉCADA NONA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica. 

a k n o m.dcclxxxví, 

Com licença da Real Meza Cenfiria , c Privilegio Real. 




Uli 

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ÍNDICE 

DOS capítulos, que se contem 

NESTA 

DÉCADA IX. 



*** 




AP. I. Da feparação que EIRey fez 
de todo o EJlado da Índia , divi- 
âindo-o em três governos ; D. An- 
tónio de Noronha foi eleito Vifo-Key da 
Índia defde o Cabo de Guardafú do Ef 
treito de Meca até Ceilão \ Francifco 
Barreto por Governador do Cabo das Cor- 
rentes até o de Guardafú ; e António Mo- 
niz Barreto por Governador defde Pegií 
até ã China ; e de como chegou D. Antó- 
nio de Noronha a Goa , e eftado em que 
achou a guerra. Pag. i. 

CAP. II. Do que fuccedeo em Chalé, depois 
de D. Diogo ajoccorrer : e de como fe en- 
tregou a Fortaleza a partido. 6. 

CAP. III. Da Armada com que D. Diogo 
de Menezes par tio de Goa : e do que fez 
depois de achar novas que a Fortaleza 
e fiava entregue. jo. 

CAP. IV. Do que promettêram os Procu- 
radores do Idalxã. 17. 

CAP. V. Do que o Vifo-Rey prometteo. 
19. 

CAP. 



Índice 

CAP. VI. Do que efte verão aconteceo a D. 
Diogo de Menezes em Malaca. 21. 

CAP. VIL Do prefente que o Vifo-Rey D. 
António de Noronha mandou ao IdaU 
xá. 25*. 

CAP. VIII. Da grande vitoria , que Gon- 
falo Pereira alcançou de EIRey de Ma- 
luco. 39. 

CAP. IX. Do foc corro que D. Leoniz Pe- 
reira Capitão de Malaca mandou a Ma* 
luco. 41. 

CAP. X. Da mudança da Fortaleza de Am- 
boino pêra o lugar da Cova. 44. 

CAP. XI. Das coufas que pajfdram entre 
o Vifo-Rey D. António >de Noronha , e 
António Moniz Barreto , Governador de 
Malaca. 49. 

CAP. XII. Das coufas que fuccedêram em 
Maluco. 57. 

CAP. XIII. Torna a continuar as coufas 
da índia , e as Armadas que o Vifo-Rey 
lançou fora : e de como o Mogor Je fe- 
nhoreou do rio de Cambaya. 6.3. 

CAP. XIV. Vai D. Henrique de Menezes 
ao Norte , toma duas nãos de Meca , e 
perdem-fe com tormenta. 95^. 

CAP. XV. Manda EIRey defapojfar do go- 
verno a D. António de Noronha. io^. 

CAP. XVI. De como fuccedeo na governan- 
ça de Malaca D. Leoniz Pereira. 1 1 r. 
. r CAP* 



dos Capítulos. 

CAP. XVII. Das coufas que fucceâêram 
em Malaca nefie tempo : e do cerco que 
os vizinhos puzerafn dquella Fort ale* 



121. 



CAP. XVIII. Entra o tempo do governo de 
António Moniz Barreto ) que he o da 
minha nona Década. 131. 

CAP. XIX. Da carta do Secretario do Ef* 
tado a Chrijiovão do Couto 5 que eftava 
retheudo na Corte do Idalxd. 134. 

CAP. XX. Francifco Barreto eleito Gover- 
nador pêra a Conquifta das Minas do 
Reyno de Manomotapa. 15-1. 

CAP. XXI. Parte Francifco Barreto pêra 
a Conquifta das Minas : e da defcripção 
de toda a Cofia do Cabo Delgado até o 
Cabo das Correntes , e do Reyno de Ma- 
nomotapa , e das Minas de Butud , e 
Manicá. • 16 ± m 

CAP. XXII. Das terras que poffue o Ma- 
nomotapa : e dos lugares a que os Por- 
tuguezes vam fazer fuás feiras 3 por 
commutaçao de roupas , e conta com ou- 
ro, j^ 

CAP. XXIII. Do que fuccedeo a Francif- 
co Barreto nefia Conquifia , e a ordem 
que teve em caminhar pela terra den- 

tro ' 173. 

CAP. XXIV. Do que fuccedeo ao Governa- 
dor Vafco Fernandes Homem depois que 

to- 



Índice dos Capítulos. 

tomou poffe : e como fe partio pêra af 
Minas de Manicbds. 204. 

CAP. XXV, Da grandeza do Reyno do 
Manomotapa , e de como fe dividio. 212. 

CAP. XXVI. Das coujas que nejle tempo 
fuc cederam fobre o cativeiro de D. Hen- 
rique de Menezes. 215^ 

CAP. XXVII. Dos Embaixadores do IdaU 
xd que foram a Goa : e da Armada que 
a Rainha de J apara mandou fobre Ma- 
laca. 224. 

CAP. XXVIII. Das coufas que fuc cederam 
nefte tempo na índia. i^G. 

CAP. XXIX. Chegão novas ao Governador 
dos trabalhos em que ficava Malaca : das 
prevenções que fez , e foccorro que lhe 
mandou. 150. 

CAP. XXX. Vai Sancho de Vafconcellos 
cercar o lugar de Hiamao , e o que lhe 
fuccedeo. 265'. 

CAP. XXXI. De como fe perdeo o galeão 
de Belchior Botelho , que hia pêra Malu- 
co 5 e onde. 279. 

CAP. XXXII. Do que nefie tempo fuccedeo 
na índia. 290; 



DE- 



* 



& 




DÉCADA NONA. 

Da Hiftoria da índia. 



CAPITULO L 

Da feparação que EIRey fez de todo o Ef< 
tado da índia , diviâindo-o em três go-> 
vemos ; D. António de Noronha foi elei* 
to Vtfo-Rey da índia defde o Cabo de 
Guardafií do EJireito de Meca até Cei-* 
Ião y Francifco Barreto por Governador 
do Cabo das Correntes até o de Guar- 
dafú ; e António Moniz Barreto por Go* 
vernador defde Pegtí até á China ; e 
de como chegou D> António de Noronha, 
a Goa y e ejíado em que achou a guerra é 

Omo EIRey tinha ordenado 
que a Governança da índia 
fofle triennal > e D> Luiz de 
Ataíde, que nella eílava > cum- 
pria o feu triennio > ordenou 
EIRey D. Sebaftiao de prover a índia de 
novo Viíb-Rey ; e porque o Império Orien* 
Couto. Tom.F.P.iL A tal 




i ÁSIA de Diogo de Couto 

tal eftava mui dilatado , e efpalhado por 
climas mui remotos , a que hum fó Vifo- 
Rey não podia acudir , quiz dividir o Ef- 
tado em três partes , como já EIRey feu 
avô fez no anno de . . . . e declarou fua 
tenção a D. António de Noronha, que ele- 
geo por Vifo-Rey ncíte Janeiro de 1571. 
e lhe mandou fazer preíles íinco náos , co- 
mo fe verá na primeira Parte do meu Epi- 
logo , indo o Governador de Malaca An- 
tónio Moniz na náo Belém na fua compa- 
nhia debaixo de fua bandeira até chegar á 
índia , a qual Armada teve tão boa via- 
gem, que todas as náos juntas em féis de 
Setembro defte anno em. que andamos , 
chegaram á barra de Goa , eftando o Vifo- 
Rey D. Luiz de Ataíde no paflb de Sant- 
iago continuando com a guerra , o qual 
tanto que foube de fua chegada, fe partio 
pêra Goa , deixando todos os Capitães nos 
paííbs , e Armadas nos rios , e fez logo 
entrega do Eítado ao Vifo-Rey , e fe foi 
pêra Pangi , ou pêra os Reys Magos. 

Já nefte tempo èftava o Idalxá enfada- 
do da guerra ; e vendo novo Vifo-Rey com 
tão poderofa Armada , logo fe affaítou , e 
recolheo feu campo , deixando em feu lu- 
gar dous Capitães feus de grande confian- 
ça, e Melique Xaramir com poderes mui- 
to baítantes pêra tratarem de pazes com o 

Vi- 



Década IX. Cap. I. c 3 

VifoRey ; o qual tanto que tomou poffe 7 
foi logo viíitar os paíTos da Ilha , e pro- 
vellos de novos Capitães , e recolheo os 
outros pêra irem defcançar dos trabalhos 
da guerra , e deixou nelles menos gente, 
por faber íer o Idalxá já recolhido ; e pe- 
la mefma maneira viíitou os armazéns das 
munições , e mantimentos ; e porque em 
Goa já não havia arroz, nem trigo, fenão 
o que havia nos armazéns , dos quaes o 
Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde em todo ef- 
te tempo de inverno íuftentou todo o po- 
vo, vendendo-lhos em preços moderados, 
pelo que fe gaitou tanta quantidade , que 
valia o candil de trigo a oitenta xerafins , 
que são mais de vinte mil reis , e o can- 
dil de arroz a vinte e finco, e a trinta; e 
o que eitava nos armazéns , era já muito 
pouco , e de fora não podiam vir manti- 
mentos alguns fenão no fim do verão ; e que- 
rendo pôr muito cobro naquelles que ha- 
via , me mandou chamar , porque tinha vin- 
do com elle na fua náo bem defpachado , 
e me encarregou daquelle armazém com 
muitas mercês , e ventagens , dizendo-me 
publicamente que fó delle , e de mim fia- 
va aquelle negocio pela necelfidade que de 
tudo havia ; e por fóra em toda a Cidade 
não havia hum grão de trigo , nem quem 
comeíTe pão, fenão algumas pefíbas ricas, 
A ii que 



4 ÁSIA de Diogo de Couto 

que o puderam guardar; e chegou o nego- 
cio a tanto extremo > que me mandou o 
Vifo-Rey chamar , e na fua camera muito 
em legredo me pedio empreitadas dez mãos 
de trigo pêra feu comer , e que de noite 
fem fe ver o entregafle a huma peflba fua 
de recado. Deixemos agora iílo neíle efta- 
do por continuarmos com D. Diogo de 
Menezes > que deixámos partido de Chalé. 
Informado o Viíb-Rey das coufas de 
Chalé , e aperto em que eftava , a primei- 
ra coufa em que poz a mão foi em man- 
dar mais Armada a D. Diogo pêra poder 
íòccorrer Chalé mais folgadamente ; e af- 
lim tirou dos rios duas galés , e quatro fuf- 
tas , de que elegeo por Capitão mor Fran- 
cifco de Soufa Tavares o Manco, que par- 
tio de Goa a 27. de Setembro , elle em 
huma galé , e Pedro Homem da Silva fi- 
lho de Vafco Fernandes Homem na outra \ 
nas fuílas João Francifco Peflba , Martim 
de Vafconcellos , D. António de Caítro , e 
Vafco Fernandes Pimentel ; e em fua com- 
panhia mandou hum galeão , de que hia 
por Capitão Pedralves de Faria com mui- 
tos mantimentos , que lhe eu dei dos que 
havia 7 muitas muniçõe^ , e outras coufas 
neceíTarias. Partida eíta Armada, entrou o 
Vifo-Rey no apercebimento de outra pêra 
tornar a mandar a D. Diogo , pêra que por 

fal- 



Década IX. Càp. I. ^ 

falta de diligencia, e foccorro não perecef- 
fe aquella fortaleza , a qual conftava de ou- 
tras duas galés , e mais três f uítas , em que 
mandou embarcar duzentos e quarenta ho- 
mens ; nas galés D. Fernando Capitão mor 
hia em huma , e Martim Affonlb de Mel- 
lo o Pombeiro em outra ; nas fuítas Fran- 
cifco da Silva de Menezes , que viera aquel- 
le anno do Reino, Pedro Furtado deMen- 
doça , e Gafpar de Sá , cuido que erà filho 
de Gafpar Fernandes de Ribafria , Porteiro 
da Gameis de EIRey D. João ; em quanto 
eíta Armada fe faz preíles , continuaremos 
com D. Diogo de Menezes. 

Partido D. Diogo de Menezes de Cha- 
lé , foi feguindo leu caminho pêra Goa a 
mór preífa que pode , e no caminho encon- 
trou Francifco de Soufa Tavares , que com 
fua x\rmada hia em bufca delle \ e vendo 
que não era então neceífario , porque ha- 
via de voltar, o deixou na coita do Cana- 
rá pêra recolher as cáfilas de mantimentos y 
e levallas a Goa , aonde D. Diogo chegou 
dahi a dous dias , citando já D. Fernando- 
de Monroy preítes pêra fe partir em buf- 
ca delle •, pelo que o Vifo-Rey o defpedio 
com a Armada que tinha pêra o Norte , 
porque era neceífario acudir áquella coita , 
e levar a Goa as cáfilas de mantimentos^ 
que láhouveífe pela neceilidade que deiles 

ha- 



6 A S I A de Diogo de Couto 

havia , e D. Diogo fe ficou negociando pêra 
tornar a voltar com novo foccorro a Chalé. 

CAPITULO II. 

Do que fucceâeo em Chalé \ depois de D. Dio- 
go a foc correr : e de como fe entregou 
a Fortaleza a partido. 

SAhido D. Diogo de Menezes de Cha- 
lé , bem entendeo o Çamori que havia 
de voltar com maior poder pêra íbccorrer 
aquella Fortaleza ; pelo que determinou de 
a apertar de feição, que ou a tomafíe por 
força , ou fe lhe entregaíTe por vontade , 
que já tomara ifto pòr opinião , e aíTim foi 
continuando com a bateria com maior fú- 
ria , e importunação por quebrantar os nof- 
fos que le defendiam o melhor que fer po- 
dia ; mas como os mantimentos que lhe 
mettêram , ou que elles recolheram , foram 
os que já diííe atrás 5 que eram pêra quinze 
dias ameia medida de arroz por dia a ca- 
da peflba , porque no recolher houve tanta 
defordem que fe refundio quaíi ametade , 
começaram aos oito , ou dez dias a faltar 
mantimentos , e foi neceífario a D. Jorge 
defpejar a Fortaleza de muita gente inútil 
que nella havia ; e aílim lançou fora mais 
de quarenta peíToas ; que fe foram fazer al- 
guns 



Década IX. Cap. II. 7 

guns delles Mouros ■ e os outros mataram 
os inimigos , e alguns morreram de enfer- 
midades , e nem com efte defpejo deixou 
de haver grandes neceffidades ; e chegaram 
os homens a tanto extremo , que antes fe 
queriam entregar aos inimigos , que mor- 
rerem affim naquella defconfolação : e a mim 
me diíTe Cuílodio Mendes de Vafconcel- 
los , que era hum dos Fidalgos que já di£ 
fe que entraram dentro , que eftando hum 
dia em huma bombardeira já quafi defef- 
perado, vira em baixo hum cão, e deitan- 
do-lhe de íima huma pedra grande fobre 
elle , o matara, e fe deitara por huma cor- 
da abaixo ajudado defeu irmão, efora re- 
colher o cão a rifco de os Mouros o ma- 
tarem , do qual ambos comeram dous dias ; 
e chegaram em fim a tal extremo , que com- 
padecendo-fe delles o Rey de Tanor, que 
era muito noífo amigo, e também chama- 
va a D. Jorge pai , mandou tratar com ch> 
le de fe entregarem a elle que os tomaria 
fobre íi , e que largaífe a Fortaleza ao Ça- 
mori , e devia de fer iíto por induílria , e 
ordem do mefmo Çamori : alguns dizem 
que D. Jorge fe fora de noite ver com 
grande fegredo com o Çamori , porque na 
verdade eram muito amigos. Eftas práti- 
cas , e recados do Rey de Tanor poz ú 
Capitão* em confelho dos Fidalgos , e gen- 
te 



8 ÁSIA de Diogo de Couto 

te principal, não lhe propondo mais que o 
eílado em que fe elles viam , e que confor- 
me a elle , votaííem livremente o que lhe 
pareceíTe , de que mandou fazer hum ter- 
mo pêra fe tomarem os votos por efcrito , 
em que fe elles haviam de affignar : em fim 
debatido o negocio, os mais votaram que 
fe deviam entregar ao Rey de Tanor , que 
era muito amigo dos Portuguezes , o qual 
fegurava as pelfoas de todos , porque do 
mal fempre fe havia de efcolher o menor, 
e que no mundo não era coufa nova entre- 
garem-fe difFerentes Fortalezas a partidos 
com menos razões das que elles tinham. 
Verdade fejaqíie as mulheres como tão fra- 
cas , e mimofas , e foffriam mal a fome , e 
os rifcos da vida , apertaram efte negocio 
rijamente; e D, Jorge, que era muito fujei- 
to a D, Filippa fua mulher, trabalhou por 
lhe fazer a vontade , que efta fó culpa te- 
Ee o pobre velho. Feito o termo , os que 
foram de parecer que fe entregafíem ao Rey 
de Tanor , aífignáram nelle j outros , que fo- 
ram de contraria opinião , não quizeram af- 
íignar por nenhum cafo : e eu vi huma cer- 
tidão , que paliou Vafco Fernandes Pimen- 
tel a Francifco de Soufa Pereira Camelo % 
que fez aquella entrada que diífe em Cha- 
lé , em que dizia que não aífignára na entre- 
ga da Fortaleza > antes elle 7 e os do con* 

tra* 



Década IX, Cap. II. 9 

trario bando a reclamaram muitas vezes. 
Concluída a entrega , deo-fe recado ao Rey 
de Tanor, que fez com o Çamori que af- 
faftaíle feu campo ; e fahindo-fe todos , e 
o pobre velho D. Jorge com a mulher pe- 
la mão derramando grande cópia de lagri- 
mas por fuás venerandas cans , e o mefmo 
as mulheres, em todos os mais não faltou 
fentimento ; mas confolavam-fe com verem 
que pêra falvarem as vidas lhes fora aíTim 
neceífario fazer-fe efta entrega , que foi a 
primeira que fe fez na índia aos quatro 
dias do mez de Novembro deite anno de 
157 1. em que andamos. O Rey de Tanor 
levou toda efta gente pêra a lua Cidade, 
aonde a teve até chegar D. Diogo de Me- 
nezes , cpo logo diremos; e o Çamori to- 
mou logo entrega da Fortaleza com toda a 
fua artilheria , e mandou arrazar por terra 
a Fortaleza , íem diífo fe tomar nunca fatis- 
facão, antes lhe fizeram pazes livremente, 
fem obrigação de tornar a entregar a For- 
taleza , ou lugar pêra ella no mefmo íitio ; 
mas houve muitos Capitães de parecer que 
por credito do Eftado não convinha tor- 
riar-fe a levantar Fortaleza fobre as ruinas 
da noífa que já alli efteve ; e por efta ra- 
zão , quando em tempo do Vifo-Rey D. 
Duarte de Menezes (como ao diante com 
o favor de Deos diremos) concedia fazer-** 



io A S I A de Diogo de Couto 

fe huma Fortaleza em qualquer de feus por- 
tos que quizeíTem, pareceobem fazer-feno 
rio de Penané , como fez , que também fe 
largou pelos reípeitos que ao diante diremos. 

CAPITULO III. 

Da Armada com que D. Diogo de Mene~ 

zes par tio de Goa : e do que fez depois 

de achar novas que a Fortaleza ef- 

tava entregue. 

CHegou D. Diogo a Goa em doze de 
Outubro 5 e deo relação ao Viíò-Rey 
D. António de Noronha do eftado em que 
eítava a Fortaleza de Chalé , e que era ne- 
ceíTario foccorrella 5 porque lhe não pude- 
ram metter mantimento pêra mais que trin- 
ta e finco dias i e que D. Jorge de Caftro 
lhe efereveo também o rifeo em que fica- 
va , ao Viíb-Rey , dando-lhe conta que do 
mantimento que D. Diogo deixara á porta 
da Fortaleza fe não recolhera nem ameta- 
de , porque parte levaram os Mouros , e 
parte fe refundio ao metter na Fortaleza, 
pedindo com o maior encarecimento que 
pode o mandaífe foccorrer , fenão que cor- 
reria aquella Fortaleza o rifeo que correífe : 
com o que logo o Vifo-Rey fe foi pôr na 
ribçira das Armadas > e mandou dar muita 

pref- 



Década IX. Cap. III. n 

preíTa a todos os navios , e galés que ha- 
via pêra poderem ir naquella jornada , e 
aífim pagou á foxdadefca que havia de ir 
naquelle foccorro , e foi em peííoa correr 
os armazéns dos mantimentos > e munições , 
andando muito enfermo de tericia que pa- 
recia hum homem morto > e com tudo da 
fua parte fez tudo o que hum muito são , 
e bem difpofto Vifo-Rey pudera fazer ; e 
deo a D. Diogo de Menezes toda a preíTa 
que pode pêra que logo fe partiíle j e lem- 
bra-me, que eítando o Vifo-Rey no arma- 
zém da pólvora , me mandou chamar por 
eu ter o dos mantimentos a meu cargo , e 
me dilTe , que do trigo que tiveíTe mandaf- 
fe fazer muito bifcouto pêra aquella jorna- 
da ; e eftando-me encommendando. iílo , en- 
trou D. Diogo de Menezes j e o Vifo-Rey 
fem fe levantar fe defcompoz, dizendo-lhe 
que fe embarcaífe logo , e que foífe foc- 
correr a Fortaleza de EIRey ; ao que D. 
Diogo refpondeo , que elle eílava preftes , 
pêra tanto que lhe delfem mantimentos. Por 
mantimentos efperais ? Logo fe vos darão, 
lhe tornou o Vifo-Rey , logo fe vos darão ; 
mas quando os não houver , ide , Senhor , 
comendo os remos da voíla galé , e ide- 
vos , que defta maneira fe foccorrem as For- 
talezas que eftam no rifco em que aquella 
fica. D. Diogo que o vio apaixonado 5 lhe 



12 A S I A de Diogo de Couto 

refpondeo que logo fe hia embarcar; e aí- 
íím fe foi á ribeira das Armadas a man- 
dar lançar os navios ao mar , e concertar 
as galés dos damnificamentos que tiveram 
na entrada de Chalé ; e por muita preífa 
que fe deo , não pode fahir de Goa fenao 
aos quatro de Novembro , parecendo-lhe 
que até chegar a Chalé poderia haver man- 
timentos pêra fe fultentarem 5 como pude- 
ra haver ? fe tiveíle nelles ordem , e regi- 
mento , que tudo faltou ; porque como D. 
Jorge era de oitenta annos , fua mulher go- 
vernava tudo , e fuás criadas , e negras gaf- 
tavam largo , porque lhes dava de tudo af- 
íim como lhe importava ; e a mim me con- 
taram algumas peífoas que fe acharam no 
cerco , que hum dia antes que fe entregaf- 
fem 5 mandara huma efcrava de D. Filip- 
pa huma gallinha em bringe a hum folda- 
do com quem andava ; e onde havia efta 
gallinha , e efte arroz , havia de haver mais , 
porque ninguém dá o de que precifamen- 
te neceílíta pêra viver 5 e não podia efgo- 
tar por alU tudo : em fim em todas as par- 
tes houve defcuidos pêra eíla Fortaleza fe 
vir a perder , e o de todos pagou fó o po- 
bre velho D. Jorge > como ao diante veremos, 
Sahio D. Diogo de Menezes de Goa, 
como hia dizendo , em quatro de Novem- 
bro com quatro galés , de que a fora elle 

eram 






Década IX. Cap. IIL 13 

eram Capitães , Mathias de Albuquerque , 
D. António de Menezes o Cantanhede > e 
Diogo de Azambuja. Levou mais trinta fuf- 
tas, cujos Capitães foram os feguintes : D. 
Lourenço de Almeida , D. João de Soufa , 
D. Anronio de Soufa , D. Luiz de Mene- 
zes , D. Manoel Pereira , filho de D. An- 
tónio Pereira , D. António de Caitro, D. 
Diogo de Caltro , D. Pedro Coutinho , Gaf- 
par de Brito, Francilco de Miranda o Ve- 
lho j Manoel de Miranda , Vafco Fernan- 
des Pimentel , Pedro de Anliaya , Fernão 
de Albuquerque , Pedro Gomes da Silva, 
Ruy Pereira , Francifco Peífoa , Manoel Fer- 
nandes de Manás , Henrique Barbofa da 
Silva , Lopo Pereira , António Fernandes 
de Chalé , Pedro Rodrigues Malavar , Fran- 
cifco Foz Malavar , Martim de Vafconcel- 
los , Mattheus Delgado Feitor da Armada , 
c Chriítovão do Amaral Capitão de huma 
barcaça. Com toda efta Armada, em que 
iriam coufa de mil e quinhentos foldados , 
fe fez á vela com muita preífa, fem fe de- 
ter em parte alguma; e chegando a Cana- 
nor , foube como a Fortaleza de Chalé fe 
entregara a partido no mefmo dia que el- 
le fahio de Goa , o que fentio em extre- 
mo ; e apreífando-fe , chegou a Tanor , on- 
de furgio , e mandou grandes agradecimen- 
tos áquelle Rey do favor > e amizade que 

ufá- 



14 ÁSIA de Diogo de Couto 

ufára com os noflbs Portuguezes , e no re- 
colhimento que lhes fizera ; e mandou re- 
cado a D. Jorge , e a todos que fe embar- 
caflem na Armada pêra os levar a Cóchim , 
o que elles logo fizeram, mandando aMa- 
rhias de Albuquerque que recolhefle na íua 
galé a D. Jorge , e a lua mulher D. Filip- 
pa , e a gente de fua cafa , e os Religio- 
los de S. Domingos que lá reíídiam , que 
recolheram comligo os ornamentos , e cou- 
fas fagradas , c recolheo perto de duzen- 
tas peííbas , e os Fidalgos y e mais gente 
fe repartiram pela Armada ; e ao fegundo 
dia em que partiram chegaram a Cóchim , 
donde defpedio Duarte de Albuquerque por 
Capitão mor do Cabo Çamori com a fua 
galé , e nove navios pêra recolher as cáfi- 
las dos mantimentos daquellas partes , e 
as levar a Goa , e o Capitão mor ficou cor- 
rendo a coita do Malavar , e ao diante da- 
remos razão do que a hum , e outro fuc- 
cedeo. 

Partido D. Diogo de Menezes pêra o 
Malavar , logo o Vilb-Rey defpedio D. Fer- 
nando de Monroy com a fua Armada , que 
já eítava provido de tudo, pêra que foífe 
pela cofta do Norte recolher a cáfila dos 
mantimentos , e mandou que o Feitor de 
Baçaim lhe compraífe todo o arroz que 
achaífe pêra os armazéns de Goa, e o di- 
to 



Década IX. Cap. III. iy 

to D. Fernando partio de Goa em dezefeis 
de Outubro deite anno de fetenta e hum, 
com o qual também depois continuaremos» 

Partido D. Fernando de Monroy de 
Goa , logo o Viíò-Rey fez partir a Nuno 
Alvares Carneiro , que acabou de fer Se- 
cretario , a Ormuz em huma náo por Vea- 
dor da fazenda pêra mandar de lá todo o 
trigo que pudefle , porque o Reino de Cam- 
baya , donde coítumava vir y andava revol- 
to em guerras , das quaes logo darei ra- 
zão ; e juntamente defpedio Francifco de 
Soufa Tavares pêra a mefma coita do Ca- 
nará , donde tinha vindo , e levou duas ga- 
lés , huma em que elle hia , e na outra Chri- 
ílovao Zuzarte , e duas fuftas , em que fo- 
ram João Barriga Simões , e Pedro Zuzar- 
te , na qual coíla andou até Abril , em que 
recolheo duas cáfilas de mantimentos , com 
que a Cidade de Goa começou a levantar 
cabeça : nefta companhia foi Ruy Gonfal- 
ves da Camera entrar na Capitania de Bar- 
celor, de que eftava provido. 

Partidas eftas Armadas, tratou o Viíò- 
Rey o negocio das pazes, fobre que os Ve- 
readores lhe fizeram lembrança pela gran- 
de falta que havia de tudo , e porque tam- 
bém apertavam por ellas os Procuradores 
do Idalxá , que eílavam da outra banda ; e 
fazendo oVifo-Rey fobre eíle particular al- 



16 ÁSIA de Diogo de Couto 

gumas juntas de Fidalgos, e Capitães ,'a& 
ien taram todos que era juílo concederem- 
fe-lhes as pazes com condições honrofas ao 
Eftado , com a qual refoluçao fe mandou 
recado a Mojatecão Governador geral dos 
Reinos do Idalxá, pêra que mandafle Pro- 
curadores com Procurações baftantes y que 
lhe deixou EIRey , e os poderes que lhe 
ficaram pêra poder aíTentar as pazes com 
o Eftado , o qual logo mandou tudo por 
Melique Xamir , e Xamerado , que foram 
em Goa bem recebidos , e agazalnados ; e 
fazendo o Vifo-Rey confelho geral, foram 
nelle eítes homens ouvidos , e moftráram as 
Procurações que traziam do Noradecão, 
e os poderes que o Idalxá lhe deixou, os 
quaes houveram por authenticos : pelo que 
aíTentáram que os Procuradores do Idalxá 
fizeííem apontamentos do que pediam , e 
que o Capitão da Cidade, Vedores da fa- 
zenda , e outros adjuntos fizeíTem outros 
por parte do Eftado y e aprefentados huns , 
e outros em confelho , e praticados os pon- 
tos delles muito devagar , fe concluiriam 
as pazes com eftas condições , o que tudo 
fuccedeo em treze de Dezembro de 157 1. 



CA* 



Década IX. Cap. IV. 17 

CAPITULO IV. 

Do que fromettêram os Procuradores âo 
Idalxá. 

y> T) Rimeiramente que as terras de Sal*- 
» Jl fere , e Bardes > que eram de EIRey 
»de Portugal , de que o Eítado da índia 
)> eítava de pôíTe , ficariam ao Eílado ; af- 
» fim , e da maneira que as poíTuia até vir 
» recado de Portugal do que niífo fe faria ; 
» e quando não vieíTe reípofta , feria obri*- 
» gado o Idalxá a mandar ao Reino feu Em- 
» baixador , a quem o Vifo-Rey daria pêra 
»iífo livre paílagem» 

» Que aífim aos mercadores da ribeira > 
» como aos mais Contratadores da Cidade 
»de Goa , que foliem ás terras do Idalxá 
» comprar madeira ò taboado , carnes , man- 
» timentos , e outras quaefquer coufas , lhes 
»nao levariam mais direitos dós que eíta* 
» vam em coftume antigo , e lhes não fa- 
» riam nenhuns defaguizados , e que fe paf- 
» fariam pêra ifíb Chapas do Idalxá pêra 
» os Tanadares , e Capitães de fuás terras. 

» Que todos os Portuguezes , que de Goa 
» foifem fugidos , ou de outra qualquer ma- 
»neira, pêra as terras do Idalxá, aue nem 
)>elles, nem feus Capitães os recolheriam ^ 
» nem lhes dariam lugar, nem muxára, an~ 
Couto. Tom. V. P. //• B y> tcs 



í8 ÁSIA de Diogo de Couto 

» tcs os lanhariam fora, pêra que fe tornaf- 
)) lem pêra noflas Fortalezas. 

» Que vindo quaefquer. Amuadas de ini- 
» migos fobre nós , alTim por mar , como por 
» terra , que o dito Idalxá , e Teus Capitães 
;» as não recolheriam , nem lhes dariam lu- 
» gar , nem muxára , e os lançariam de fuás 
» terras, como a léus próprios inimigos , 
» e neíTa conta os teriam , e os perfegui- 
» riam até fe fahirem de feus portos. 

»Que os marinheiros , que foílemnecef- 
» farios pêra as Armadas de EIRey noflb 
y> Senhor , e pêra os navios , e náos dos Por- 
y> tuguezes , não lhes feriam tolhidos , e os 
)> não impediriam a paííar pêra as nolfas 
» terras das do Idalxá , como feiíipre fize- 
)>ram. 

» Que havendo algumas brigas , ou con- 
» tendas entre alguns Lafcarins Mouros , e 
» os Portuguezes , ou cites com os feus Laf- 
»carins , que nem por iíTo feria quebrada 
)> eíta amizade , e contrato , e que os ag- 
»greífores feriam caíligados de huma , e 
» outra parte. 

» Que todos os efcravos , e efcravas dos 
» moradores de Goa que fugiífem, efoílem 
)> ter ás mãos do Capitão de Pondá ,. e feus 
» Tanadares , feriam obrigados a tornallos 
» a feus donos , falvo fazendo-fe Mouros , 
3) porque em tal caíq feriam vendidos, e o 

»di* 



Decaída IX. Cap. IV. i£ 

» dinheiro delles fe daria a feus donos ; é 
» porém por quanto os Cafres , e nobres 
tí eram efcravos de preço , e em Poftdá não 
» haveria quem os compraíTe , como elles va* 
)> lem , que ao menos fe daria por cada hum 
» vinte pardaos de ouro > tornando-feMou* 
» ros , e iílo fe faria de ambas as partes ) 
» e da noífa os que fe tornaífem Chriílãos y 
» fe faria o meímo que aos noífos » e ou* 
trás coufas, que não são de tanta fubítan- 
cia 5 e deixo por não enfadar. 

CAPITULO V. 
Do que o Vifo-Rey prometteo. 

» /^ Ue teriam Feitor em Dabul , que não 
» \J aggravaíle os mercadores , o qual da- 
» *■"' ria cartazes pêra os mercadores na- 
» vegarem livremente até Ormuz por toda 
» a coíla ; e que arrecadaria os direitos das 
» náos que entraífem naquelle porto y con- 
» forme os cartazes. 

» Que os Vifo-Reys lhe dariam cada an- 
» no íeis cartazes forros pêra onde o Idal- 
»xá quizeíTe, os quaes fe lhe dariam, man- 
» dando-os elle Idaíxá pedir por fuás car- 
)) tas ; e indo as embarcações com os taeá 
» cartazes a outros portos por cafo fortuk 
» to , ou por outra qualquer via P -não pa* 
B ii »ga- 



2o A S I A de Diogo de Couto 

» gariam direitos alguns ; e que não eftan^ 
)> do o Vifo-Rey em Goa , o Capitão que 
»folfe da Cidade poderia dar os taes car- 
» tazes. 

» Que o Idalxá poderia mandar tirar 
» deita Cidade cada anno fazendas 5 que va- 
)>leíTem féis mil pardaos de ouro , forros 
)) de direitos. 

» Que o Idalxá poderia mandar levar 
))cada anno da Cidade de Goa vinte e fin- 
»co cavallos forros de direitos* 

»Que huma das féis náos de cartazes 
y> poderia ir cada anno a Dabul de Ormuz 
» com cavallos , e pagaria os direitos del- 
» les 5 defcontando os vinte e ílnco que tem 
» livres. 

» Que poderia mandar aquelle anno lo- 
» mente feffenta candís de gengivre pêra a 
» contra coita 9 e que pelo tempo adiante 
» lhe dariam os Vifo-Reys a quantidade que 
» quizeífem. 

»Que as náos que navegarem fem car- 
» tazes , e fe acolherem aos portos do Idal- 
»xá, e ahi forem tomadas, ainda que fe- 
)>ja pelos vaífallos do Idalxá, e ainda que 
»as náos fejam de feus vaífallos , vifto fe- 
irem de preza , fe faria partillaa delias, 
)> ametade pêra o Idalxá , e ametade pêra 
)> o Eítado , o que fe cumpriria aífim de 
j&huma parte., como de outra. 

»Que 



Década IX. Cap. V. 2f 

» Que os Rendeiros que deveíTem di- 
» nheiro ao Idalxá , ou Eftado , acolhendo- 
y> fe pêra qualquer deitas duas partes , fe- 
)) riam logo entregues j » com outros Capitu- 
los de menos fubítancia. 

As quaes pazes foram logo juradas , af- 
fim pelo Vifo-Rey , como pelos Procurado- 
res do Idalxá , e apregoadas aílim em Goa , 
como noBalagate com as folemnidades cof- 
tumadas , e aflim Começaram a correr as 
fazendas , e mantimentos pêra Goa como 
de antes. 

CAPITULO VI. 

Do que ejle verão aconteceo a D. Diogo 
de Menezes em Malaca. 

DEpois que D. Diogo de Menezes dei- 
xou a gente da fortaleza de Chalé em 
Cóchim , fendo avifado que pêra o Cabo 
Çamori eram paliados muitos parós , def- 
pedio pêra aquella parte Mathias de Albu- 
querque com afua galé, e nove navios pê- 
ra ir ajuntar os navios que vem de todas 
aquellas partes demandar aquelle Cabo , pê- 
ra lhes ir dando guarda até Goa , e o Ca- 
pitão mor juntou algumas náos , e navios 
de mercadores que haviam de ir pêra Goa, 
com os quaes -partio elle também pelos fe- 

gu- 



22 ÁSIA de Diogo de Couto 

gurar dos ladroes de que aquella cofta an- 
dava cheia , e com elles chegou a Goa em 
Dezembro deite anno de fetenta e hum , e 
logo na entrada do feguinte de fetenta e 
dous tornou a partir pêra o Malavar > e an- 
dou por aquella coita em bufca dos cof- 
lairos , e nella tomou algumas embarcações 
carregadas delles , e outros lhe eícapáram 
por ligeiros 5 e allim poz muita diligencia 
çm tapar os portos 5 donde lhe haviam de 
ir os mantimentos , e lhes tomou algumas 
embarcações carregadas delles > com que os 
poz em grandes necelfidades ; e fendo tem- 
po de Mathias de Albuquerque fe recolher , 
porque trazia huma grande cáfila de náos, 
e navios 5 fe foi em bufca delle , e em Pa- 
nané o encontrou com huma grande frota 
de navios 5 em cuja companhia também foi 
pela fegurar de ladrões , e de caminho to- 
mou a barra de Tanor , aonde fe vio na 
praia de Coulete com aquelle Rey , e com 
elle tratou algumas coufas de fegredo, que 
eu não fei, nem achei em lembrança algu- 
ma. Feita eíla diligencia , tornou D. Diogo 
á fua jornada em companhia da cáfila com 
quem foi até Mangalór , e alli defpedio a 
Mathias de Albuquerque com ordem, pêra 
que da barra de Goa voltaífe em fua buf- 
ca , porque importava aífim, o qual foi fe- 
guindo, fua jornada ; e chegou a Goa atrui*. 

ta 



Década IX. Cap. VI. 25 

ta de Março } e deixando a cáfila na bar- 
ra , tornou em bufca do Capitão mor , o qual 
achou antes de chegar a Barcelor; e ajun- 
tando-fe a elle , foram íiirgir na barra de San-* 
guifer, onde D. Diogo levava por regimen- 
to entraííe , e desfizeífe huma fortaleza , 
que hum Rey vaíTallo do Idalxá que an- 
dava levantado fizera, e adeílruiííe de to- 
do , e logo fe fez preftes pêra iíTo , dando 
a dianteira a António Fernandes Chalé , e 
os Capitães das galés fe paliaram a navios 
ligeiros , como também fez o Capitão mor ; 
e entrando o rio , defembarcou António Fer- 
nandes com toda a gente , e foi commet* 
ter a Fortaleza com muita determinação, a 
qual os noílbs entraram ,; e efcaláram , ma- 
tando muitos dos que eílavam nella , poi- 
que os mais fe foram vaiando por huma 
porta que tinham pêra o Sertão , e neíla 
entrada deram a António Fernandes de Cha* 
lé huma frechada pelas guelas , de que ca-? 
hio morto ao pé da Fortaleza, morte què 
fe fentio geralmente de todos por ler hum 
dos valentes , e prudentes Capitães eíle Ma- 
lavar de leu tempo , debaixo de cuja ban- 
deira todos aquelles Capitães militaram os 
annos que fervíram no Malavar ; e fobre 
todos o fentio D. Diogo , porque por feu 
confelho fez por muitas vezes guerra na* 
quella coita : tinha-o ElRey D. Sebaítiao 

por 



24 ÁSIA de Díogo de Couto 

por fen esforço , e confclho feito , cuido 
que Fidalgo , e lhe mandou o habito de 
Chriíto com boa tença; e era tão refpeita- 
do dos Vifo-Reys , e de todos , como hum 
dos mais honrados Fidalgos da índia. D, 
Diogo mandou recolher feu corpo , e met- 
tello em hum caixão breado , mui calafeta- 
do por caufa do máo cheiro , e o mandou 
embarcar no navio , em que elle andava , 
que foi entregue aos feus Lafcarins , que o 
prantearam bem. D. Diogo mandou a Ma- 
thias de Albuquerque folie pelo rio den-. 
tro até onde as fuílas pudeflem chegar , e 
deítruiíle tudo o que achafle em vingança 
da fua morte ; o que elle fez mais de fin- 
co léguas por elle dentro , e fez nas ter- 
ras , e aldeãs do Naique grandes deítrui- 
çoes , deixando tudo o que havia entregue 
ao ferro , e ao fogo , e com efte grande 
eaítigo fe tornou pêra o Capitão mor , e 
logo fe partio pêra Goa , aonde chegou em 
féis de Abril dia de Pafcoa , e ao outro dia 
foi defembarcado o corpo de António Fer- 
nandes ; e eítando o Vifo-Rey com todos 
os Fidalgos , e povo prefentes , e os Ca- 
pitães , e com todas as Religiões, Cabido, 
e Clero pêra o acompanharem, foi levado, 
em huma rica tumba aos hombros dos mais 
honrados Fidalgos do habito denoflb Se- 
nhor Jefu Chriíto , de cuja Ordem elle era; 

e 



Década IX. Ca*. VI. hç 

e com efta pompa funeral , que lie a maior 
que fe fez a homem particular , foi levado 
a S. Francifco , onde lhe fizeram folemnes 
Officios , que tudo fe lhe devia por fer hum 
dos grandes fervidores daquelle toque , que 
EIRey teve na índia, cuja morte o Çamo- 
ri feftejou muito, porque o temia fobre to- 
dos os Capitães, que foram áquella coita; 
e com iílo fe cerrou o inverno. 

CAPITULO VIL 

Do prefente que o Vifo-Rey D. António de 
Noronha mandou ao Ida/xá. 

DEpois que os Procuradores do Idalxá 
fe foram pêra a Corte daquelle Rey 
com as pazes feitas , defpedio elle logo 
hum Embaixador a vifítar o Vifo-Rey , e 
dar-lhe os parabéns de fua chegada , e fuc- 
cefsão , o qual foi recebido com muita hon- 
ra, e apparato; e porque já era fim do ve- 
rão , o defpedio logo muito bem defpacha- 
do , e apôs elle outro Embaixador feu a 
lhe pagar a viíita , pêra o que elegeo hum 
Veador feu por nome António do Rego , 
homem velho, authorizado , e intelligente , 
e ordenou, por elle mandar hum prefente 
de cavallo^ , e outras curioíidades , que man- 
dou negociar com muita preíTa , e lhe man- 



dou tudo o feguinte. 



De- 



a6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Dezefete cavallos Arábios mui ferinos 
fos , que cuftáram a quinhentos , e a feiscen- 
tos pardaos , com três celizes cada hum de 
damafco , damafquilhos de comequis de co- 
res pêra o caminho. Huma fella eílardiote 
de veludo negro franjada de ouro em pre- 
to com arções de aço de Milão de tauxia 
dourada , lavrados de figuras de relevo com 
fua brida e eílribos , e cabreílo do meímo 
toque. Outra eílardiota de veludo carme- 
zim franjado de ouro , com feus pregos , 
medalhas , bridas , cabreílo , tudo dourado 
do mefmo toque. Outra fella de veludo ver- 
de com todas as fuás peças , medalhas , ef- 
tribos , brida $ copes , e cabreílo , com feus 
feros , tudo muito bem dourado , e rica^ 
mente guarnecido. 

Huma peça de veludo carmezim , outra 
de veludo roxo , outra de fetim carmezim , 
outra de fetim encarnado , todas de oiten- 
ta covados cada huma , duas peças de ef- 
carlatas finas , três barças de louça da Chi- 
na forteadas 5 hum bacio de agua ás mãos 
de baítiâcs pelo meio da bordadura , e pe- 
la borda de fora de lavor retalhado com 
a hiítoria de Judith no meio , tudo doura- 
do y hum gomil de boca larga do mefmo 
toque y hum faleiro da mefma obra com 
hum S. Jorge em fima. 

Com todo eíle preíente chegou o Em- 
bai- 






Década IX. Cap. VII. 27 

baixado r á Corte do Idalxá , onde foi mui- 
to bem recebido. EIRey lhe deo audiên- 
cia , e recebeo a carta , e prefente diante 
de feus Capitães , e mandou correr com o 
noflb Embaixador muito bem , e confirmou, 
e jurou de novo as pazes ,- e com muita fa- 
tisfaçao o defpedio o verão feguinte. 

Nelte mefmo tempo já no fim de Abril 
defpedio oVifo-Rey huma Armada de foc- 
corro a Maluco pelas cartas que achou 
de Gonfalo Pereira Marramaque , em que 
lhe dava conta das coufas daquellas Ilhas , 
e da Armada Caftelhana , que ficava em Ce- 
*bú , e dos trabalhos em que fícav^ çom 
os tyrannos da Ilha de Amboino , e da mui- 
ta gente que tinha perdido , pedindo-lhé a 
focccrreífe ; pelo que o Vifo-Rey negociou 
Armada pêra lhe mandar, e defpachou Fer- 
não Ortiz de Távora , que era provido da- 
quellas viagens , com hum galeão carrega- 
do de muitos provimentos, munições, di- 
nheiro em bafarucos , que lá fe defpendem 
bem , e fardos de jubões , calções , col- 
chas , chapeos , e barretes pêra os folda- 
dos , que tanta conta fe tinha naquelle tem- 
po com elles ; porque foldados famintos, 
e defpidos não fervem pêra a guerra, nem 
pêra a paz : em fua companhia mandou hum 
galeão , de que foi por Capitão Pedro Lo- 
pes Rebello, e duas galeotas grandes, Ca- 



28 ÁSIA de Diogo de Couto 

pitães Diogo Colaço , e Luiz Machado , oi 
quaes por acharem os tempos contrários , 
tornaram a arribar efpalhados pêra diver- 
fas partes , ficando efte anno aquellas Ilhas 
fem foccorro algum , o que caufou em to- 
dos grande defefperaçao ; ecomiíto fe cer- 
rou o inverno , no qual nos cabe darmos 
relação das coufas , que aconteceram a Gon- 
falo Pereira Marramaque , depois que o dei- 
xámos (com as coufas mais neceíTarias) até 
agora. 

Ficaram as coufas daquellas Ilhas na- 
quelle grande aífalto que o Rey deTerna- 
te deo á noíTa Fortaleza , em que fez aqueL-. 
le eftrago , e ganhou a povoação , e entipa- 
ram o baluarte aquelles dous esforçados 
cavalleiros Luiz Damó , e Belchior Vieira 
fizeram aquellas façanhas que contei , fican- 
do aiíim as coufas naquelle miferavel eíla- 
do , e a Fortaleza de Ternate arrifeada a 
fe perder; fuecedeo huma obra maravilho- 
fa , e não efperada em tal tempo, que foi 
chegar EIRey de Tidore pela banda do 
mar á noíla Fortaleza em duas corocoras ; 
e fem o moverem as bombardas , que os 
rjoíTos lhe tiraram , foi com muita feguran- 
ça pôr a proa em huma praia no lugar em 
que eílava huma Ermida de noífa Senhora , 
que fempre acode ás grandes necefíidades , 
e mandou defembarcar hum tio -féu lo , o 

qual 



Década IX. Cap. VIL 29 

qual foi levado muito honradamente ao Ca- 
pitão , porque foi conhecido , e delie mui- 
to bem recebido ; e depois de eftarem fen- 
tados , lhe difle , que EIRey feu fobrinho lhe 
mandava dizer , que era muito feu amigo ; 
e que pofto que fora em companhia de EI- 
Rey de Ternate na entrada de fua povoa- 
ção , que lhe jurava por fua Lei, que nada 
levara das coufas , que fe tomaram daquel- 
le aftalto , mais que aquelle retabolo de 
noífa Senhora , que lhe mandava de pre- 
fente ; e que lhe fazia a faber que elle per- 
dera naquella guerra mais que todos , por- 
que lhe mataram feu tio Regedor de Be- 
navé ; e defenrolando huns pannos , tirou o 
retabolo de noíla Senhora , e D. Álvaro de 
Ataíde fe levantou > e pofto de joelhos o 
tomou , e adorou , como fizeram todos os 
Portuguezes 5 que alli eftavam ; e logo def- 
pedio huma peífoa de recado a EIRey com 
os agradecimentos daquella mercê que lhe 
fizera, e que pêra fer perfeita havia de ha- 
ver por bem que feu tio ficaíTc naquella 
Fortaleza , porque tinha muitas coufas que 
tratar com elle devagar , e que lhe fizeííe 
mercê de o mandar prover de mantimen- 
tos por feu dinheiro , e por moftrar nifíb 
a amizade que com elle tinha , e com ef- 
te recado lhe mandou de prefente algumas 
peças curiofas } porque eftes Reys todos ef- 

tam 



3«o ÁSIA de Diogo de Couto # 

tam com os ouvidos no recado, e com 03 
olhos nas mãos a ver fe lhes levam alguma 
couía. Dado o recado, EIRey moftrou fol- 
gar muito com os agradecimentos ; e ven- 
do que o rio ficava na Fortaleza , entenden- 
do que ainda a que o não confentiífe, lho 
não dariam , mandou refponder ao Capitão , 
que era muito contente do que lhe manda- 
va pedir , e que elie a mandaria prover 
muito bem; e com iíto fe tornou, e dalli 
por diante começaram de ir os Tidores á 
Fortaleza com os mantimentos , o que fa- 
ziam de noite, porque os Ternates os não 
videm. O Capitão agazalhou muito bem o 
tio de EIRey , e defua cafa o mandou pro- 
ver abaíladamente , porque bem fabíam os 
poucos mantimentos que na Fortaleza ha- 
via , e aílim efteve quarenta e ílnco dias na 
Fortaleza , e no cabo delles pedio licença 
pêra fe ir , a .qual o Capitão lhe deo , e o 
acompanhou até á praia , tendo com elle 
grandes cumprimentos. 

Tanto que Gonfalo Pereira teve reca- 
do do trabalho , em que os da Fortaleza 
eítavam , logo fe embarcou pêra os lbccor- 
rer , não levando mais que a fua efcufa ga- 
lé com dezoito peças de artilheria, carne- 
Jetes, falcões, e berços, e quarenta Tolda- 
dos com mais huma fuíla, de que hia por 
Capitão João Rodrigues- -de Beja com vin* 

te. 



Década IX. Cap. VIL 31 

te foldados , e duas corocoras , com doze 
foldados cada huma , e dezefeis champanas 
cheias de mantimentos , e deixou na For- 
taleza de Amboino D. Duarte de Mene- 
zes , e com elle Sancho de Vafconcellos por 
Capitão do mar. Deitas preparações do Ca- 
pitão mor foi logo EIRey de Ternate avi- 
lado j pelo que determinou de ver fe po- 
dia impedir aquella jornada , porque de- 
terminava de apertar tanto com aquella For- 
taleza até que a tomaíle ; o que não pode- 
ria fazer, fe Gonfaío Pereira lá paílaffe; e 
p-era que eíle feu penfamento vieíTe a effei- 
ta , defpedio a Reboangé com huma boa 
Armada pêra ir contra Amboino , a fim de 
entreter por lá o Capitão mor , e quando 
elle folie já partido , dar na Fortaleza , e 
tomalla ; e pofto que o Pveboangé fe apref- 
fou , já quando chegou havia poucos dias 
que o Capitão mór era partido , e foi pôr 
cerco ao lugar de Ulate nas Ilhas de Ilia- 
fer, cujos moradores eram grandes amigos 
dos noffos , do que D. Duarte foi avifado , 
edefejou bem de lhes acudir, mas não po- 
de por lhe faltarem navios , e com tudo ne- 
gociou huma fuíla já velha \ e de huma 
champana i que foi dos Jáos , ordenou ou- 
tra \ e armou duas corocoras , em que def- 
pedio Sancho de Vaíconcellos em foccor- 
jro' dos cercados 3 e quando lá chegou, qua* 

ren- 



32 ÁSIA de Diogo de Couto 

renta dias havia que citavam de cerco ; e 
vendo os Ulates o foccorro , cobraram fao 
grande animo , que fe fahíram do lugar fi- 
tiado , e commettêram as cítancias dos ini- 
migos , e com morte de muitos Jhas ga- 
nharam , e os fizeram fugir , e Reboangé 
fe embarcou na fua Armada , e paflbu por 
muito perto de Sancho de Vaíconcellos ; 
porém não fe atreveo ao commetter. O San- 
cho de Vafconcellos tanto que chegou ao 
lugar de Ulate , defembarcou com fua gen* 
te , e foi recebido de todos os moradores 
com grandes feitas , e muitos ceítos cheios 
de cabeças dos inimigos , que degolláram 
naquelle aílalto que lhes deram j e depois 
que alli defeançou , fe tornaram pêra a For- 
taleza, ficando os Ulates em grande obri- 
gação aos noífos pelo foccorro que lhes de- 
ram ; e indo com fua Armada tanto á van- 
te , corno o lugar de Ruanivé , lhe deram no- 
vas como D. Duarte de Menezes era fale- 
cido de humas febres agudas que lhe de* 
ram 5 ainda que alguns prefumíram que fo- 
ra peçonha. O Sancho chegando á Forta- 
leza tomou pofíe delia pelo deixar D. Duar- 
te nomeado por Capitão. 

Os Itos tanto que viram ido o Capitão 
mor , e D. Duarte morto 5 viram que lhes 
ficava boa conjunção pêra fe levantarem , 
c vingarem das vitorias que os noífos ti* 

nham 



Década IX. Êap. Vlt |§ 

nham havido contra dles , pêra o que fe 
cartearam com os principais lugares da 
Ilha deito 5 perfuadindo^os afe virem ajun«* 
tar com elles contra os noíTos , affirmando- 
lhes queReboangé, Capitão mór da Arma- 
da de Teríiate , fe fora refazer ás Ilhas de 
Burro b e Xuló pêra tornar contra a nòífa 
Fortaleza ; ao que os moradores lhes re- 
fpondêram , que fe o Reboangé tornaíle com 
o podef que diziafri , que elles eftavam pref- 
tes pêra fe juntarem a elles ; ao que os 
Itos lhes tornaram a mandar dizer, que efc 
tiveífem preftes pêra a facção , que fe jun- 
tariam a elles , porque Reboafígé trazia 
maior poder do que lhes mandavam dizer , 
e tudo ifto eram ardis dê Reboangé, que 
eílava refazendo-fe na Ilha de Burro* San- 
cho de Vafconcellos eílava innocenté deita 
conjuração , e por iílb defcuidado do que 
lhe fobreveio , tinha lançado fora huiiia Ar- 
mada de finco còrocòraá , em que êlle qui2 
ir correr as Ilhas 5 e deixou em feu lugar 
Ayres Pinto da Fonfeca : levava Sancho 
comfigo hum foldãdo chamado Simão, de 
Abreu , de alcunha o Papa Ferro , a qual 
alcunha lhe puzeram , porque enl fété def* 
afios que teve tomou fete efpadas a feus 
contrários , e elle hia por Capitão de hu- 
ma corocora , e na outra hum Alexandre de 
Matos da obrigação de D. Duarte ,- e nas 
Couto. Tom. V. P. iL C ou- 



34 ÁSIA de Diogo de Couto 

outras duas corccoras hiam dous filhos de 
Amboino meftiços. Com efta Ajrmada paf- 
fcu Sancho de Vafconcellos á coita de Ba- 
naor a bufcar mantimentos > e nefte cami- 
nho fez muitas prezas. Os Itos tanto que 
ibuberam que o Sancho era fora da Forta- 
leza , logo avilaram a Reboangé , e de- 
ram recado aos conjurados , pêra que eíti- 
veflem preftes , que logo feriam comelles, 
como fez em trinta corocoras. Juntos to- 
dos , foram bufcar o Sancho á Ilha de Va- 
renúla, de que elle teveavifo, pelo que lo- 
go fe embarcou em huma corocora peque- 
na , e muito ligeira , em que com grande 
Í>reíTa fe foi pêra a Fortaleza , por lhe não 
ucceder algum defaftre, deixando a Arma- 
da entregue ao Papa Ferro j e chegando a 
ella, foi avifado que o Reboangé era paf- 
fado áquella cofta de Termelor , onde ti- 
nha deixado o Papa Ferro com a Armada ; 
pelo que o mandou avifar por huma em- 
barcação muito ligeira , e dizer-lhe que lo- 
go fe foíTe pêra a Fortaleza , e que foífe 
pela coíla da Ilha de Rofalaor, cujos mo- 
radores eram nofíbs amigos ; e achando no- 
vas que o Reboangé o hia bufcar , fe fi- 
zeífe forte nos juncos dosjáos, que tinham; 
tomado de preza ; e querendo o Papa Fer-. 
ro fazer o que Sancho de Vafconcellos lhe 
mandava 3 embarçando-fe na Armada , fe 

foi 



Década IX. Cap. VII. 35* 

foi affaítando, e hum Padre da Companhia 
Italiano chamado Lomedo lhe diíle com 
bom zelo, que não era bem deixar na praia 
de Calelobate quatro Portuguezes , que ai- 
li eftavam por ler tão perto ; ao que o Pa- 
pa Ferro voltou pêra lá as proas , e che- 
gando áquelle lugar, o achou queimado da 
gente do Reboangé , que nelle defembar- 
cou, e os noflbs Portuguezes fe acolheram 
ao mato , o que logo pareceo podia fer : 
defembarcando alguns , foram gritando , ao 
que elles acudiram , e fe embarcaram na 
Armada , e deram por novas, que O Re- 
boangé eftava na enteada, que era nameí^ 
ma coita , pelo que todos foram de pare* 
cer que fe deixa/Tem ficar aquelle dia , e 
que á noite atraveíTaflem a Rofalaor, ou a 
Chiamão* Alguns dizem que o Papa Ferro 
perguntara aos quatro Portuguezes o que 
Faria , ao que elles refpondêram que elle 
^era Capitão mor , que faria o que lhe bem 

})arecelle , que elles o feguiriam ; e dando- 
he a defconfiança diílo , diífe que elle não 
era D. Jorge de Menezes o Baroche, nem 
D. Duarte de Menezes pêra ter tamanha 
confiança, que fe puzefíe em fugida, fem 
ver de que : que depois que viíle o inimi* 
go , faria o que o tempo lhe enfinaíle , e 
mandou remar pela cofta adiante quail ás 
oito horas do dia -> e como o Reboangé e£ 
C íi ta- 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

tava dalli perto , defcubrio logo os noíTog 
navios , e lhe fahio muito apreflado com 
toda fua Armada. Simão de Abreu largou 
os juncos dos Jáos que levava, e juntou a 
li as fuás corocoras , que eram ligeiras , com 
tenção de romper por meio dos inimigos , 
que vinham em huma meia lua , e paliar 
á outra banda. A corocora , em que hiam 
os quatro meftiços , não podia acompanhar 
as mais por levar ruim efquipação ; e ven- 
do-a os inimigos ficar atrás , atiráram-lhe 
algumas bombardadas ; e pondo-fe todos a 
huma banda , fe virou a corocora , e elles 
fe lançaram a nado , as outras lhe acudi- 
ram , e os falváram , è todos os mais. Na- 
quella detença chegaram os inimigos ánof- 
la Armada , com a qual travaram ; entre el- 
les fe começou huma afpera batalha , e no 
furor delia , em que o Padre Lomedo an- 
dava animando os noífos , lhe deram com 
hum tiro de arremeço, de que cahio mor- 
to. O Papa Ferro , e os mais foram pele- 
jando, e rompendo pela Armada inimiga., 
e de paíTagem axorou o Papa Ferro huma 
embarcação dos inimigos ; e virando a el- 
la pêra a tomar , parecendo-lhe que os mais 
o leguiíTem, os vio ir acolhendo voga ar- 
rancada. Vendo-o oReboangé ficar fó, vi- 
rou a elle com outras corocoras, e logo o 
abordaram > e depois de huma grande ba- 
ta- 






Década IX. Cap. VIL 37 

talha 3 em que o Papa Ferro fez maravi- 
lhas , foi entrado , e morto com os vinte 
e íinco companheiros que levava. Antó- 
nio Lopes de Rezende, Capitão da outra co- 
rocora , que tinha honra , e valor , vendo 
o Papa Ferro abordado, virou a elle, e o 
foi íòccorrer no maior impeto do confli- 
ílo , mas já achou tudo concluído , e na 
proa da fua corocora o Patê de Atua, que 
eílava com fua efpada , e Solabaco pelejan- 
do valerofamente , ao qual elle bradou que 
fe lançaífe a nado , que elle o tomaria ; ao 
que elle lhe refpondeo , que pois o feu Ca- 
pitão era morto , que não queria elle efca- 
par. Neíla detença foi o António Lopes 
cercado dos inimigos , com os quaes pele- 
jou denodadamente até tomar hum berço 
ao hombro ; e vendo ir o Reboangé pêra 
elle, diíTe a hum foldado, que quando lhe 
fizeífe finai , lhe puzeífe fogo , como fez ; e 
difparando o berço , foi tal fua ventura , 
que tomou o Reboangé por hum joelho , 
e deo com elle dentro na corocora ; e cui- 
dando os feus que era morto , acudio a el- 
le toda a fua Armada, com o que António 
Lopes teve tempo de fe recolher , levando 
quatro companheiros feridos , que morre- 
ram : e fe as outras corocoras não fugiram , 
certo eílava alcançarem os noífos a vitoria. 
O Patê de Atua não fe quiz falvar , co- 
mo 



38 ÁSIA de Diogo de Couto 

mo digo , e deixou-fe eftar na embarcação 
do Papa Ferro com quem hia ; e chegando- 
fe a ella huma corocora pêra ver fe havia 
que roubar , achou o Patê , de que logo 
lançou mão fem o conhecerem , nem elle 
fe quiz nomear ; mas diíTe-lhe que o levaf- 
fem állha deBoano, que daria porfi bom 
refgate , pelo que os Boanos o efeondêram , 
e agazalháram bem, O Reboangé recolheo- 
fe aíTim ferido a Varenula , e logo foube 
fer vivo o Patê de Atua ; e como era gran- 
de feu inimigo , mandou lançar bando com 
grandes penas , que quem o tiveíTe lho le- 
vafle; e que quem lho defcubriífe 5 lhe da- 
ria muito dinheiro ; o que fàbido dos Boa- 
nos , o levaram , porque logo foi conheci- 
do ; e poílo diante do Reboangé muito in- 
teiro , qIIq lhediíTe que de duas coufas ha- 
via de fazer huma ,■ ou arrenegar da Lei 
dos Chriftãos pelo elle fer , ou que havia 
de varar por íima delle a fua corocora ; ao 
que o confiante Cavalleiro de Chriíto re- 
fpondeo, que elle era Chriítao, e que na 
Fé que profeíTára , havia de morrer : e que 
não dizia elle varar a fua corocora por íi- 
ma delle 5 mas que todas quantas trazia a 
fua Armada» Vendo o tyranno aquelle def- 
engano , e conftancia 9 mandou-o atraveA 
far no varadouro dos navios , e por íima 
delle fe varou a fua corocora , que era ta- 

ma- 






Década IX. Cap. VIL 39 

manha como huma galé , tendo elle fem- 
pre os olhos no Ceo , e chamando pelo no- 
me de Jefus , e allim foi defpedaçado : no- 
vo modo de martyriò , e grande occafião 
de darmos todos grandes graças aDeòs nof- 
lo Senhor por vermos hum bárbaro crea- 
do entre os ruíticos , e efpeflbs matos de 
Amboino tão conftante , e inteiro na Fé de 
noííb Senhor Jefu Chriíto \ o qual por cer- 
to temos lhe daria o galardão \ e coroa do 
martyriò , que tão valerofamente foubè me- 
recer. 

CAPITULO VIIL 

Da grande vitoria , que Gonfalo Pereira 
alcançou de EIRey de Maluco. 

PArtido o Capitão mor de Amboino $ 
como diíTemos , fendo tanto avante co- 
mo as Ilhas de Bacao por Negoriche , que 
são dezoito léguas de Ternate , lhe fahio 
efte Rey, e o de Tidore com os Sangages 
daquellas Ilhas com íincoenta corocoras ta- 
manhas como galés reaes ; porque o Rey 
de Ternate tanto que foube que o Rey era 
partido de Amboino , logo ajuntou aquel- 
les Senhores , e aquella Armada pêra o ir 
efperar ao caminho. Gonfalo Pereira tanto 
que vio tão groíla Frota 5 ajuntou os feus 
navios , a fua galeota > e tomou no meio 

as 



4o ÁSIA de Diogo de Couto 

as embarcações dos mantimentos , e fe pre- 
parou pêra aquelle conflito , em que lhe 
era neceíTario moftrar todo o valor , por- 
que bem vio que o negocio era muito ar^ 
rifcado ; mas não perdendo ponto em feu 
animo , pofto em íhna do toldo ? animou os 
feus íòldados com a brevidade a que q 
tempo deo lugar , e efperou os inimigos 
mui confiado em Deos noflb Senhor , a quem 
fe encommendou muito do coração, EIRey 
de Tidore endireitou com a galeota do Ca-» 
pitão mor , pêra que o de Ternate com 
mais goíto lhe déíle a irmã em cafamento , 
como lhe tinha promettido , e lhe poz a 
proa pela rabada > e vindo já pêra o inves- 
tir, quiz Deos que hum foldado chamado 
João Machado, que trazia áfua conta hum 
falcão , Jfye déííe fogo çm hora tão ditofa , 
que tomou a galeota de ppppa á proa ; e 
como levava carga de huma boa roca de 
feixos, aaxorou logo, defpeçando a maior 
parte da gente, e o Rey dç Tidore cahio 
tão mal ferido , que cijidáram todos que 
era morto j ejuntando-fças fuás corocoras , 
deram toa á de EIRey , e fe affaftáram ; e 
O Rey de Ternate vendo aquelle deftroço, 
foUfe á galeota do Tidore a faber fe era 
morto. João Rodrigues de Béj^ vendo os 
inimigos aíFaftados , foi-fe á galeota do Ca-r 
pitão mór a ver fe havia lá algum perigo ; 

e 






Década IX. Cap. VIII. ' 41 

e vendo-o são , e muito gentil homem > e 
alegre , fe poz fobre o banco de alvorar 
armado de armas brancas com a efpada na 
mão , capeando aos inimigos que chegaf- 
fem. Succedeo naquelle tempo andarem al- 
gumas corocoras ligeiras pequenas atiran- 
do muitas bombardadas aos noíTos , que ef- 
tavam fem remar , e quiz a fortuna que en- 
direitaíTe hum pelouro pêra elle , e o to- 
malTe pelo hombro efquerdo 5 que lho def- 
pedaçou , de que logo cahio mortal , e não 
durou mais que três , ou quatro dias. Foi 
efte Fidalgo filho de Rodrigo de Vaícon- 
cellos , Veador que foi do Infante D. Luiz ; 
o Capitão mor fentio aquelie defaítre na 
alma pelo muito que nelle perdia ; e ven- 
do-fe aliviado dos inimigos , deo á vela pê- 
ra Ternate , aonde chegou ao outro dia , que 
foi tão feftejado de todos y como aquelie j 
que lhe levava o remédio. 

CAPITULO IX. 

J)o foccorro que D. Leoniz, Pereira Capi* 
tão de Malaca mandou a Maluco. 

VEndo D. Leoniz Pereira Capitão de 
Malaca , que não vinha foccorro ne- 
nhum da índia pêra Maluco , e que aquel- 
la Fortaleza eílav^ tão arrifcada a fe per-* 

der, 



42 ÁSIA de Diogo de Couto 

der , negociou hum fermoíb galeão , e o 
mandou carregar dos mantimentos , muni- 
ções , e roupas que pôde , e pagou kffen- 
ta foldados , e elegeo pêra aquelié foccor- 
ro a João da Silva Pereira leu fobrinho , 
filho de Ruy Pereira da Silva , o qual par- 
tio por via deBorneo; e deo-llie nofíb Se- 
nhor tão boa viagem, que em pouco tem- 
po chegou a Ternate, com o qual foccor- 
ro os noíTos parece que refufcitáram , e co- 
meçaram a levantar cabeça. Andava nefte 
tempo que João da Silva chegou , huma 
Armada de EIRey de Ternate , fazendo 
guerra a huma Fortaleza , que tínhamos no 
Morro , na qual eftava por Capitão Hen- 
rique de Lima com íincoenta foldados , os 
quaes Gonfalo Pereira foi logo foccorrer; 
e chegando áquella Fortaleza, pàrcceo-lhe 
bem desfazella , e recolher a gente, por- 
que o Capitão de Ternate afsás tinha que 
fazer em fe fuílentar a íi , quanto mais a 
outra Fortaleza, e aílim o fez, e recolheo 
na fua Armada todos os Porruguezes ; o que 
vifto pelos naturaes , nãò quizeram ficar na 
boca do lobo , como dizem , porque o Rey 
de Ternate era feu inimiciífimo ; e toman- 
do todos mulheres , filhos , e fazendas , fe 
embarcaram também pêra Ternate. Reco- 
lhido tudo ifto naqueila Fortaleza , logo o 
Capitão mor fe par tio pêra Bachão , levan- 
do 



Década IX. Cap. IX. 45 

do comligo João da Silva pêra naquella 
Ilha fe ir prover de mantimentos , confiado 
naquelle Rey , que era Chriítão , e amigo ; 
mas achou-o já com o coração damnado , 
e andou entretendo o Capitão mor tantos 
dias, que de nojo, e trabalho veio a adoe- 
cer, pelo que fe tornou pêra Amboino; e 
chegando áquella Fortaleza, e fabendo da 
morte de D. Duarte , e de como os luga- 
res daquella Ilha eítavam todos levantados 
contra os noíTos , e do desbarate da Arma- 
da do Papa Ferro, tomou tamanho pezar, 
que foi peiorando, e em poucos dias fale- 
ceo. Gabriel Rebello diz , que morreo in- 
do de Bachão pêra Amboino , e que o feu 
corpo fora lançado ao mar, como fizeram 
ao Rey Aeyro de Maluco, em cuja morte 
elle foi confentidor : feja como for , elle 
acabou miferavelmente cheio de dividas , 
do que tomou de fazendas ás partes. Abrio- 
fe feu teítamento , e achou-fe nomeado em 
feu lugar João da Silva , que logo tomou 
£0ÍTe da Armada , e começou a correr com 
luas obrigações. 



CA- 



44 A SI A de Diogo de Couto 

CAPITULO X. 

Da mudança da Fortaleza de Amboino pê- 
ra o lugar da Cova. 

JOao da Silva tanto que tomou poíTe do 
cargo de Capitão geral daquelle mar , co- 
meçou a tratar das coulas que convinham 
áquellas Ilhas , que eftavam em grande rif- 
co , pelo fitio em que a Fortaleza eftava, 
que era na Ilha de Ito , cercada por todas 
as partes de inimigos 5 e não podia fer foc- 
corrida , fenão com grande rifco ; pelo que 
houve pareceres que áquellas Ilhas fe ha- 
viam de largar , e irem-fe todos pêra Ma- 
laca , porque tanto trabalho , e fome não 
o podiam aturar corpos humanos \ íb San- 
cho de Vafconcellos diíTe que nunca Deos 
quizeíTe que aflim fe largalie aquella Chri- 
ílandade , que tantos cativeiros , mortes , e 
trabalhos tinham paífado , aífim pela Fé de 
Chrifto , como por fuftentarem a amizade 
dos Portuguezes ; e tornando a haver gran- 
des alterações fobre o que eftava votado , 
pelos mais em fe irem todos pêra Malaca , 
Tornou Sancho de Vafconcellos a dizer, que 
fe defenganaífem todos , que elle não ha- 
via defamparar aquella Chriftandade, nem 
era razão deixarem áquellas ovelhas na bo- 
ca dos lobos : que elle eftava determinado 

em 



Década IX. Caí>. Xt 45 

cm fe deixar eftar em Amboino do modo 
que o Capitão geral ordenaífe , ou por Tol- 
dado , ou por Capitão , porque ou de hu- 
ma, ou de outra maneira elle fe atrevia a 
ter em pé ? e íuftentar aquella Chriftanda- 
de toda; e que quando o Capitão mor não 
quizeífe, que elle tinha trinta foldados de 
lua fevadeira , com os quaes havia de fa- 
zer no lugar de Ulate hum recolhimento 
o mais fortificado que pudeífe pêra ficar 
com elles : e que affirmava mais , que quan- 
do aquelles trinta foldados não quizefTem 
ficar com elle , que elle fó havia de ficar 
alli , e que fó com os Chriílãos amigos ha- 
via de fuftentar aquellas Ilhas , que por mui- 
to ditofo fe haveria , quando fua ventura 
foffe tão grande que acabaífe a vida naquel- 
le ferviço de Deos , e de feu Rey ; e en\ 
fim foram taes ascoufas, que fobre iftodií- 
fe y que fe envergonharam todos , e fe re- 
trataram a lhe parecer bem o que Sancho 
de Vafconcellos dizia , e fe conformaram 
todos em que mudaíTem a Fortaleza pêra 
a ponta de Rofanive , na qual eftava num 
lugar de Ulilhenos 5 grandes amigos dos 
Portuguezes , que aílim elles , como outros 
amigos os proveriam , o que não poderiam 
fazer ficando alli 5 onde então eftava a For- 
taleza , por fer muito affaftado d elles. 
Deita ponta de Rofanive pêra a Ilha 

de 



40 ASIÀ de Diogo de Couto 

de Ito faz, huma enfeada muito penetrai!* 
te , a qual fera de mais de quatro léguas 
de comprido pêra dentro da terra, três de 
largura na boca ; e aílim como vai pêra 
dentro, fe eítreita, e falta-lhe por romper 
aquella Ilha , pêra ficar em duas , até ou- 
tro mar hum tiro de berço ; mas ifto he no 
fim de hum eftreito , que deíla enfeada vai 
pela terra dentro, que fera de duas léguas 
de comprido, pelo qual pode ir huma co- 
rocora de maré cheia, por grande que feja , 
fomente lá no fundo do facco he neceífario 
varalla , e Jevalla áquelle efpaço que diífe. 
Efte fundo deíla enfeada fe chama a Co- 
va , ou defde fua boca até dentro ; porque 
tanto que por ella entram quaefquer náos , 
ficam como em hum muito brando , e fe- 
chado tanque. Neíla paite que digo fe af- 
fentou fazer-fe a Fortaleza , fica na terra 
da Ilha de Ito , com os lugares de Ative , 
Tarire , Curálo , Chuno ; e da outra banda 
no fundo da enfeada cftá o lugar de Ro- 
fanive , o qual goza de duas praias , e he 
lugar farto , e de muitos mantimentos , mas 
de pouco Ságum , que he como entre nós 
o trigo : mais pêra dentro tem os lugares 
de Soya , Puta , Aló , e Bagoela , em que 
ha muito: da banda da contra-colta do Sul 
eftão eítes lugares, Tiaíre, Seiró, Quilao, 
Nacohema> eTimure, que são muito abaf- 

ta- 



Década IX. Cap. X. 47 

tados , e grandes noflbs amigos 5 e por ta* 
das eítas razões fe aflentou, que fe mudaf- 
fe a Fortaleza pêra aquella enfeada , o que 
logo fe poz por obra , e fe embarcaram na 
náo , em que foi João da Silva , e no ga- 
leão S. Francifco, que tinha ido de Mala- 
ca pêra a Ilha de Jaoa , na qual fe embar- 
cou Sancho , e todas as mais embarcações 
que havia. João da Silva com a fua náo , 
e a maior parte das embarcações } foi pela 
parte de VacaíTeo muito bem , e Sancho 
foi pela de Leite , parecendolhes que lhes 
não faltariam virações da parte do Sul , pê- 
ra poderem entrar mais folgadamente na 
enfeada da Cova , o que lhe aconteceo ao 
contrario , porque ventáram Leites , que al- 
li são deígarrões, com o que não pode fer- 
rar a terra. O Piloto foi-fe na outra volta, 
pêra perder o fundo na ponta de Roíàni- 
ve , por citar aconfelhado com os mais do 
galeão , com tenção de fe çafarem pêra Ma- 
laca , porque como naquelia parte perdem 
o fundo , não fe pode mais cobrar. Diíto 
foi Sancho de Vafconcellos avifado á meia 
noite ; e diíTimulando o cafo , fallou com 
os foldados de lua obrigação fobre o que 
haviam de fazer , que foi tomarem as ar- 
mas , e ellç também o fez , e com elies fe 
foi ao chapitel , e mandou governar ao Pi- 
loto pêra terra ; ao que o Meitra refpon- 

deo, 



48 A SI A de Diogo de Couto 

deo , que fe não podia chegar a ella , poí* 
que tudo eram baixos , em que fe haviam 
de perder ; ao que elle lhe refpondeo que 
fizelíem o que lhe mandava , e que fe per- 
dèílem embora , porque antes queria mor- 
rer , que dizerem delle que fugia aos tra- 
balhos ; e como eltes homens do mar são 
teimofos 5 foram governando pêra terra, e 
acinte puzeram o galeão em fecco. Vendo- 
fe Sancho de Vafconcellos daquella manei- 
ra, metteo-fe no batel com os mais dos foi- 
dados , e fe foi pêra terra , onde os Rofa- 
nives os agazalháram , e por terra os le- 
varam até outra banda da enfeada , onde 
João da Silva já efíava, o qual fentio mui- 
to a perda do galeão, mas acudio ao mais 
neceífario , que foi prover o melhor que 
pode em algumas faltas que havia de pro- 
vimentos pêra aquella gente , que perecia 
á mingua ; e como já era chegada a mon- 
ção de Malaca , entregou tudo ao Sancho y 
e fe partio pêra paliar a Goa a dar conta 
ao Vifo-Rey das miferias , e trabalhos , em 
que os noflbs , e os Chriftãos naturaes eí- 
tavam , e primeiro ordenou huma maneira 
de Forte pêra recolhimento dos noíTos , em 
quanto Sancho de Vafconcellos não fazia a 
Fortaleza , que eítava ordenada , e neíte ef- 
tado deixaremos ascoufas deílas Ilhas, por 
irmos fucceíii vãmente continuando com as 
coufas em feus tempos. CA- 



Década IX. Cap. XL 49 

CAPITULO XL 

Das coufas que pajfdram entre o Vifo-Rey 
D. António de Noronha , e António Mo- 
niz Barreto > Governador de Malaca. 

OS cercos paífados não deram lugar pé* 
ra continuarmos com as coufas , que 
pairaram entre o Vifo-Rey D. António de 
Noronha , e António Moniz Barreto , Gover- 
nador de Malaca ; e porque sãô matérias 
fubitanciaes , darei razão delias ò mais ab* 
breviadamente que puder > pêra o que fe ha 
de faber , que quando D. António de No- 
ronha foi eleito em Almevrim por Vifo- 
Rey , aonde eu também eítava requerendo 
os ferviços da índia b tendo EIRey D. Se- 
baíliao informação das grandes inquieta- 
ções 5 que o Achem dava á noíTa Fortale- 
za de Malaca , praticando o remédio diílo 
com os de feu Confelho > aíTentáram que era 
neceíTario haver em Malaca Governador fe* 
parado do Vifo-Rey da índia , por não ef- 
tar dependente do feu foccorro , e provi- 
mento , ao qual o Vifo-Rey que aquelle an- 
no foíTe, déífe Armada baílante pêra dous 
mil homens , que também lhe havia de dar: 
e que as defpezas daquella governança fe 
fariam dos direitos das náos da China , Ma- 
luco , e das mais partes ^ que poderiam ini- 
Cm to. TmuF. P.iL D por- 



yo AS IA de Diogo de Couto 

portar trezentos mil pardaos , que ficavam 
faltando ao rendimento da índia ; e aíTen- 
tado ifto , quando D. António de Noronha 
foi eleito por Vifo-Rey , logo EIRey lhe 
declarou o que neíle particular fe tinha af- 
fentado , de lhe dar dous mil homens , e Ar- 
mada apparelhada pêra elles , em que Antó- 
nio Moniz Barreto iria ; e como eíte Vifo- 
Rey eítava pobre, e com filhos, acceitou a 
jornada com as condições aflima ditas , e 
não fei fe com obrigações , que deixou em 
confelho daquillo a que fe obrigava, faben- 
do elle muito bem como Capitão , que ti- 
nha andado na índia tantos annos , que nem 
a índia tinha tamanho cabedal pêra tirar 
de íi, nem elle podia dar cumprimento ao 
que fe obrigou ; porque lhe pareceo que 
em chegando- á índia, ainda que não àé[[e 
tudo aquillo a António Moniz , que com 
qualquer coufa , que lhe déíle moderada- 
mente, fe contentaria; e o mefmo António 
Moniz Barreto conhecia muito bem 3 que 
o Vifo-Rey D. António de Noronha não 
podia cumprir o que lhe promettêra , de 
maneira que ambos fe enganaram , ou os 
enganou a neceífidade em que fe viam : em 
fim a efta conta mandou EIRey negociar 
náos , e pagar quatro mil homens , de que 
não chegaram á índia dous mil sãos , por- 
que todos morreram neíta viagem , que foi 

tra-t 



Década IX. Cap. XI. yi 

trabalhofiíTima de febres , e inchações de 
pernas , porque cuido que traziam ainda al- 
gumas fezes daquella contagiofa peite > que 
deo no Reino de Portugal o anno atrás ; e 
fó na náo Chagas > em que eu vim embar- 
cado com o Vifo-Rey D. António , que tra- 
zia novecentos homens > morreram mais de 
quatrocentos e íincoenta ; e na náo Belém , 
em que António Moniz vinha, mais de tre- 
zentos ., e aílim pelas outras embarcações 
da Armada. 

Chegada eíla Armada a Goa , achando, 
como dilfe , toda a índia de guerra > não 
teve António Moniz que fazer; mas depois 
de feitas as pazes , e concertadas as cou- 
fas , vindo-fe chegando a monção de par- 
tirem as náos , vio-fe António Moniz Bar* 
reto com o Vifo-Rey D, António , prefen- 
tes o Secretario , Veador da Fazenda , e Fi- 
dalgos velhos do Confelho, e lhe moílrou 
fuás provisões 5 e requereo que o negociaf- 
fe , e lhe déíTe a Armada 9 que EIRey man- 
dava , porque fe queria partir cedo pêra 
Malaca , porque havia naquellas partes ne- 
cellidade da lua prefença. O Vifo-Rey lhe 
diífe , que elle eftava prompto pêra fazer 
o que EÍRey lhe mandava ; mas que bem 
via o eftado em que achou a índia cerca- 
da de todos os Reys do Oriente , e a fa- 
zenda Real neceffítada , e empenhada pelas 
D ii mui- 



5*2 A SI A de Diogo de Couto 

muitas defpezas que fez nas guerras de Goa f 
e pelos foccorros que fez ás Fortalezas i a 
que foi neceífario acudiíTe por fe náo per- 
derem : e que também via que dos quatro 
mil homens com que do Reino partiram , 
não havia dous mil que eftiveíTem fufficien- 
tes pêra tomar armas ; mas que com tudo 
fuppoltas as impoífibilidades referidas , que- 
ria pôr em Confelho a Armada , gente , e 
provimentos que lhe haviam de dar, e do 
que fe aíTentafle o mandaria avifar pelo Se- 
cretario ; e com iílo fe recolheo o Gover- 
nador António Moniz Barreto , entendendo 
que não eftava o Eftado pêra lhe darem tu- 
do o que EIRey mandava. 

O Vifo-Rey poz aquelle negocio em 
Confelho dos Fidalgos , e Capitães , e lhes 
propoz fobre elle o que lhe pareceo mais 
ferviço de EIRey , e bem do Eftado , e en- 
tre todos fe praticou o cafo , e aílentáram 
que o Eftado da índia não eftava pêra ti- 
rar de fi tamanho cabedal: que quando EI- 
Rey ordenara aquella divisão do Eftado, 
eque fe déííe aquella gente, e Armada que 
D. Anton : o de Noronha promettêra em Por- 
tugal a EIRey, não fabia dos grandes cer- 
cos , trabalhos , e neceílídades em que a ín- 
dia então eftava; demais que EIRey man- 
dara quatro mil homens , pêra delles fica- 
rem dous mil na Índia > e irem os outros 

dous 



Década IX. Cap. XI. 5-3 

dous mil com o Governador António Mo- 
niz Barreto pêra Malaca , dos quaes não 
havia dous mil que fe lhe pudeífem dar: 
que António Moniz fe foífe pêra a fua go- 
vernança de Malaca , e que lhe deflem 
dous , ou três galeões , e algumas galés , e 
fuftas com quatrocentos , ou quinhentos ho- 
mens , e que pêra o anno lhe mandariam 
tudo o que pudefle fer , porque ellava já 
o Eftado mais defafogado. AlTentado ifto, 
deo-fe conta ao Governador António Mo- 
niz , e fe lhe refpondeo por efcrito , cem 
o que elle fe não fatisfez , e diífe que não 
havia de ir a Malaca fenão pela ordem , e 
com o poder que EIRey lhe promettêra, 
porque fe não queria deshonrar ; e porque 
as náos eram já partidas , pêra tomarem a 
carga da pimenta a Còchim , efereveo a 
EIRey o«cafo , fazende-lho mais feio do 
que fera ; e tanto 5 que lhe affirmou que 
nunca oVifo-Rey o aviaria , e que a índia 
ficava tão profpera de tudo , que bem lhe 
pudera o Vifo-Rey dar tudo o que no Rei- 
no lhe promettêra , porque fe elle eílivera 
no governo da índia, pudera dar a gente, 
e Armada a quem quer que foífe pêra Ma- 
laca 5 aífim como EIRey mandava r e lhe 
déíle; e reprefentando-lhe as novidades que 
havia em Malaca , cercos que tinha do 
Achem ir fobre aquella Fortaleza > e que 

ef- 



54 A SI A de Diogo de Couto 

eftava arrifcada a fe perder, edecomoGon* 
falo Pereira Marramaque em Maluca eíta- 
va em grande aperto com a Fortaleza cer- 
cada , e Armada dos Caftelhanos em Gebú , 
e outras coufas deita forte \ a que era ne- 
ceífario acudir-fe , o que elle nao podia fa- 
zer pelo não aviarem. O Vifo-Rey D. Luiz 
de Ataíde foi-fe embarcar aCóchim na náo 
Chagas , em que tinha vindo do Reino o 
Vifo-Rey D, António , e chegou a Lisboa 
muito cedo ; e pelas grandes vitbrias que 
alcançou de todos os Reys da índia , foi 
recebido de EIRey com pallio , e grandes 
honras , porque as merecia. 

Defpachadas as náos do Reino , fendo 
quinze de Janeiro de 1571. teve o Vifo-Rey 
recado 5 que no rio de Banda finco léguas 
de Goa fe recolheram alguns paráos de Ma- 
lavares contra o contrato das paz«s tão pou- 
co tempo havia celebradas com o Idalxa , 
pelo que com toda a preífa defpedio D. 
Henrique de Menezes emhuma galé 5 e fin- 
co navios mais , de que foram por Capi- 
tães António Mafcarenhas , Pedro de Sou- 
fa , Luiz Machado , Duarte Pereira Sam- 

f)ayo 5 e António de Oliveira em huma ga- 
eota de ferviço da galé. 

Recolhido D. Henrique a Goa, logo em 
dezefete de Fevereiro defpedio o Vifo-Rey 
a Jorge de Moura por Capitão mor da coi- 
ta 



Década IX. Cap. XI. f£ 

ta do Norte com duas galés , elle em hu- 
ma , e Pedro Homem da Silva em outra , 
e féis fuítas mais , Capitães Duarte Pereira 
de Sampayo , Ruy de Pina , Nicoláo de Bri- 
to , João Barriga Simões , e Diogo Duarte , 
e riao fez mais que dar guarda á coita , e 
recolher-fe em nove de Maio. 

Neíta companhia foi D. Luiz de Almei- 
da entrar na Capitania de Damão ; e por- 
que em Fevereiro deite anno de fetenta e 
dous acabava os três annos da Capitania 
de Ormuz D. Francifco Mafcarenhas que 
lá eítava , e ao prefente não havia provido 
nenhum , defpedio o Vifo-Rey a Fernão 
Telles , que depois foi Governador, pêra 
lhe ir fucceder , o qual partio de Goa em 
21. de Fevereiro de fetenta e dous , que 
foi no galeão S. João , e tomou polfe da 
Fortaleza , e D. Francifco Mafcarenhas fe 
veio pêra Goa no mefmo galeão. 

Depois de Fernão Telles partido, logo 
em onze de Março defpedio o Vifo-Rey 
a Francifco de Soufa Tavares pêra a cot- 
ta doCanará pêra dar guarda ás cáfilas dos 
mantimentos que haviam de vir a Goa; 
levou duas galés , elle em huma, e Nuno 
Alvares Pinto em outra , três fuítas mais , 
Capitães Damião Furtado , Duarte de Vii- 
lalobos , e Álvaro de Barros. Eíta Armada 
gaitou o verão em trazer as cáfilas de man- 

ti- 



?6 ÁSIA de Diogo de Couto 

timentos , e jangadas de madeiras, maftos^ 
vergas , e outras coufas deitas pcra as Ar* 
madas. 

Porque os Eftreitos de Ormuz eftavam 
defamparados de Armadas , que andaflem na 
guarda das cafdas , que coftumam a vir de 
Baçorá pêra aquella Fortaleza , ordenou o 
Viíb-Rey mandar huma galé , e três navios 
mais pêra de lá tornarem , dando guarda 
ás náos, que haviam de partir em Novem- 
bro , por haver novas andarem fora algu- 
mas galés de Turcos , o que tudo quiz o 
Viíb-Rey prover por. lhe não fucceder al- 
gum defaftre. Nefta companhia defpedio 
o Governador António Moniz cartas pê- 
ra EIRey pêra fe lhe mandarem por ter- 
ra , em que lhe dava conta do que tinha 
paííado com D. António de Noronha Vir 
Íb-Rey da índia , e de como na entrada de 
Abril fe tornara a offerecer pêra ir a Ma- 
laca , como EIRey mandava , dando-lhe a Ar- 
mada , e gente que elle lhe tinha ordena- 
do , tornando a affirmar que fe elle fora 
Vifo-Rey , houvera defpachar Governador , 
que foíTe a Malaca com tudo o que lhe el- 
le mandava dar , porque a índia eftava prof- 
pera , e não faltava mais que vontade ao 
Vifo^Rey. 

Partida efta Armada , defpedio logo o 
Vifo-Rey outra pêra Ceilão , de que elegeo 

por 



Década IX. Cap. XI. 5-7 

por Capitão daquella Fortaleza D. Antó- 
nio de Noronha , que partio no primeiro 
de Maio com huma galé em que elle foi , 
e quatro fuftas , Capitão Fernão Dias de 
Oliveira, Jeronymo Monteiro, e António 
Machado, que todos chegaram afalvarnen- 
to , e D. António tomou poffe daquella Ca- 
pitania. Deitas Armadas atrás não efcrevo 
os íucceíTos , porque não houve coufa no- 
tável de que façamos menção. 

CAPITULO XII. 
Das coufa s que fuc cederam em Maluco! 

NEfta enfeada que já diíTe , quando dei 
relação do lugar, que fe elegeo pêra 
mudarem a Fortaleza , lahe ao mar huma 
ribeira muito frefca, egraciofa, cuberta de 
arvoredo de frutas excellentes , ao longo 
da qual Sancho de Vafconcellos cortou to- 
da a madeira pêra a Fortaleza que fez de 
duas faces , fechada com fuás chaves mui- 
to fortes , entulhada muito bem de manei- 
ra, que pêra aquella parte ficava baítante- 
mente defenfavel , e tinha feus baluartes, 
e guaritas guarnecido tudo de artilheria : 
nefta obra ajudaram , ou pêra melhor dizer , 
fizeram tudo alguns Atives , e Tarives íi- 
delifíimos aífim a Deos , como aos Portu- 

gue- 



5^8 A S I A de Diogo de Couto 

guezes , e alli ficaram os noflbs efperando 
o foccorro , paliando fomes , e trabalhos 
immenfos , porque não comiam mais que 
frutas dos matos. 

João da Silva chegou a Malaca , e deo 
informação do rifco em que os noflbs fica- 
vam : pelo que o Capitão daquella Forta- 
leza , que era D. Francifco da Coita, que 
fuccedeo a D. Leoniz Pereira, negociou com 
muita prefla hum galeão , de que fez Ca- 

Í>itão hum foãoPaes, ehuma fulla, em que 
òi Álvaro Barreto , nos quaes navios man- 
dou embarcar muitos mantimentos , muni- 
ções , e roupas , e fez embarcar por força 
alguns foldados , porque naquelle tempo 
pêra elles era hum defterro perpétuo. Par- 
tido eíte foccorro com homens forçados , os 
que hiam na fufta fizeram com que arribaf- 
lem a Funda , e o galeão fe foi metter na 
cnfeada dejapará, onde deo á cofta, e to- 
dos os que nella hiam foram cativos : di- 
zem que hummeítiço, que hia degradado, 
cortara de noite a amarra ao galeão , e o 
fizera rolar a terra. Hiam nefte galeão dous 
Padres da Companhia, hum dos quaes era 
Pedro Mafcarenhas , Religiofo de muita vir- 
tude , e caridade , homem Fidalgo , e Le- 
trado , natural de Arzila ; e o outro era Ita- 
liano , e alli onde foram cativos os refga- 
iáram os Portuguezes que por lá andavam , 



Década IX. Cap, XII. 5-9 

c os embarcaram em huma fufta pêra Ma- 
laca* O meltiço que fez todo eíte mal , di- 
zem que logo fe fez Mouro , e era tão máo , 
c perverfo que o mandou aquelle Rey ma- 
tar por velhaco, ou o permittio Deos nof- 
fo Senhor aflim por fuás torpezas : os Pa- 
dres da Companhia foram depois ter a Ma- 
laca , aonde fizeram muitos ferviços a Deos 
noílb Senhor, e paliaram os trabalhos que 
ao diante diremos. 

Eílando as coufas de Maluco , e Am- 
boino neíte miferavel eílado que diíTemos r 
chegaram a Ternate os dous galeões, que 
o Vifo-Rey D. António de Noronha d et 
pedio no Abril paíTado com muitos provi- 
mentos, dosquaes foram por Capitães Fer- 
não Ortiz de Távora, provido daquella via- 
gem , e Pedro Lopes Rebello , que foram 
recebidos dos noífos como foccorro vindo 
do Ceo ; e porque era monção do cravo, 
carregaram logo , e fe partiram pêra Am- 
boino com os provimentos que hiam for- 
çados pêra aquella Fortaleza, com que os 
que nella eftavam fe animaram , e os natu- 
raes ficaram mais feguros na amizade que 
fuftentavam. De Amboino fe partiram eftes 
galeões em Maio defte anno de fetenta e 
dous em que andamos ; e indo atraveíían- 
do o golfo , abrio o galeão de Pedro Lo- 
pes Rebello tantas aguas , que fe hia ao fun- 
do y 



6o A S I A de Diogo de Couto 

do; e acudindo-lhe Fernão Ortiz deTavo* 
ra, lhe falvou tcda a gente ; e como era 
muita, foi-lhe faltando a agua , pelo que lhe 
foi neceflario arribar ao Macaliar , e to- 
mou da outra banda domar dajaoa já fem 
agua alguma , e como defefperados fe fo- 
ram á Ilha do Salazar pêra fe proverem; 
e eftando furto nella , lhe deo huma tormen- 
ta de Sudoeíte, que varou com o galeão á 
coita, e a gente fe falvou no batel, e em 
outras embarcações da terra , e fe paliaram 
aoMacaífar, e aquelleRey os recolheo hu- 
manamente j e os mandou levar a Malaca 
em juncos , dando-lhes tudo o neceífario , 
que também entre os bárbaros não falta ca- 
ridade ; e parece certo que tinha Deos no£ 
fo Senhor o açoute de fua Divina juítiça fo- 
bre aquella gente de Maluco pelas cruel- 
dades que ufaram com aquelle Rey , e in- 
jufta morte que lhe deram , porque depois 
oue o mataram até hoje não pairaram lá 
lenão muito poucos galeões , e o lugar de 
Ative eílá em huma Ilha entre a de Ito> 
c a de Liafer , oito léguas da Fortaleza , 
c he muito povoada , e tem junto de íi dous 
lugares de lua facção , cujos moradores são 
muito cavalleiros , as mulheres muito fer- 
mofas, e deshoneftas. Nefte lugar fizeram 
os Padres da Companhia huma Igreja , á 
qual acudiram todos aquelles Chriftãos á ro- 
da. 



Década IX. Cap. XII. 61 

da. EftesAtives, que eram grandes amigos 
dos nofíbs , defejavam otferecer-fe alguma 
occaíião pêra fe vingarem de alguns ag- 
gravos que lhes pareciam fer-lhes feitos , e 
cumprio-lhes o demónio feus defejos por ef- 
ta maneira. Tanto que viram aufente o Ca- 
pitão mór , e desbaratado , e morto a Si- 
mão de Abreu o Papa Ferro, como diíTe- 
mos , ordenaram de dar nos nofíbs , e con- 
vocaram os dous lugares allima nomeados , 
e huma noite foram demandar o lugar, em 
que a Igreja eftava , e mataram finco Por- 
tuguezes. Os Padres da Companhia , que ti- 
nham a Igreja em hum alto, e lá ouviram 
o reboliço, e entendendo o que era, o Pa- 
dre Pedro Mafcarenhas diíTe ao companhei- 
ro, que fe foQem pêra os matos; e eftan- 
do neite confelho , deram os inimigos na 
Igreja , e mataram o companheiro do Pa- 
dre Pedro Mafcarenhas , e elle quiz Deos 
que tiveíTe tempo , e lugar pêra efcapar da- 
quella fúria , e ir-fe embrenhar nos matos. 
Feito iílo , recolhêram-fe os inimigos , e o 
Padre andou pelos matos oito dias , fem co- 
mer mais que humas frutas pequenas , e 
beber agua que havia alli muita , e muito 
boa. Os moradores do lugar de Orna, que 
eram noflbs amigos , e viviam na coíta da 
outra banda do Sul , tiveram logo avifo do 
negocio , e de como o Padre fe acolhera 

aos 



6z ÁSIA de Diogo de Couto 

aos matos , e foram logo em bufca delle, 
e o acharam affentado ao longo de huma 
ribeira tão fraco, que fenão podia bullir; 
e vendo aquella gente , cuidando que o 
hiam matar, fe deixou eftar muito feguro, 
ofFerecendo-fe a Deos no leu coração em 
facrificio. Os que o bufcavam chegando a 
elle , o coníbláram , e o mettêram em hum 
andor, dizendo-lhe que fe não receafle de 
coufa alguma , e no feu lugar o agazalhá- 
iam, e proveram de tudo o neceífario. O 
Padre ficou confoladiíTimo com aquelle não 
efperado foccorro , entendendo lhe viera 
da mão de Deos noffo Senhor , que fem- 
pre coíluma acudir onde menos efperança 
ha de humano remédio. 

Sancho de Vaíconcellos fabendo tama- 
nha traição , convocou os vizinhos amigos 
no mefmo dia ; e embarcando-fe na Arma- 
da ameia noite, chegou ao lugar deAchua, 
aonde defembarcou fem fer fentido \ e com- 
mettendo o lugar, o entrou , e deltruio , met- 
tendo á efpada toda a coufa viva , fem per- 
doar nem a velhos , nem a meninos de pei- 
to ; e pondo fogo ao lugar , aífim elle , co- 
mo todos os mortos fe converteram em cin- 
za , e com efta vingança , e fatisfação fe 
tornaram pêra a Fortaleza , onde fe aper- 
cebeo de algumas coufas , e logo fe tornou 
a embarcar , e foi demandar a Ilha Rofa-« 

ler 






Década IX. Cap. XIL 63 

ler doze léguas da noffa Fortaleza , cujos 
moradores eram grandes inimigos dos Por- 
tuguezes , e defembarcou nella 5 e foi por 
huma ferra aíTima , onde elles tinham luas 
tranqueiras , e eítavam defcuidados de tal 
fobrefalto ; e commettendo-as os noífos , fo- 
ram entradas á força de braço , e dentro 
mataram mais de duzentos , e lhes efcalá- 
ram as cafas , em que lhes acharam razoa- 
das prezas 5 com que fe recolheram bem 
fatisfeitos. 

CAPITULO XIII. 

Torna a continuar as coufas da índia , e 

as Armadas que o Vifo-Rey lançou fó~ 

ra : e de como o Mogor fe jenho- 

reou do rio de Cambaya. 

NA fexta Década , livro decimo , Capitu- 
lo dezefeis demos larga conta de co- 
mo por morte de Soltáo Mamúde Rey de 
Cambaya levantaram os grandes do Reino 
por Rey a Soltao Mahamud , que diziam 
ler filho do morto , o qual como era de 
fete pêra oito annos , ficou em poder dos 
três tutores Alucan , Itimitican , e Madre 
Maluco , em cujo poder andou o triíte , e 
pobre moço até agora , que bem pobre fe 
pode chamar, pois não mandava coufa al- 
guma j por fer como huma eílatua muda 

fesa 



64 ÁSIA de Diogo de Couto 

fem poder fallar , porque o não deixavam 
fer íenhor de fuás acções : e prouvera a 
Deos que fuccedêra eíla defgraça fó aos 
bárbaros ? e não chegara a abranger a ai* 
guns Reys Chriílãos , e de xaque em xa- 
que , como Rey de Xadrés , andava o pobre 
moço ora nas mãos de hum , ora nas de 
outro dos tutores , fem elle ter vontade > nem 
querer , fobre o que via entre aquelles três 
tyrannos que mandavam , e comiam tudo 
com grandes invejas , e ciúmes : e fucce- 
deo naquelie tempo que o Vifo-Rey D. 
Conftantino tomou a Cidade de Damão, 
que foi no anno de mil e quinhentos e lin- 
coenta e nove , em que efte pobre moço 
teve modo , com que íugio de Madre Ma- 
luco pêra o Itimitican , o qual como era 
máo homem , fempre fe receou dos gran- 
des do Reino , e pêra fe fegurar quiz ufar 
de huma das maiores traições , que nenhum 
vaífallo ufou com feu Rey , e foi eíla. 

Eílava o Hibar Rey poderofo dos Mo- 
gores na Cidade de Agará \ onde então ti- 
nha fua Corte , que poderiam fer ... • jor- 
nadas do Reino de Cambaya , o qual era 
o maior fenhor de todo o Oriente , e an- 
dava com penfamentos de conquiítar todos 
os Reinos do Decan , pêra ficar maior fe- 
nhor que o Grão Tamorlão de quem def- 
Cendia ; e além da má inclinação que o Iti- 

mi- 



t Década IX. Cap. XIII. 6? 

tnitican tinha , parece que fufpeitou que d 
Mogor tinha também os olhos naquelle 
Reyno ; e querendo-fé fegurar em feu eíta- 
do , quiz quebrar hum olho a fi (como di- 
zem) por quebrar ambos aos levantados £ 
e em grande fegredo defpedio Embaixado- 
res ao Mogor, pelos quaes lhe mandou dar 
conta do eftádo em que as coufas daquel* 
le Reino de Cambaya eftavam , e que fe 
quizeíTe fenhorear-fe delle $ que elle lho en- 
tregaria fem golpe de efpada, e lhe poria 
o Rey moco em feu poder , com tanto que 
o havia de deixar a elle Itimitican por Vi- 
Íò-Rey de todo aquelle Reyno , e com ou* 
tros partidos largos 3 que o Mógor lhe con- 
cedeo liberalmente ; e não dilatando o ne* 
gocio, fe parti o com firicoenta, ou feífenta 
mil cavallos , com que em poucos dias en- 
trou pelo Reyno de Cambaya , e o Itimi- 
tican o foi efperar a Cidade de Amadabá , 
onde lhe entregou àquelle Rey , e fe poz 
em fuás mãos. O Mogor que nunca tal ima- 
ginou > avaliando por grande aquella felici- 
dade , recolheo o Rey com muita honra , 
e o entregou a hum Capitão 5 que tinha dez , 
õu doze mil cavallos j pêra que livremente 
o trouxeíle em fua guarda , e ell^ foi en* 
trando pelo Reyno, é fenhorearido-fe delle 
fem golpe de efpada até chegar á Cidade 
de Cambaya, donde mandou prover ascou- 
Çonto. TonuV^.iL E fas 



66 ÁSIA de Diogo de Couto 

fas do Reyno , e mandou levar a íi todò$ 
os Capitães principaes , e os entregou a 
quem os trouxefle em boa guarda. 

Eftavam naquelle tempo na Cidade dé 
Cambaya alguns fincoenta, ou feífenta Por- 
tuguezes mercadores , que fe não puderam 
recolher por terem fuás fazendas em terra. 
Eíles vendo aílim o Reyno entregue, ajun- 
táram-fe todos veílidos o mais cuftoíamen- 
te que puderam , e fe foram offerecer ao 
Mogor , que lhes fez grande gazalhado ; e 
como no jogo da fortuna eftava com tan- 
ta ganância, fem cuíto algum lhes fez mer- 
cês de barato , fegurando-os que fe não te- 
meíTem , e mandou que fe lhes não buliífe 
em couía alguma de fuás fazendas , e lhes 
diíTe que lhe pediíTem mercês , porque lhas 
faria: o que viíto por eíles, lhe pediram de 
mercê que quitafle os direitos aos Portu- 
guezes mercadores , que foífem áquelle por- 
to com fuás fazendas , o que o Mogor lhes 
concedeo facilmente , fuppoílo que não po- 
de o Rey cumprir eíta fua vontade , por- 
Sue hum Capitão , ou Veador da fazenda 
le foi á mão, dizendo-lhe que lhe impor- 
tava aquillo todos os annos trezentos mil 
cruzados , pelo que a mercê não teve ef- 
feito ; e parecendo-lhe bem aquelle trajo 
dos noflbs , mandou fazer outros de capas 
de raxa j chamalotes 7 roupetas ? calções , e 

bo-* 



Década IX. Cap. XIIL 67 

botas , e pedio aos Portuguezes algumas 
gorras , que fe então coítumavam de Mi- 
Ião , e alguns chapeos > e veítio-fe á Portu- 
gueza com efpada , e adaga, pelo que os 
noííbs lhe beijaram a mão. 

O Mogor ficou concertando as coufas 
do Reyno , e mandou tomar pofíe das For- 
talezas de Baroche , e Surrate y em que poz 
Capitães Mogores , como fez nas mais Ci- 
dades y e fó alguns Régulos , que viviam 
em ferras fortes , fe fuften taram nellas , e 
alguns levantados mais que fe ficaram com 
as partes que governavam , quando mor- 
reo Soltão Mahamede lá pêra as ferras de 
Jurager. 

Diílo teve logo o Vifo-Rey avifo ; e 
vendo quão máo vizinho era o Mogor , e 
que era neceífario acudir a fegurar as For- 
talezas do Norte , defpedio pêra eífe effei- 
to a Jorge de Moura com huma galé , em 
que elle hia , e féis fuftas , de que foram 
por Capitães Chriítovão do Amaral , João 
Correia de Brito , Vicente Paes , João Bar- 
riga Simões , Nicoláo de Brito > e Henri- 
que Barbofa da Silva , que todos partiram 
em dezefete de Agoílo deite anno de fe- 
tenta e dous , levando por regimento que 
não quebrafíe com o Mogor , nem fizeíTe 
mais que andar á vifta da Fortaleza de Da- 
mão 5 e que em fegredo defendeífem que 
E ii não 



68 ÁSIA de Diogo de Couto 

não foíTem mantimentos pêra Cambaya, d 
que elle fez com muito cuidado , e dili- 
gencia ' y e porque fegundáram as novas, D. 
Luiz de Almeida Capitão de Damão efcre- 
veo ao Vifo-Rey , que eítava aquella Cida^ 
de aberta , que era neceíTario acudh-lhe , 
porque fe o Mogor tentaíTe alguma mal- 
dade, a não tontalíe, pelo que com muita 
preíía defpachou outra Armada de duas 
galés y e íete fuílas , de que foi por Capi- 
tão mor D.Jorge de Menezes, que depois 
foi Alferes mor do Reyno , o qual partio 
de Goa em quinze de Outubro feguinte , el- 
le em huma galé, Diogo de Azambuja em 
outra ; das fuílas foram por Capitães D. 
Sancho de Vilhena , D. Luiz de Menezes , 
Pedro Boto Meirelles , Eítevão de Pina , 
Manoel Alvares , Pedro Soares , Ápolii- 
nario de Vai de Rama , que fe foí direito 
a Damão , e andou por aquella cofta com 
grandes intelligencias no Mogor , e veio 
com huma grande cáfila de navios a Goa, 
donde o Vifo-Rey o tornou a defpedir pê- 
ra Cananor a bufcar outra com que che- 
gou a Goa , eftando já o Vifo-Rey pêra 
dar á vela pêra Damão. 

Como nas Cortes dos Reys do mundo 
nunca faltam lifongeiros defejofos de ga- 
nhar terra com elles , aííim fuccedeo aqui 
com eíte bárbaro > que eítando pondo em 

or«r 



Década IX. Cap. XIIL 69 

ordem as coufas daquelle Reyno , de que 
fe fez Senhor em tão breve tempo íem 
golpe de efpada , fendo fua potencia tão 
grande nos tempos paífados , que aíToin- 
brava todo o Oriente , lhe diíleram que as 
terras de Damão , e ainda as de Baçaim 
com fuás Cidades eram do Reyno Guzara- 
te , as quaes os Portugueze6 comiam , e po£ 
fuiam , fendo de direito fuás , que era def- 
credito da fua potencia diílimular com iÇ? 
ío , tendo-as tão perto , e tão certas que 
não eítava em mais fenhoreallas que em 
mandar feus Capitães fobre ellas ; e tanto 
lhedifferam, que mandou fazer p refles Cu- 
tibidican com dez mil cavallos , de que lo- 
go D.Luiz de Almeida foi avifado , e def- 
pedio recado com muita preífa ao Vifo- 
Rey, affirmando-lhe a certeza daquella jor- 
nada , que ficava arifco de fe perder aquel- 
Ja Cidade pela pouca defensão que tinha , 
e juntamente fe começou a fortificar o me- 
lhor 5 e mais apre iradamente que pode fer. 
O Capitão do Mogor defpedio hum envia- 
do ao Capitão da Cidade ? pelo qual Jhe 
mandou dizer que o Mogor feu Senhor lhe 
mandava rogar que lhe defpejaífe a Cida- 
de , elargaíte as terras ^ que eram do Rey- 
no de Cambaya y cujo Senhor elle era> e 
que folgaria de não romper com elle fo- 
jbre o que era feu. D.Luiz lhe refpondeo, 

que' 



ya ÁSIA de Diogo de Couto 

3ue eftava alli da mão do Vifo-Rey da In- 
ia, fem cuja licença elle não podia fazer 
coula alguma : que lhe mandaria recado ; 
e mandando elle que lhe entregaíTe tudo, 
o faria com muito goílo ; e fobre elle ne- 
gocio tornou o Mogor a replicar por ve- 
zes , e de todas ellas o foi entretendo D. 
Luiz com a efcufa de efperar pelo recado 
do Vifo-Rey , até elle chegar , como ao dian- 
te diremos. 

Eíle recado chegou ao Vifo-Rey na en- 
trada de Dezembro , e logo com muita 
preífa fe começou afazer preítes pêra acu- 
dir em peíToa áquelle negocio com todo o 
poder que na índia houveíTe , porque era 
muiarnfcado ocafo, fe nelle houveííe def- 
cuido algum ; e aífim quando foi a ultima 
oitava do Natal, fahio pela barra fora com 
a Armada feguinte. Nove galés , huma em 
que hia o Vifo-Rey , e das outras foram 
Capitães , D. Jorge Alferes mor que foi , 
que tinha vindo do Norte com huma gran- 
de cáfila , D. Garcia de Noronha , neto do 
outro que foi Vifo-Rey , D. Henrique de 
Menezes , D. Miguel de Callro , filho do 
Vifo-Rey D. João de Caibro , D. João da 
Gama, filho de D. Vafco da Gama, fegun- 
do Conde da Vidigueira, Francifco da Sil- 
va de Menezes de Campo Mayor , Dio- 
go de Azambuja , e Rodrigo Homem da 

Silr 



Década IX. Cap. XIII. 71 

Silva. Levou oito galeotas Latinas , cujos 
Capitães foram : D. Diogo de Menezes, 
Manoel Furtado de Mendoça , irmão de An- 
dré Furtado , que foi Governador , Fernão 
de Albuquerque j que ainda hoje vive, Ga£ 
par de Brito do Rio , João de Mello de 
Sampayo, filho do Doutor Gafpar de Mel- 
lo , Nuno de Mendoça , e Diogo Dias do 
Preíte. Fuftas levou íetenta e féis, de que 
foram Capitães Manoel de Soufa Couti- 
nho, que depois foi Governador, D. Ro- 
drigo de Soufa , D. Rodrigo de Caítro , D. 
Francifco de Soufa , D. Martinho da Sil- 
veira , Ayres Falcão , Jorge da Silva Perei- 
ra , filho de Ruy Pereira da Silva , D. An- 
tónio de Caftro , Alexandre de Soufa , An- 
tónio Mafcarenhas , João Gomes de Abreu 
de Lima , Diogo da Silva , Jeronymo Car- 
valho , Francifco Paes de Mello , Nuno 
Cordeiro , Gonfalo Guedes de Reboredo, 
António de Efpinola , Luiz de Soufa , Gaf- 
par de Sá , Manoel Fernandes de Beja, 
Fernão Alvares do Oriente , Pedro Furta- 
do de Mendoça , João Fernandes da Coi- 
ta , Chriftovão de Araújo Evangelho, An- 
,tonio de Soufa Coutinho , Luiz Ferreira 
o Chatim , Gregório Boto , Pedro Fernan- 
des Brochado , Vafco da Silva , Manoel de 
Miranda, Francifco Pereira, António Vaz 
'Correia, Eílevão Gonfalves, Meílre Capi- 
tão 



72 A S I A de Diogo de Couto 

tão dos Inhames , Manoel Dias , Fernão 
Gomes , Lopo Pereira , Pedro Zuzarte Ti- 
ção, Álvaro de Abreu Pereira, D. Leoniz 
Pereira, Capitão que foi de Malaca , Ma- 
noel de Mello , Damião Furtado , Diogo 
Collaço j Chriftoyão de Távora , Martim 
Affonfo de Mello , João Ferreira Fialho, 
Diogo Lopes de Mefquita , que foi Capi- 
tão de Maluco , D. Paulo de Lima Perei- 
ra , António Telles de Menezes , Álvaro 
Ferreira , Manoel Rodrigues , Cofme Duar- 
te , Luiz Fernandes^ Rodrigo Monteiro. 
O Licenciado António Correia , Ouvidor ge- 
ral , Diogo Fernandes o Forte , João Pe- 
reira , Francifco Pereira , Diogo do Quin- 
tal ? Diogo de Mello Coutinho , e Zofo- 
cão Principe do Balagate, D. João Prínci- 
pe de .... o Inquiíldor Bartholomeu da 
Fonfeca , Agoílinho Nunes , Francifco de 
Mello , António Luiz , Gafpar Tavares Ca- 
nanôr , D. Luiz de Menezes , Henrique 
Dias , Apollinario de Vai de Rama , D. 
Sancho de Vilhena, Eftevão de Pina, Pe- 
dro Boto Meirelles , Manoel Alvares , Ma- 
noel de Saldanha , D. Garcia Malavar , Bar- 
tholomeu de Magalhães, Pedro Fernandes, 
e outros. 

Levou mais finco galeões , cujos Capi-* 
tães foram D. Pedro de Caftro , D. Fran- 
cifco Henriques, Ayres de Souía^ Manoel 



Década IX. Cap. XIII. 73 

-He Brito , e Mem Lopes Carrafco. Nefta 
Armada hia o melhor de três mil homens 
de armas a fora a gente da terra , cujos pro- 
vimentos de toda ella me encarregou o Vi- 
íò-Rey , e em menos de hum mez deo á 
vela ; e como ventavam terrenhos , e vira- 
ções , em poucos dias foi tomar Baçaim r 
onde teve recado de D. Luiz de Almeida , 
que osMogores eítavam já menos de duas 
léguas daquelia Cidade , pelo que teve con- 
felho com feus Capitães , e Fidalgos ve- 
lhos fobre o que faria , e os mais delles 
votaram que o Vifo-Rey ficaíle naquella 
Cidade de Baçaim, e mandaíle toda aquel- 
la potencia a Damão ; porque vendo os 
Mogores , e fabendo que o Vifo-Rey fica- 
va em Baçaim , haviam de ter pêra ÍI que 
com elle ficava outro poder maior , e que 
vendo-o em Damão , também haviam de cui- 
dar que levava comfigo todo o poder que 
na índia havia , e que era muito differen- 
te huma coufa da outra pêra os Mogores 
não paíTarein fobre Damão : em fim deba- 
tido o negocio , aflentou o Vifo-Rey de 
paíTai- adiante , porque houve votos que fe 
conformaram com elle , dando por razão , 
que quando os Mogores o lá viífem , não 
haviam de medir a gentç peia que levava 
a Armada, fenâo pela potencia da fua má- 
quina ; em que ao menos haviam de cui- 
dar 



74 ÁSIA de Diogo de Couto 

dar que hiam mais de féis mil homens , e 
que lo o nome de eítar o Vifo-Rey da ín- 
dia em Damão havia de enfrear muito os 
Mogores , no que fe não enganou ; e toman- 
do alli mais doze , ou quinze navios , que 
fe lhe ajuntaram de Chaul , e Baçaim , os 
quaes os Fidalgos alli cafados tinham ar- 
mados pêra acompanharem o Vifo-Rey, 
deo á vela pêra Damão > aonde chegou em 
poucos dias , e deixando os galeões fora , 
entrou o rio com as galés , e com a Arma- 
da de remo , que fe eílendeo de huma , e 
outra parte , ficando o rio entulhado de 
embarcações que ao entrar falváram a Ci- 
dade com tanto eftrondo , que foi efpanto , 
e o mefmo fizeram os galeões , cujos ter- 
remotos foram dar nos ouvidos dos Mo- 
gores , que os aíTombrou de maneira que 
nao fabiam parte de fí. O Vifo-Rey defem- 
barcou em terra , e foi vifitar as fortifica- 
ções , e as mandou renovar com muita pref- 
la , porque não tinha a Cidade mais muros 
mie huns entulhos altos de arêa , e metti- 
aos por elles humas arvores , e hervas lei- 
teiras mui grandes, e efpeífas 3 ás quaes fe 
nao pode chegar pêra as cortar, porque o 
leite que delias falta > fe dá nos olhos 5 lo- 
go os cega , e trata mal , e com a artilhe- 
ria nao fe podem bater , porque nos pés 
delias nos entulhos de arêa ficam os pelou- 
ros 



Década IX. Cap. XIIL 7? 

tos enterrados , e mais alFima paíTam pelas 
arvores fem fazerem damno ; e nos baluar- 
tes , que tinha da mefma feição 5 mandou 
pôr algumas peças de artilheria pêra vare- 
jarem o campo que fe defcobre todo , e 
poz nelles Capitães com feus foldados de 
maneira , que ficou a fortificação fegura , e 
aíTim entendeo o Vifo-Rey em outras cou- 
fas de que havia neceííidade com muita or- 
dem, e brevidade. 

Tanto que foube o Capitão dosMogo- 
res fer o Vifo-Rey chegado , logo avifou 
o feu Rey 5 que eitava em Baroche, pelo 
que fe paífou a Surrate por ficar mais per- 
to de Damão , donde proveo em muitas 
coufas doReyno, e houve ás mãos os Ca- 
pitães alevantados , que mandou ter a bom 
recado , e mandou prover aquellas Forta- 
lezas de outros feus vaífallos com que os 
fegurou ; e tendo recado em como o Vifo- 
Rey eftava em Damão com aquelle poder, 
não quiz romper com elle , antes procurar 
amizades pelo proveito que diífo tinha na 
navegação de fuás náos pêra Meca , em que 
elle determinava de metter grande cabe- 
dal , e fua mãi , e algumas mulheres defe- 
javam de ir vifitar o fepulcro de Mafame- 
de ; pelo que ordenou hum Embaixador 
com grande apparato , e mageílade perã o 
ir viíitar , e tratar com elle amizades , o 

qual 



y6 ÁSIA de Diogo de Couto 

qual cm breves dias foi ter aBalfar, e da* 
hi mandou fazer a faber ao Vifo-Rey da 
fua vinda , o qual lhe mandou preparar hum 
grande recebimento , e lhe mandou os pa- 
rabéns delia por Chriítovao do Couto Lín- 
gua do Eítado , que pêra iííb foi muito 
acompanhado , e ambos aíTentáram o dia , 
em que queriam fazer fua entrada , que foi 
por efta maneira. 

Mandou o Vifo-Rey chegar os galeões 
o mais perto da barra que pode fer, e as 
galés que fe puzeífem pelo meio do rio 
em fileira , e hum efpaço diante huma da 
outra , e as fuílas que fe eítendeífem de lon- 
go da ribeira de huma , e outra parte , e 
os baluartes da Cidade fe encheíTem de 
bandeiras, como fizeram os galeões, e as 
fuílas todas , e as galés com fuás flâmulas , 
galhardetes , e bandeiras todas fermofiffi- 
mas ; e a galé baftarda , em que o Vifo- 
Rey eftava , fe poz no meio das outras com 
feu toldo de borcado franjado de ouro, que 
arrojava quaíi ate a agua , e na quadra a 
bandeira Real das Armas de noífo Senhor 
Jefu Chrifto , e na poppa três grandes fa- 
roes dourados , e a chufma veítida o me- 
lhor que pode fer , e a coxia do maílro 
até a eítanteirola cuberta de fermofas alca- 
tifas , e o toldo com outras mais ricas , e 
por íima guarnecidas de pannos de ouro 9 

de 



Década IX. Cap. XIII. 77 

<le maneira que eítava a Armada tanto pê- 
ra temer j como pêra fe folgar de ver ; e 
o dia da entrada do Embaixador mandou 
o Vifo-Rey chamar pêra a lua galé todos 
os Fidalgos velhos , e Capitães , que eram 
mais de duzentos 5 que foram cuítoíilTima- 
mente trajados , e armados por baixo > os 
quaes fe eítendêram pela galé de poppa á 
proa por lima dos balefteiros , e o Vifo- 
Rey dentro no toldo aflentado em huma 
cadeira de borcado , veftido de huma rou- 
pa preta 5 e huma faia de malha muito ri- 
ca por baixo , e hum pagem com hum mon- 
tante nu junto delle , no cabo da coxia en- 
coítado á eftanteirola eítava D. Jorge de 
Menezes , que depois foi Alferes mor do 
Reino , armado de armas inteiras brancas 
mui reluzentes, e huma celiada de aço na 
cabeça a modo devifeira, e nas mãos hum 
grande montante dourado nu ; e como era 
hum dos fermofos homens de feu tempo , 
aílim na eílatura do corpo , como no va- 
lor de fua peífoa 5 e animo , fó pêra o ver 
fe pudera tomar qualquer trabalho. 

O Embaixador do Mogor chegou á ou- 
tra banda da praia , onde o efperava D. 
Luiz de Almeida Capitão da Cidade com 
feus parentes , e amigos muito louçaos , e 
nas viílas tiveram grandes cumprimentos ; 
€ tomando elle o Embaixador pela mão, o 

em- 



78 ÁSIA de Diogo de Couto 

embarcou cm huma fufta ricamente prepai 
rada , e o levou ao toldo , onde fe afíen- 
táram cada hum em fua cadeira de veludo , 
e ao affaftar , e defamarrar da praia fe fez 
hum íinal , com o qual começaram os ga- 
leões a difparar aquella foberba fúria de 
artilheria huma , e muitas vezes 5 e o mef- 
mo fizeram as galés, indo já o Embaixador 
pelo meio delias , o qual fez parar a em- 
barcação , porque com as nuvens do fumo 
não viam por onde hiam , porque efeure- 
cia a claridade do Sol, e depois das galés 
fizeram o mefmo as fuílas , e navios de re- 
mo 5 o que tudo foi de muito maior efpan- 
to pêra os Mogores ? que nunca imagina- 
ram de ver , e cuido certo que de boa von- 
tade trocara o Embaixador as honras de 
fe ver naquelle lugar por fe não ver nel- 
le : durou eíla falva largas duas horas ; e 
tanto que o eílrondo ceifou, que fe come- 
çaram a efpalhar as nuvens de fumo , foi 
o navio em que o Embaixador hia reman- 
do pêra a galé , e antes de chegar a ella 
lhe deo também huma fermofa falva : foi 
a fufta demandar a proa como eílava orde- 
nado , pela qual , e por íima daquelles fer- 
mofos canhões , e bazilifeos foi o Embai- 
xador defembarcado , e pela coxia o foi o 
Capitão D. Luiz fempre levando de mão, 
indo clle muito grave , pondo os olhos na-* 

quel- 






Década IX. Cap. XIII. 7^ 

quella fermofa fidalguia que de huma , e 
outra parte eftava ; e chegando á eítantei- 
rola, deo com D. Jorge de Menezes em pé 
na forma que diíTe , e parando hum pou- 
co a olhar pêra elle, lhe fallou. O Vifo-Rey 
ao entrar do toldo fe levantou , e deo al- 
guns palíos a tomar o Embaixador , que 
fe lhe vinha humilhando , e o levou nos 
braços, e pela mão o levou ao toldo, on- 
de fe aíTentáram , e o Viíò-Rey lhe per- 
guntou pela faude do Hecobar, e de feus 
filhos, ao que lhe refpondeo em forma ; e 
paliados eftes primeiros cumprimentos , lhe 
diíle o Vifo-Rey que elle vinha muito al- 
voraçado pêra ver o Hecobar, parecendo- 
lheque oachaífe mais perto; mas pois não 
podia fatisfazer eíledefejo, o mandaria fa- 
zer por leu Embaixador , que defpediria 
em fua companhia : e que eíUmava muito 
que foíle Senhor do Reyno de Cambaya 
por ficar mais perto das noíTas Fortalezas , 
donde os Capitães delias, e elle Vifo-Rey 
o ferviriam , e fuílentariam com elle huma 
firme amizade pêra melhor confervaçao de 
feus Eílados. O Embaixador depois de ter 
fobre aquelles pontos os agradecimentos 
devidos , e cumprimentos neceífarios, lhe 
deo fua embaixada , que toda redundava em 
defejar com o Eftado da índia a mefma 
paz y e amizade de que a todos refultaria 

gran- 



$0 ÁSIA de Diogo de Couto 

grandes bens , e accrefcentamentos ; e pof 
•fim vieram aaífentar, que o Vifo-Rey man- 
dafle feu Embaixador a concluir as pazes 
com o mefmo Hecobar , que eítava em Sur- 
rate: eque elle Embaixador efperaífedous, 
ou três dias da outra banda, onde tinha as 
fuás tendas até fe aviar a peffoa que com 
elle havia de ir , e que recolheíTe a gente 
de guerra das terras de Damão, porque os 
moradores das aldeãs, que era gente coita- 
da , eítavam aflbmbrados , e não oiifavam 
cultivar fuás terras , o que o Embaixador 
prometteo , e cumprio inteiramente , e com 
iílo o defpedio com algumas peças ricas 
que lhe deo , e ao defembarcar teve outra 
íalva femelhante á paífada , e o Capitão D. 
Luiz o poz da outra banda , e fe tornou 
pêra a Cidade. 

O Vifo-Rey tratou logo da eleição da 
peíToa , que havia de ir por Embaixador, 
e por parecer dos mais foi eleito António 
Cabral, que era homem Fidalgo , e de bom 
entendimento , e de muitosí annos da índia , 
eque poderia fazer muito bem aquelíe ne- 
gocio , o qual logo fe fez preíles de tra- 
jos, e apparatos pêra o lugar, que hia re- 
prefentar diante de hum tamanho Monar- 
ca , e o Vifo-Rey lhe deo apontamentos 
das coufas , que havia de tratar fobre as 
pazes 7 e provisão pêra conceder ao Heco- 
bar 



Década IX. Cap. XIIL 8í 

bar huma náo fua pêra ir de Surrate ao 
porto de Meca forra dos direitos. Nego- 
ciado António Cabral , paflbu-fe da outra 
banda, levando comíigo Chriílovão do Cou- 
to Lingua do Eílado , e oito , ou dez ho- 
mens de ginetes muito bem ataviados , e 
outra gente de ferviço , e em companhia 
do Embaixador Mogor foi a Surrate , ten- 
do o Hecobar já recado do feu Embaixa- 
dor das coufas que tinha paífado com o 
Vifo-Rey , e de como lhe mandava feu 
Embaixador , ao qual elle mandou receber 
mui honradamente, tendo com elle as prá- 
ticas ordinárias de lhe perguntar pela fau- 
de de EIRey de Portugal, e do Vifo-Rey, 
e por outras coufas i a que lhe refpondeo 
António. Cabral muito em forma , e com- 
metteo alli logo ás peífoas que lhe pare- 
ceo a conclusão do negocio das pazes, com 
as quaes António Cabral ficou correndo , 
fendo em tudo Chriílovão do Couto a Lin- 
gua , porque era homem muito refoluto 
naquelies negócios, e por fim fe vieram a 
concluir as pazes, e a f e jurarem, Antó- 
nio Cabral por parte do Vifo-Rey ; e da 
parte do Hecobar não pude faber fe as ju- 
rou elle , fe outrem em feu nome ; e os 
pontos principaes com que fe concluíram 
le poderão ver melhor deite formão que 
delias paíTou o Hecobar, das quaes eu te- 
Couto. Tom. V. P-iL F nho 



81 ÁSIA de Diogo de Couto 

nho três traslados na Torre do Tombo, 
cujo theor he o feguinte. 

PODEROSO DEOS HUM SO'. 

Mandado de Gelaldim Mamede Hecobar 
Patagafi. 

» \ Os meus nobres , e honrados Rege- 
» jl\ dores , Governadores , Capitães > e 
» Fidalgos , e a todos os deita dignidade , 
» e a todos os mais meus criados , e Offi- 
»ciaes, a que o conhecimento deite perten- 
»cer, mormente aos que regem, e gover- 
» não eíla Província de Guzarate , e prin- 
» cipalmente aquelles que tem mandado fu- 
» premo em Baroche , e Surrate , e na Pra- 
» fará , de Naufaury 5 e de Velodára : fai- 
»bam todos que o muito honrado dos mui 
» illuítres , e affamados deite tempo, obe- 
))diente ao alto mandado, D, António de 
)) Noronha Viíb-Rey dos Portuguezes me 
» mandou offerecer , e moítrar quanto de- 
»fejo tinha de minha amizade , e quanta 
» vontade tinha de fazer fervi ços a eíta mi- 
anha alta, e Real cafa, offerecendo-fe-me 
» pelo honrado António Cabral , que por 
y> eile chegou afupplicar 5 e beijar o pé de 
)> meu alto aífento a a qual oíFerta , e oífe- 
»recimento me contentou , e houve por 

)í bem 



Década IX. Cap. XIII. 83 

»bem mandar paíTar efte meu alto > e it* 
»iuftre formão , pelo qual vos mando em 
)> geral a todos , e a cada hum por 11, que 
» Damão , e fuás terras , de que elle eílá 
» de poíTe , e as tem em feu poder , que 
» lhas não tomeis , nem mandeis tomar, 
» nem nellas entrar por nenhum cafo , nem 
» chegar a feus extremos ; e os Malavares 
» que vierem com mercancia , e navegarem 
» em feus paraos , efuftas, fendo ladrões , e 
» malfeitores , e merecerem fer caíligados , 
» não os favoreçais, por ferem perjudiciaes 
»a toda a nação \ mas antes vos mando 
> que favorecendo os ditos Portuguezes , fe- 
»ja notório a todos eíte favor , que lhes 
» eu mando dar : fazei-o de maneira com 
»que elles fiquem de mal livres, e do da- 
» mno que lhes poderão fazer , pêra que 
» com iífo vivam contentes ; e ás ditas ter- 
» ras não irá ninguém , nem a feus extre- 
»mos ; e não confentireis a outrem que 
» lhe faça damno algum ; e o que virdes 
»que he rebelde a efte meu alto mandado. 
» caftigareis de maneira com que por ne- 
nn cafo poífa fazer damno algum : e 
» todo o eferavo de Portuguezes que vier 
» a lugares , e terras noífas fugindo das fuás y 
» examinareis a tenção que pêra iífo teve, 
» e conforme a lei fera julgado , e entre- 
»gue a feu dono : pelo que vos mando . 
F ii aque 



84 AS IA de Diogo dê Couto 

0>que emfe cu nprirem citas coufas não ha- 
)>ja dúvida alguma. Feito a dezoito de 
» Março de mil e quinhentos e fetenta e 
)> trcs. » Eíle formão tiveram alguns pêra 
ÍI que ficara em defcredito do Eítado pela 
grande foberba, que eíle bárbaro nelleuílí- 
ra , e houve dúvidas íe fe havia de acei- 
tar 5 ou fe fe havia diííimular, por fe não 
arrifcar aquella Fortaleza pela grande po- 
tencia com que eíle Rey eítava tão perto 
delia. 

O próprio com o fello pendente do 
Heccbar feito em huma folha de papel de 
marca maior , achei eu na mão de hum 
homem , que me não lembra feu nome , 
nem como me diífe viera a feu poder > o 
qual eu levei ao Vifo-Rey , que me pare- 
ce era D. Francifco Mafcarenhas , pêra 
que feveja como fe guardam as coufas que 
tanto importam , e fe põe em cobro neíte 
Eílado , onde fe não trata mais que de 
ajuntar ? e andar; e ainda eíle próprio que 
eu defcubri , e dei ao Vifo-Rey 5 não fei 
que he feito delle , fendo obrigação eílar 
na Torre do Tombo, como padrão de hu- 
ma doação de tanta importância , como he 
o de huma Cidade com mais de doze lé- 
guas de jurifdicção : e por eu lembrar eíles 
defcuidos , EIRey D. Filippe, que eílá em 
gloria ^ quando me commetteo eíla hiílo- 

ria 



Década IX. Cap. XIIL 85: 

ria da índia , mandou logo ordenar eíta 
Torre do Tombo, aonde mandou fe reco- 
IheíTem todos os papeis , livros 5 e coufas 
que houveíTe em cafa do Secretario, e na 
Chancellaria , e todas as inítrucçoes , e re- 
gimentos que vem do Reino todos os ân- 
uos , o que nunca pude acabar com os Vi- 
fo-Reys que o fizeílem affim executar , e 
quaíí que eílá efta cafa por forma fó com 
o titulo de Torre do Tombo, fem ter mais 
que huns poucos de livros velhos , que 
aqui lançaram os Officiaes por lhes não 
aproveitarem 5 nem fervirem de coufa ai-» 
guma. 

E porque a mai , e mulheres do Heco- 
bar delejavam , como diffe, irem-fe oíFerecer 
á cafa deMafamede pêra fegurança danáo 
em que foliem , pediram os Miniftros do 
Mcgor a António Cabral falvo conduíto 
pêra pcder partir deSurrate hum a náo ca- 
da anno pêra Meca forra dos direitos , que 
elle concedeo livremente . encommendan- 
do aos Capitães no falvo* condudlo que lhe 
déífem , e fizeíTem todo o favor , e fervi- 
ço á mai , e mulheres do Hecobar que lhe 
foífe neceífario. Feitas eftas amizades , e 
celebradas em Surrate , e em toda Camba- 
ya , fe defpedio António Cabral do Mcgor, 
e fe foi pêra Damão , onde o Vifo-Rey 
ainda eílava dando defpacho a muitas coufas. 



26 ÁSIA de Diogo de Couto 

E porque não fique iíto pêra outro lu- 
gar por caber ncíte , direi o que cufta eíte 
cartaz tcdos os annos ao Eítado. Andava 
a Alfandega de Dio neíte tempo arrenda- 
da ; e fabendo os rendeiros da liberdade 
deítanáo, reclamaram aoVifo-Rey, pedin- 
do abatimento do que importavam feus di- 
reitos , o que correo diante dos feus Offi- 
ciaes da fazenda , onde fe alvidrou que fe 
defcontaífem dezoito mil pardáos cada an- 
no da renda, viíto pagarem outras, que fe 
defpachavam em Dio a mefma quantia, de 
que os rendeiros aprefentáram certidões 
dos livros das Alfandegas. E aílim ficaram 
faltando nas rendas do Eítado cada anno 
aquelles dezoito mil pardáos : e não foi fó 
eíta a perda que por aqui recebeo , mas 
pelos tempos adiante recebeo mais de fin- 
co mil cruzados por eíta maneira. Tanto 
que os moradores de Cambaya (que coí- 
tumavam ir a Meca em fuás náos , que 
eram doze , e quinze , e tinham obrigação 
de irem carregar a Dio , e pagar alli os 
direitos ) viram fer eíta náo liberta dos di- 
reitos , lá em Meca embarcavam nella o 
feu ouro , prata , e brocados , coral , e ou- 
tras fazendas ricas , que era o principal ren- 
dimento daquella Alfandega ; e as náos da 
obrigação daquella Fortaleza chegavam a 
fila com o rebotalho das fazendas, que na 

ou* 



Década IX. Cap. XIII. 87 

outra fe não puderam carregar , çade me- 
nos fubítancia, de que a Alfandega recebe 
grandes perdas , em que não ha remédio 
aJgum , por quanto fe havia de guardar 
aquelle cartaz que feconcedeo, porque im- 
porta aflim ao Ellado pelo credito , e pe- 
la quietação da Cidade , e terras de Da- 
mão, em cuja defensão fe gaitaria duas, e 
ires vezes mais do que ifto monta pêra fe 
defenderem. Eftando o Vifo-Rey aqui em 
Damão provendo em muitas coufas , lhe 
chegaram cartas de Maluco, affim da mor- 
te de Confalo Pereira Marramaque , como 
do eftado perigofo em que a Fortaleza de 
Ternate ficava , pelo que abbreviando os 
negócios , fez logo volta pêra Goa. 

O Mogor tanto que concluio com as 
coufas deCambaya, e deixou dada ordem 
a feus governos , foi-lhe neceflario acudir 
aos outros Reinos, porque fe receava que 
affim os Liquios , que confinão com elle 
pela parte do Norte , como os Patanes , 
que lhe ficam ao Nafcente, que todos são 
feus mortaliffimos inimigos , vendo-o mui- 
to tempo aufente lhe entraííem por feus 
Reinos , como já fizeram por algumas ve- 
zes , como fe verá na minha quinta , e fex- 
ta Décadas : pelo que fe poz logo a cami- 
nho, levando comíigo oRey entregue (co- 
mo diífe) a hum Capitão , que o tratava 

mui- 



88 ÁSIA de Diogo de Couto 

muito bem, e o mefmo fez ao Itimiticaní 
que lhe entregara o Reino , e aos mais Ca- 
pitães, poraílim fegurar melhor a fua cau- 
fa ; e como he muito natural nos Reys e in- 
timarem a traição , e aborrecerem aos trai- 
dores , em pago de o Itimiticam lhe en- 
tregar aquelle Reino , lhe mandou em Laor 
cortar a cabeça , porque efte foi o galar- 
dão que lhe deo , dando por razão que 
quem fora traidor ao feu Rey natural , e 
que chegou a entregallo em peílba com o 
Reino, não guardaria lealdade aquém não 
tinha obrigações ; e o mefmo fez aos mais 
dos outros Capitães por lhe não ficar cou- 
fa de que fe pudeífe temer , e recear , e 
por ficar feguro naquelle Eííado , que tan- 
to aíTombrou todo o Oriente. Chegou o 
Vifo-Rey a Goa na entrada de Abril , e 
logo tratou do foccorro de Maluco por 
achar novas certas do miferavel eftado em 
que aquellas partes eítavam , e mandou ne- 
gociar hum galeão , huma náo , e três ga- 
leotas , em que fe mettèram muitas muni- 
ções , mantimentos , e roupas. Partio na 
entrada de Maio , e elegeo por Capitão 
mor deite foccorro a António Valadares de 
Lacerda , que era provido da viagem de 
Banda , que havia de ir fazer depois de 
deixar eíte foccorro em Maluco : da náo 
foi António Machado Capitão \ das galeo- 

tas 



Década IX. Cap. XIII. 89 

tas foram Francifco de Mello Soares, que 
depois foi Capitão de Barcellor , Chriílo- 
vão Machado , e D. Francifco de Lima. 
Partidos de Goa, não puderam as galeotas 
dobrar a ponta de Gale , e arribaram a Cei- 
lão, onde invernáram, o galeão, e a náo 
a pairaram , e foram feguindo fua jorna- 
da , de que ao depois daremos razão. 

E por quanto o Çamori fazia movimen- 
tes contra a Fortaleza de Cranganôr, def- 
pedio o Vifo-Rey no mefmo tempo a Vi- 
cente Dias de Villalobos com duas galés, 
e finco fuítas pêra ir invernar naquella For- 
taleza : nas galés hia elle , e Vafco Fernan- 
des Pimentel ; nos navios hiam João Fer- 
nandes da Coita, Ruy Gonfalves Ribeiro, 
Manoel Carvalho de Oliveira , Bartholo- 
meu Fernandes , e D. Garcia o Malavar. 

E aífim proveo as Fortalezas do Cana- 
rá de alguns Capitães , e foldados , e a de 
Columbo em Ceilão com dous navios , em 
que foram Francifco Gomes Leitão Capi- 
tão do Campo , e Jeronymo Monteiro , ç 
com ifto fe cerrou o inverno. 

Muita perda foi pêra os Chatins de Bar- 
cellor aquella Fortaleza em feu porto, por- 
que não fó lhes tirava os provimentos , mas 
ainda a fua liberdade , porque ficavam co- 
mo cativos , fendo de antes tão livres , que 
mç havia quem lhes foíTe á mão : pelo que 

yen- 



90 ÁSIA de Diogo de Couto 

vendo entrado o inverno , e que a Forta- 
leza ficava com pouca gente , determinaram 
de a tomar; e ajuntando finco, ou féis mil 
homens, foram fobre ella, e lhe puzeram 
hum rijo cerco. Ruy Gonfalves da Came- 
ra , que nella eftava por Capitão , foi avi- 
fado das preparações que faziam , e com 
muita prefla defpedio recado aoVifo-Rey, 
que lá chegou no fim de Agoíto ; e vendo 
que era forçado acudir áquelle negocio , 
logo com muita preíía mandou lançar ao 
mar três galeotas , e elegeo pêra irem nel- 
las a Gonfalo Nunes , filho de Leonardo 
Nunes , Fyíico mor de EIRey , por Capi- 
tão mor , e a Rodrigo Homem da Silva , 
filho de Vafco Homem Fernandes , e Ruy 
Gonfalves Ferreira , que com fer inverno 
tormentofo fahíram pela barra fora em no- 
ve de Junho , e em fua companhia foram 
António de Menezes de Vafconcellos , e 
Diogo Lopes da obrigação de Ruy Gon- 
falves da Camera , cada hum em fua alma- 
dia forçando os mares , e os ventos por ler 
o tempo / gro lio , quafi alagados chegaram 
áquella Fortaleza , que eltava muito traba- 
Ihofa, e tinha todos os dias grandes reba- 
tes , e aííaltos dos inimigos ; mas com o 
foccorro ficaram mais_aliviados , e todavia 
os inimigos foram mettendo cada vez mais 
cabedal , e apertaram muito com o» no£- 

fos, 



Década IX. Cap. XIII. 91 

fos , do que Ruy Gonfalves avifou ao Vi- 
fc-Rey, elhepedio mais foccorro , que el- 
le logo negociou , e elegeo por Capitão 
mor delle D. Jorge de Menezes , que de- 
pois foi Alferes mor, a quem mandou ar- 
mar doze galeotas , e fuílas, que em bre- 
ves dias fe aperceberam , e partiram de Goa 
em dezencve de Julho , e os Capitães, a fo- 
ra D. Jorge, foram os feguintes. Roque de 
Brito , que hia por Feitor da Armada , Trif- 
tão Gomes Pereira , filho do Tanadar mor 
de Goa , Francifco Pereira , Sebaílião Gon- 
falves de Alvellos , Leonel de Lima, que 
em Portugal foi Provedor da Caía da ín- 
dia , Pedro Boto Meirelles , D. Eítevao de 
Menezes , filho de D. Jorge de Menezes 
o Baroche , Cuílodio Mendes de Vafcon- 
cellos , D. Diogo da Silveira , filho de D. 
Simão da Silveira o Velho , Ihomé de Sou- 
fa Coutinho , irmão de Manoel de Soufa 
Coutinho , que depois fci Governador da 
índia , Domingos Ferreira Efcorcio , e Dio- 
go Rodrigues, homem da terra. 

D. Jorge de Menezes não pode fahir 
pela barra fora por fer o tempo muito tor- 
mentofo , e eftarem os bancos areados , e 
foberbos , pelo que determinou de ir pela 
de Goa veJlia, e aílím foi por dentro dos 
rios rodeando a Ilha até a boca da barra , 
que fe chama Murmugão , que hemais lar- 
ga 



92 ÁSIA de Diogo de Couto 

ga que a de Goa , e mais oppoíta ao ven- 
to traveísão , onde os mares fazem gran- 
des efcarceos , e por fima daquellas carran- 
cas commetteo a fahida , na qual eíteve to- 
da a Armada perdida , e com grande tra- 
balho , e rifco tornaram pêra dentro todos 
alagados , e com os mantimentos perdidos - y 
e fem querer D.Jorge tornar a Goa, man- 
dou recado ao Viíb-Rey , o qual me man- 
dou chamar 3 porque corria (como difle) 
com os armazéns dos mantimentos , pêra 
que proveffe aquella Armada de novo , co- 
mo fiz em vinte e quatro horas , e o Ca- 
pitão mor gaitou três , ou quatro dias em 
reformar os navios, porque fahíram todos 
deftroçados ; e tomando os novos provi- 
mentos , tornou D. Jorge a commetter a bar- 
ra, já em quatro, ou íinco de Agoílo, e 
porfiando contra os ventos, e mares, fahio 
fora ao largo , e deo á vela com toda a 
fua Armada junta , indo correndo a coita , 
porque ainda que o vento era furiofo, fer- 
via pêra a jornada, e ao outro dia foi to- 
mar o rio Janquifer , onde levava por re- 
gimento ir queimar huma galé que diziam 
fe fazia alli , e caítigar aquelleNaique por 
eítar levantado , como o anno paliado o 
caftigára D. Diogo de Menezes. D. Jorge 
commetteo a entrada do rio, que he muito 
ruim , e de muitas pedras > e com muito 

tra- 



Decaída IX. Cap. XIII. 93 

trabalho , e rifco entrou dentro , e foi pôr 
a }:roa na povoação, em que mandou def- 
embarcar trezentos homens com feus Ca- 
pitães com ordem do que haviam de fa- 
zer ; e entrando a povoação , acharam hu- 
ma náo , que fe eítava fazendo em eftal ei- 
ró , e lhe puzeram o fogo ; ao que o Nai- 
que acudio com fuás gentes , que eram mais 
de mil e quinhentos homens 5 com os quaes 
os noífos travaram huma muito razoada 
batalha. Na Armada fe ouvio a revolta , 
e os noífos que delia vieram fugindo , de- 
ram recado ao Capitão mor, o qual faltou 
logo em terra armado com hum montante 
nas mãos , e os foldados do feu navio fo- 
ram correndo áquella parte , deixando no 
navio André de Soufa , irmão de Francif- 
co de Soufa o Manco, hum Fidalgo man- 
cebo de muitas partes, pêra que lho tivef- 
fe naquelle lugar, e a Pedro Boto Meirel- 
les com a gente do feu navio , pêra que fe 
não affaílalfe da Armada , e pêra que re- 
colheífe alguns defmandados. D. Jorge foi 
até á povoação, onde os noífos andavam de 
volta com os inimigos ,' que logo fe des- 
barataram com fita chegada , e D. Jorge 
foi recolhendo os feus , e encaminhando pê- 
ra a praia. Os dous Fidalgos , que elle dei- 
xou em guarda dos navios , deo-lhes a def- 
confiança de verem ir o Capitão mor da- 

quel- 



94 ÁSIA de Diogo de Couto 

quella maneira pêra a povoação, e de ou- 
virem a revolta da briga, pelo que largan- 
do tudo , foram caminhando pela povoação 
dentro por huma rua differente da por on- 
de o Capitão mor fe vinha recolhendo , e 
deram com hum corpo de inimigos , que 
vinham ladrando aos noflbs ; e vendo aquel- 
les Capitães com poucos íbldados , denoda- 
damente remettêram a elles , que tiveram 
por affronta fugirem-lhes , antes lhes fizeram 
roílo 5 e com grande valor travaram com 
elles huma afpera batalha , em que fize- 
ram altiílimas cavallarias ; mas como os ini- 
migos eram tantos , e os tinham rodeados 
por muitas partes , os mataram de innume- 
raveis feridas , e ainda lhes cortaram as ca- 
beças. D. Jorge chegando á Armada , e 
achando menos aquelies dous Fidalgos , bra- 
mia como hum leão de lhe fahirem contra 
feu mandado > e mandando-os bufcar > os 
acharam fem cabeças , e os trouxeram á 
praia, o que D.Jorge fentio em extremo , 
porque fó aquelies dous Fidalgos fe per- 
deram por defconfiança ; e mandando-os 
embarcar , os foi enterrar em huma Ilha 
que fe faz nomeio do rio, onde pêra fem- 
pre ficaram. 

Feito ifto , partio D. Jorge pêra Barcel- 
lor onde entrou , e na barra achou huma 
náo de Meca que tomou y e mandou pôr 

a 



Década IX. Cap. XIII. 9? 

a bom recado; e chegando á Fortaleza, a 
achou já defapreííada , e íem trabalho ; e 
deixando-lhe gente , e munições, voltou lo- 
go pêra Goa , levando a náo comfigo , a 
qual o Vifo-Rey mandou entregar aoVea- 
dor da fazenda j mas era coufa de pouco 
porte. 

CAPITULO XIV. 

Vai D. Henrique de Menezes ao Norte y 

toma duas nãos de Meca , e perdem- 

fe com tormenta. 

PArtido D.Jorge de Menezes pêra Bar- 
cellor, logo o Vifo-Rey mandou prepa- 
rar outra Armada dehuma galé, e íete ga- 
leotas , de que fez Capitão mor D. Henri- 
que de Menezes , porque foi avifado que 
em Dabul fe efperavam algumas náos do 
Idalxá , que haviam de vir de Meca fem 
cartazes , dando por regimento a D. Hen- 
rique que astomaíTe, fenao trouxeíTem fal- 
vo condu&o , conforme ao contrato das pa- 
zes ; e que trazendo-o , lhes fizeífe cumpri- 
mentos , e correfle com elles como náos de 
Rey amigo. D. Henrique fe fez á vela no 
fim de Agofto , elle na galé , e nas galeo- 
tas António Mafcarenhas , Fernão de Sou- 
fa Coutinho , Gonfalo Guedes de Rebore- 
do> Vicente Carvalho, Manoel de Lima, 

Al- 



$6 ÁSIA de Diogo de Coura 

Álvaro Peixoto , e Marti m de Aguiar , e 
com o tempo que ainda era verde foi na- 
vegando pêra o Norte ; e andando aílima 
dos Ilheos de Anguirála fete , ou oito lé- 
guas deChftul, houveram viíta dehumafer- 
mofa náo 5 que vinha com o mefmo tem- 
po com todas as velas enfunadas a deman- 
dar a terra; eindo-fe adia, a rodeou com 
os feus navios , e lhe mandou pedir o car- 
taz , ao que lhe refpondêram com muitas' 
bombardadas : pelo que o Capitão mor a 
foi varejando com a artilheria tezamente 
fem poderem os navios chegar a aborda- 
rem-na pela gro-flidão dos mares. Ella que 
hia poderofa , e levava muita gente -., dei- 
xou-fe ir feu caminho, defendendo-fe com 
algumas peças de artilheria muito bem : 
aquelle dia , e noite a foram os noíTos fe- 
guindo até defapparelharem de todo que íe 
rendeo , e o Capitão mor mandou metter 
na galé o Capitão , e Officiaes , e mandou 
pelos navios dar toas a náo ; e fabendo da 
Capitão , e da gente delia que atrás vinha 
outra náo , a efperou , e dalli a três, ou 
quatro dias appareceo; eindo-a demandar, 
a rodeou , e lhe perguntou pelo cartaz , a 
que também lhe refpondêram com muitas 
bombardadas. Os noííos lhe começaram a 
fazer feus officios tão bem feitos, que em 
pouco tempo fe rendeo , porque tomaram 

por 



Década IX. Cap. XIV. 97 

por melhor confelho fazerem-no aílim , que 
arrifcarem as vidas. D, Henrique vendo-fè 
com duas nãos tão poderofas ricas , deo 
logo á vela pêra Goa ; mas como os gos- 
tos do mundo não coílumam nunca fer de 
muita dura > fendo tanto avante como a en- 
feada dos Bragmanes abaixo de Dabul , lhe 
deo huma tormenta do Sul tão grolía , que 
obrigou aos noíTos a lhe virarem a anca ; 
e como hiam perto de terra, e os ventos > 
e mares andavam mui groífos , deo logo 
com huma das náos á coita , onde fe fez: 
em pedaços , e o que fe falvou foi roubado 
dos da terra. D. Henrique de Menezes foi 
correndo tormenta com a galé que era ve- 
lha, e já aberta por algumas partes, e de- 
fronte daquellas Ilhas fe lhe abrio de to- 
do 3 pelo que foi forçado virarem a terra , 
donde fe falváram milagrofamente domar, 
mas não da gente, porque logo foram pre- 
zos , e levados dalli ao Tanadar , que os 
mandou ao Idalxá , cujas as náos eram , pa- 
decendo trabalhos no caminho , e na Cor- 
te os mandou aquelle Rey ter a bom reca- 
do ; e de íincoenta foldados , e Fidalgos 
que levava , fó me lembra de D. João de 
Ataíde, que depois foi Capitão deBaçaim, 
irmão de D. Álvaro de Ataíde , que neíie 
mefmo tempo eílava por Capitão em Ma- 
luco de cerco , e em trabalho , como logo 
Couto. TonuV. P.iL G ài- 



98 AS I A de Diogo de Couto 

■diremos ; e não fó fez iíto o Idalxá , mas 
mandou logo reprezar todos os Portugue- 
ses , que eltavam na fua Corte , com cavai- 
los , e outras fazendas. 

As náos da Armada de D. Henrique, 
que foram com a outra náo , pairaram o 
melhor que puderam; ecomo paliou o tem- 
po , foram leguindo fua derrota pêra Goa ; 
e fendo tanto avante como o rioTarvorá, 
dezoito, ou vinte léguas de Goa encontra- 
ram com nove paraos , e os foram deman- 
dar com grande determinação. Os Capi- 
tães dos noíTos navios chegaram á galeota 
de António Mafcarenhas , que hia por ca- 
beça delles , e lhe diííeram que lhes pare- 
cia bem recolherem-fe dentro da náo com 
os navios ároda, onde fe defenderiam me- 
lhor , porque levavam todos os navios aber- 
tos da tormenta que paliaram , e que não 
eílavam pêra paliarem trabalho , nem pêra 
jogarem artilheria. António Mafcarenhas , 
que era muito cavalleiro , e defeonfiado , dif- 
le que tal não havia de fazer , e que ha- 
via de pelejar com os paraos barba a bar- 
ba, e não havia de dar occafião a que dif- 
feífem que elle lhe fugira , que o feguif- 
fem, que Deos lhe daria a vitoria,, e aflim 
voltou aos paraos , que já vinham perto del- 
les , e huns , e outros fe commettéram de- 
nodadamente, diíbarando fua artilheria, e 



Década IX. Cap. XIV. 99 

efpingardaria. Os paraos abordaram os nofc 
fos , e dous delles a António Mafcarenhas, 
que valerofamente foi morto com a maior 
parte dos feus , e o meímo foi Fernão de 
Soufa Coutinho ; e algumas peflbas das que 
efcapáram deita refrega me diíferam , que 
primeiro que os mataíTem fizeram grandes 
cavallerias , e pela meíma maneira foram 
os mais dos noíTos. Alguns navios que vi- 
ram a couía mal parada foram- fe recolhen- 
do á náo , da qual fe defenderam valero- 
famente. Os Malavares lhe puzeram ban- 
deira branca , e lhes mandaram dizer que 
fe entregaflem , que lhes dariam hum na- 
vio dos feus , em que fe foíTem livremen- 
te pêra Goa ; e havido confelho entre íi , 
aíTentáram que feria bem acceitarem o par- 
tido , porque já eftavam fem munições, e 
os Mouros vitoriofos que os não haviam 
de largar até os não renderem. Aífentado 
iílo, o diíleram aos Malavares , os quaes por 
lhes íicar a náo de preza , lhes concede- 
ram o partido , e lhes mandaram por a bor- 
do hum navio , em que todos fe embarca- 
ram , e deram á vela pêra Goa ; e por ef- 
te fucceííb infeíice fe podei conhecer quan- 
to mal faz huma defeonfiança , e quão pe- 
rigofa coufa he na guerra , porque as mais 
das vezes dá em perdições , e em trabalhos 
grandiífimos , como neíla. occaíláo vemos 
G ii què 



ico ÁSIA de Diogo de Couto 

-que fuccedeo ; porque fe António Maíca- 
renhas fe recolhera na náo com toda a gen- 
te , nem elle fora morto , nem a Armada 
desbaratada , nem os Malavares fe logra- 
ram da náo 5 que tanto trabalho lhes cuf- 
tou ; e depois que tomaram poífe delia, 
dando-lhe bufca, recolheram aos navios to- 
do o bom que acharam , e a náo com o 
<jue lhe não fervio , deixaram no mar , ain- 
•da que me parece (fe mal me não lembra) 
■que também a levaram comfigo á toa. 

Chegando a Goa a fuíla da companhia 
de D. Henrique de Menezes com os que 
«efcapáram dos Malavares , fentio muito o 
Vifo-Rey o cafo , aífim por não faber ain- 
da novas de D. Henrique , como pela per- 
da das náos , que eram de grande impor- 
tância , e podiam remediar o Eílado , que 
eftava mui endividado , e impoífibiíitado 
por caufa das grandes guerras que houve > 
e chamando Fernão Telles , lhe mandou 
que até o outro dia fahiíTe pela barra fo- 
ra na fua galé baftarda , e com alguns na- 
vios mais , com que os Fidalgos fe offere- 
cêram ao acompanharem \ e íem fe aíFaíla- 
rem dalli , mandaram embarcar muitos pro- 
vimentos em navios de mercadores , que 
alli fe trouxeram , porque correram as no- 
vas do cafo pela Cidade , e tinha acudido 
ao cães toda a § foidadefca , que havia em 

Goa 



Década IX. Cap. XIV. ior 

Goa com fuás armas , o mandou o Vifo- 
Rey embarcar ; e tanta preffa fe deram , 
que de noite fe acabaram de embarcar , e 
proveram do neceífario , e deram á vela: 
Fernão Telles na galé , como diífe , e nos 
navios que fe puderam negociar foram os 
Capitães feguintes : Gafpar de Brito, Fran- 
cifco da Silva de Menezes , Diogo de Azam- 
buja, D. Eílevão de Menezes, filho do Ba- 
roche , Belchior Calaífa , D. João de Sou- 
fa , e Pedro Rodrigues Malavar , que to- 
dos fe fizeram á vela a vinte e oito de Se- 
tembro , e foram correndo a coita , levan- 
do diante navios ligeiros pêra defcubrirem 
os portos ; e indo até Dabul fem acharem 
novas da náo , nem da Armada Malavar , 
fe tornaram a recolher a Goa já com os 
mantimentos gaitados. Neíte tempo em fim 
de Setembro foi D. Francifco Henriques 
entrar na Fortaleza de Malaca , e foi em- 
barcado na náo com Triítão Vaz da Vei- 
ga, que tinha vindo de fazer duas viagens 
da China pêra Japão , e hia pêra Sunda fa- 
zer dez mil quintaes de pimenta pêra de 
lá fe ir pêra o Reino , por contrato que 
fez com o Vifo-Rey D. António , por ter 
EIRey mandado que por aquella via foífe 
huma náo todos os annos > e não achei a 
forma do contrato. 

Recolhido Fernão Telles > veio logo re<- 

-^ ca- 



ic>2 ÁSIA de Diogo de Couto 

cado aoVifo-Rey que na Fortaleza de Be- 
ligao citava D. Henrique cem os Portugue- 
ses reteudos 5 e ainda todos os que anda- 
vam na Corte do Idalxá com muitos cavai- 
los , e outras fazendas , que fe lhe depoíl- 
táram , pelo que lhe pareceo que pêra con- 
íervação da amizade daquelle Rey era he- 
ceíTario mandar-fe-lhe defculpar do caio ; 
e porque lhe diíleram que andavam huns 
agentes daquelle Rey em Goa comprando 
hum cavallo que havia de fama , e algu- 
mas efpadas largas , mandou elle comprar 
o cavallo, e mandou guarnecer algumas ef- 
padas muito fermofas , que fe bufeáram , 
e elegeo pêra mandar a efte negocio a Chri- 
ftovao do Couto j Língua do Eftado , ho- 
mem muito prático nas artes daquelles Reys, 
e de quem todos tinham muito conheci- 
mento , pelo qual mandou vi fitar ao Idal- 
xá , e lhe efereveo hum a carta de muitos 
cumprimentos , defeulpando-fe do cafo das 
náos , e pondo a culpa aos donos delias de 
navegarem fem cartazes , e ao tempo tor- 
mentofo que as desbaratou , porque a fua 
tenção era ; fe foram ter a Goa \ não fe bu- 
lir nellas , e mandar-!has deprefente, por- 
que niíTo fervia a EIRey de Portugal feu 
Senhor, como lhe tinha encommendado. 

Chriftovão do Couto foi em breves dias 
á Corte , aonde tratou de lhe EIRey dar 

au- 



Década IX. Cap. XIV. 103 

audiência , eapprefentar-lhe acarta , e pre- 
iente do Vifc-Rey , o que não pode aca- 
bar com elle , nem EIRey o quiz ouvir , 
ant^s o mandou deter , de que elle logo 
aviíbu ao Vifo-Rey , o qual vendo aquillo, 
e fendo informado que havia ainda outras 
duas náos do Idalxá pêra virem de Meca , 
determinou de as mandar tomar pêra com 
eilas fazer as pazes, e amizades com aqu el- 
le Rey , pêra o que defpedio Fernão Tel- 
les com duas galés , e treze fuftas , de que 
foram por Capitães , elle em humà galé , 
e da outra D. Joáo da Gama, e das fuftas 
D. Sancho de Vilhena , D. Eílevao de Me- 
nezes , D. Bernardo de Noronha , D. Luiz 
de Menezes , Manoel de Miranda Henri- 
ques , Diogo Taveira , Fernão de Albuquer- 
que , Eílevao de Pina , Gafpar de Brito, 
Nuno Fernandes de Ataíde 5 Gafpar de Sou- 
fa j e Domingos Ferreira Efcorcio. E com 
efta Armada fe fez á vela no fim de Outu- 
bro , e com ella toda junta fe foi pôr na 
paragem , que as náos de Meca haviam de- 
vir demandar , e affim o deixaremos : nefta 
companhia foi Fernão de Soufa Chichorro 
entrar na Capitania de Dio. 

Antes de partir Fernão Telles de Goa, 
chegaram de Portugal as náos S. Gregório , 
de que veio por Capitão António Rebello , ir- 
mão de Pêro Lopes Rebello > de quem nef- 

te 



104 ÁSIA de Diogo de Couto 

te Epilogo fallei muitas vezes, e a ráo Be- 
lém 5 Capitão Theotonio de Vafconcellos , 
e a náo Santa Clara, de que veio por Ca- 
pitão Luiz Dalter , todos três da compa- 
nhia de D. Francifco de Soufa , que tinha 
partido por Capitão mor de quatro nãos, 
o qual foi tomar Còchim no fim de Outu- 
bro , e logo fe embarcou pêra Goa por tra- 
zer a feu cargo coufas de muita importân- 
cia , como logo veremos , e chegou a efta 
Cidade na entrada de Dezembro , o qual 
logo fe foi ver com o Arccbifpo D. Gaf- 
par , e lhe deo huma inftrucção de EIRey 
com huma carta em íima pêra elle , na qual 
lhe dizia que fe o Vifo-Rey D. António 
de Noronha não tiveífe mandado a Antó- 
nio Moniz Barreto pêra Malaca , ou não 
eítiveífe já pêra o defpachar pêra lá , em 
tal cafo abriííe huma fuccefsao da gover- 
nança da índia , que com aquella hia , e 
xnandaíTe chamar a António Moniz á Sé , 
e D. Francifco de Soufa Capitão mór da 
Armada do Reino , e o Secretario , e o Vea- 
dor da Fazenda , D. Pedro de Soufa Ca- 
pitão da Cidade, e os Vereadores, e Offi- 
ciaes da Camera , Defembargadores , e Fi- 
dalgos , e todas as mais peíToas públicas, 
e que a pefíba que nella eítiveífe , fizeflç 
logo entregar da governança da índia , e 
que D, António de Noronha fe embarcai 

fe 



Década IX. Cap. XIV. 105- 

fe pêra o Reino na náo Capitânia com D. 
Franciíco de Soufa quaíi como prezo. Tan- 
to que o Arcebifpo vio o eftilo da in- 
ítrucção 5 que EIRey lhe commetteo , fem 
fazer mais diligencia alguma naquelle ne- 
gocio , mandou chamar á Sé todas as pef- 
foas affima nomeadas em nove de Dezem- 
bro de mil e quinhentos e fetenta e três ; e 
íendo todos prefentes , mandou ler a in- 
ítrucçao de EIRey pelo Secretario Rodri- 
go Annes Lucas , por virtude da qual ti- 
rou logo do peito a via da íuccefsao , que 
EIRey lhe mandou , que também mandou 
ler diante de todo aquelle concurfo em al- 
ta voz 5 a qual de verbo ad verbum he a 
fcguinte 5 que quiz aqui pôr, por quanto 
foi coufa nova naquella Cidade. 

CAPITULO XV. 

Manda EIRey defapojfar do governo a 
D. António de Noronha. 

*» T?U EIRey faço faber aos que elle vi- 
» HL rem , que por alguns refpeitos de meu 
» ferviço tenho affentado que D. António 
» de Noronha do meu Confelho , meu Vi- 
» fo-Rey da índia , ou qualquer outro Go- 
» vernador que lhe tiver fuccedido , fe ve- 
a> nha pêra eíte Reyno nas náos deita Ar- 

» ma- 



io6 ÁSIA de Diogo de Couto 

» mada , de que vai por Capitão mor D. 
» Francifco de Soufa , como fe contém em 
» huma carta que ao Arcebifpo efcrevo , 
» e ao dito Vifo-Rey ; e pela muita con- 
» fiança que tenho de António Moniz Bar- 
» reto do meu Confelho , que encarreguei 
> de Governador de Malaca, e partes do 
)) Sul , hei por bem de meu ferviço que o 
» dito António Moniz fucceda na gover- 
» nança da índia , e entre logo nella , co- 
)> mo fe neítas náos fora por mim provi- 
» do de Governador da índia. Notifico-o 
» affim ao dito Vifo-Rey D. António de 
» Noronha , ou qualquer outro Vifo-Rey 
» que lhe tiver fuccedido , e lhe mando que 
)> logo tanto que efta Provisão lhe for ap- 
» prefentada j entregue a dita governança 
» da índia ao dito António Moniz Barre- 
» to, fem dúvida alguma, e todos os regi- 
» mentos , cartas minhas , e Provisões , que 
» deite- Reyno levou , e lhe mandei o an- 
» no paíTado , e ora envio nas náos deita 
» Armada , tendo-fe na dita entrega o mo- 
» do que fe ufa , e guarda em femelhan- 
» tes entregas de huns Governadores a ou- 
» tros, de que fe farão autos, e fe paíla- 
y> rám Certidões na forma que fe coítumam 
» fazer ; e feita logo a dita entrega pela 
» dita maneira, defde agora em diante hei 
» ao dito D. António de Noronha , ou a 

» qual- 



Década IX. Ca?. XV. 107 

)> qualquer outro Governador , pordefobri- 
» çado da homenagem que me fez da di- 
» ta governança , e ao dito António Mo- 
» niz Barreto por obrigado a ella ; e po- 
» rém elle dito António Moniz a faça em 
» forma 3 e aífim o juramento , que me fa- 
» zem os Governadores da índia junta- 
» mente, e conforme o que fe coíluma na 
» índia , quando fe abrem as fuccefsóes da 
» dita governança : e mando a todos os 
» Officiaes de JuíHça , e de minha Fazen- 
)) da das ditas partes , Capitães das Forta- 
» lezas, e de minhas Armadas, e navios, 
» Fidalgos , Cavalleiros , e gente de ar- 
» mas , que nas ditas partes me andam fer- 
» vindo , e a quaefquer outras peífoas , a 
» todos em geral , e a cada hum em par- 
)) ticular , que recebam ao dito António 
)) Moniz Barreto por meu Capitão mor , e 
)) Governador das ditas partes , e lhe obe- 
» deçao , e cumpram em tudo íeus manda- 
» dos inteiramente, e o deixem ufar da ju- 
)) rifdiçao , e alçada que tinha concedido 
)) ao dito D. António de Noronha , fem dú- 
)) vida , nem embargo algum que a iífo fe- 
)) ia poíto , que aílim o hei por bem de 
» meu ferviço ; e ficando o dito António 
» Moniz por Governador da índia por bem 
)) delia Provisão , hei por bem de meu fer- 
» viço que fucceda na governança de Ma- 

» la- 



io8 ÁSIA de Diogo de Couto 

» laca a peíToa nomeada na primeira fuo 
» cefsão da dita governança , e em defeito 
» da tal peíloa haverão effeito as mais fuc- 
y> cefsoes por fuás precedências : e hei por 
» bem que eíle valha 5 e tenha força , e vi- 
)> gor , como fe foífe Carta feita em meu 
» nome por mim aííignada , e paíTada por 
y> minha Chancellaria , e fellada com o fel- 
» lo de minhas Armas , fem embargo da 
)) Ordenação do livro fegundo , titulo vin- 
» te , que defende que não valha Alvará , 
)) cujo effeito haja de durar mais de hum 
y> anno : e valerá outro íim , pofto que não 
» feja paliado pela Chancellaria , fem em- 
» bargo da dita Ordenação , que o contra- 
» rio difpõe. Miguel de Moura a fez em 
y> Xabregas a doze de Março de mil e qui- 
)) nhentos e fetenta e três. » R E Y, 

Lida a fuccefsão , logo António Moniz 
Barreto deo a homenagem do Eítado da 
índia na forma da fuccefsão nas mãos do 
Arcebifpo , e juntamente fez o juramento 
ordinário que fazem os Vifo-Reys , e Go- 
vernadores , cujo traslado, porque he no- 
tável , e não íei fe todos o guardam , o 
porei aqui, poílo que já em huma das mi- 
nhas Décadas o fiz , e o que juram he o 
feguinte , poílas as mãos em hum Crucifi- 
xo em fima de hum MiíTal. 

» juro aos Santos Evangelhos í em que 

» pO* 






Década IX, Cap. XV. 109 

5) ponho as mãos , que não dei , nem da- 
» rei, nem prometti de dar, nem mandar 
)> couía alguma a nenhuma peíToa por cau- 
y> ia de me ler dada efta Capitania , e go- 
» vernança , nem pêra ao diante a vir a 
» ter : e aílim juro que quanto a mim , e 
» a minhas forças , e juizo for poffivel , eu 
» fervirei o dito cargo ,' e governança bem y 
» e fielaiente, como ao ferviço de Deos , 
» e defcargo da confciencia deS. A. e mi- 
)) nha cumprir : e trabalharei quanto em 
» mim for , que inteira , e igualmente fe 
:» guarde direito , e juítiça ás partes , fem 
» alguma differença, nem refpeito que ha- 
» ja de grandes a pequenos , nem de ricos 
» a pobres , nem de eítrangeiros a natu- 
)) raes , porque quanto em mim for , pro- 
» curarei que a todos fe faça , e guarde 
)> por inteiro , e efpecialmente terei cuida- 
}> do dos prezos, órfãos, e viuvas pobres, 
» e peífoas miíeraveis : e trabalharei quan- 
» to em mim for, que todos os negócios, 
» e defpacho que a meu cargo pertence- 
» rem fe defpachem bem, jufta, e breve- 
» mente , fem alguma paixão de ódio , amor, 
» nem aífeição , ou parentefco , nem de ou- 
» tros femelhantes refpeitos : e aílim mef- 
» mo juro , que nem por mim , nem por 
» interpoíla peíToa não receberei dadivas , 
i> prefentes , nem ferviço algum de nenhu- 

» ma 



no ÁSIA de Diogo de Couto 

» ma pefTca que feja ; e quando alguns 
» Reys , ou Senhores das ditas partes me 
» mandarem alguns prefcntes , ou dadivas y 
» que pareça que por íerviço do dito Se- 
» nhor , e por evitar efcandalo lhos devo 
» tomar > em tal cafo os mandarei logo en- 
)) tregar inteiramente ao Feitor de S. A. 
» da Feitoria onde eítiver , e os mandarei 
» carregar fobre elle com receita pelos Ef- 
» criva es de feu cargo : e aíTim com dili- 
)) gencia trabalharei que os Capitães do di- 
» to Senhor , Feitores , Eícrivaes , e quaef- 
» quer outros Officiaes , ailim de Juíliça y 
» como da Fazenda , que neftas partes efti- 
» verem ? íirvam feus Officios bem , e ver- 
» dadeiramente , e fegundo feus regimen- 
)) tos 5 os quaes inteiramente farei guardar 
)) fem mingua alguma , e affim todas as 
)> Provisões de S. A. , e aílim mefmo juro, 
)) e prometto de guardar todas as ordens y 
» e provisões do dito Senhor; e por firme- 
» za de tudo aíííma promettido > e jurado 
» aífignei aqui neíle aflento*» 



CA^ 



Década IX. Cap. XVI. ní 

CAPITULO XVI. 

De como fuccedeo na governança de Ma- 
laca D. Leoniz Pereira. 

ACabado eíle a&o , o Arcebifpo D. Gaf- 
par tirou do feio huma fuccefsao , que 
Jhe EJRey tinha também mandado com a 
outra , que mandava que na meíma hora 
fe abrilfe , e que a peííba que nella fe 
achaíTe , fuccedeíTe na governança de Ma- 
laca , e partes do Sul , affim como o Go- 
vernador António Moniz viera declarado 
de Portugal , a qual fe abrio logo , e fe 
achou que havia ElRey por bem que fuc- 
cedeíTe nella Gonfalo Pereira Marramaque; 
e j?or fer falecido , fe abrio a fegunda fuc- 
ceísao , em que fe achou D. Leoniz Perei- 
ra , que por nao eílar prefente o mandou 
o Governador logo chamar a S. Francifco , 
pêra onde logo fe foi com todos os que 
eílavam alli prefentes ; e indo lá ter o di- 
to D. Leoniz Pereira, fe lhe leo a fuccef- 
sao que elle aceitou , e alli logo deo a 
homenagem daquelias partes do Sul nas 
mãos do Governador António Moniz Bar- 
reto; e acabada ella , fez o mefmo juramen- 
to atrás , que o mefmo Governador tinha 
feito. Feitos eftes aftos , foi-fe o Governa- 
dor, Arcebifpo, Capitão mor dasnáoscom 

to- 



112 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos os mais que citavam prefentes , af- 
Hm Capitães , e Fidalgos , como Officiaes 
de Juítiça, e Fazenda, afíim como alli cin- 
tavam , ás cafas da Fortaleza , onde eftava 
o Viíb-Rey D. António de Noronha , que 
já fabia de tudo , e íbffreo eíte golpe com 
grande conílancia de animo , fem turbação 
alguma, e perante elle fe leo pelo Secre- 
tario a Carta de EIRey pêra o Arcebiípo, 
por virtude da qual íe abrio a lucceísão 
da governança da índia, da qual EIRey ef- 
eufava ao dito D. António de Noronha, 
e lhe mandava fe foíTe pêra o Reino com 
todas as mais coufas atrás , que tudo ou- 
vio o dito D. António fem alteração , nem 
fobrefalto algum exterior; e depois de tu- 
do lhe fer notificado , diíle que elle havia 
por muito bem ordenado tudo o que S. 
A. tinha mandado , e que elle lhe obede- 
cia , e punha fuás Provisões todas fobre 
fua cabeça , e que naquillo lhe faria a maior 
mercê do mundo em o mandar ir pêra fua 
mulher, e filhos, que elle defpejava logo 
a Fortaleza pêra fe embarcar pêra o Rei- 
no , onde confiava de S. A. lhe fizeífe juf- 
tiça , e déífe fatisfação daquelle cafo , em 
que elle fe havia de monrar fem culpa. 
Com ifto fe defpedio o Governador , Ar- 
cebifpo , e os mais , a quem o Vifo-Rey 
acompanhou até ás efeadas r e porque mm* 

tO£ 



Década IX. Çap* XVI. 113 

tos Fidalgos feus parentes, e amigos fe 
deixaram ficar comelle, lhes pedio que tal 
não fizeflem , e que foílem acompanhar o 
leu Governador. 

Efte foi o mais novo , e efcandalofo ca* 
£0 que na índia aconteceo , do qual mui- 
tos tiveram a culpa , porque deram occa- 
ílao a fe defapoífar do governo hum Fidal- 
go tão honrado , e tão benemérito. Cafo 
era efte digno de fe caftigar; mas deixan- 
do os que em Portugal trataram diílo com 
EIRey , a peífoa a quem fe deo maior cul- 
pa deita defcompoftura foi ao Arcebifpo 
13. Gafpar ; porque dizendo-lhe EIRey na 
carta, que lhe efcreveo, que fe D. António 
de Noronha não tiveífe mandado António 
Moniz Barreto a Malaca, ou fe não eílivef- 
Je pêra o mandar (ifto fegundo fe dizia pu- 
blicamente , que eu não achei nem as car- 
tas , nem as inftrucções que deviam mandar- 
íe pêra o Reyno) que fe abriíTe aquella via 
.particular que lhe enviava : fe aíTim foi, 
parece que eftava obrigado a faber do Vi- 
Íò-Rey fe havia de mandar António Mo- 
niz a Malaca na monção feguinte de Abril, 
aíTim como EIRey o mandava; e que pof- 
to que lhe diífeíTe que o havia demandar, 
.efperaífe até ver fe o mandava ; e quando 
.não, poderia então livre de toda a calúm- 
;iia abrir a fuccefsão , e não tão accelerada- 
Çouto. Tom. V. f\ iL H xnen- 






Ji4 ÁSIA de Diogo de Couto 

mente • fem fazer diligencia alguma ; por-* 
que aquella partícula da carta que dizia, 
ou fe não eftiver pêra o mandar (fe tal lie, 
como já difle) parece que íe havia de ef- 
perar até a monção de Abril , em que de 
ordinário fe parte pêra Malaca, e não to- 
marem aíTim num Fidalgo tão velho , e hon- 
rado tanto de fobrefalto , e havendo tem- 
po pêra elle poder dizer que enviaria An- 
tónio Moniz , como EIRey mandava. Iílo 
he o que geralmente fe praticava em Goa; 
e quanto ao Arcebifpo eu o tinha por gran- 
de virtuofo , tão honrado , e tão grande 
Theologo , que não havia de fazer coufa 
tão grave fem muita coníideração ; porque 
ficaria em reítituiçao a D. António de No- 
ronha de fua honra , fazenda , e ainda da 
vida, porque depuro nojo faíeceo em Por- 
tugal ; e do mefmo modo me dizem fale- 
cera D. Fernão Alvares de Noronha feu 
cunhado, e fua irmã D. Francifca, mulher 
do mefmo D. António de Noronha : e ain- 
da me certificaram mais , que a peflba que 
fez com EIRey D. Sebaílião que ordenaf- 
fe efta mudança , que também morrera do 
mefmo, Juftos juizos são de Deos , cujos 
caminhos ficam incógnitos ao nofíb limita- 
do juizò, em parte eílam todos onde fefa- 
be a verdade deíle cafo , e lá terão o ga- 
lardão, oucaíligo que por elle mereceram. 



Década IX, Cap. XVI. n? 

O que eu como teítemunha de vifta fei, c 
poíío com verdade affirmar, he, que oVi- 
fo-Rey D* António nao teve culpa alguma 
em nao mandar a Malaca António Moniz 
Barreto , o qual melhor que ninguém co- 
nhecia efta impoílibilidade , pois achou o 
Eítado j quando chegou a índia , nas guer- 
ras já referidas , e Goa cercada com o po- 
der maior que no Oriente fe vio dos mais 
poderofos Reys delle , e Chaul de cerco 
tão rigorofo como temos viíto , eoThefou- 
reiro Tem hum. fó pardao em dinheiro , os 
armazéns fem artilheria, nem munições, e 
a Fortaleza de Chalé cercada do Çamori , 
e em tal aperto , que fe entregou a parti- 
do , como diílemos , Maluco em tantos tra- 
balhos 5 como tenho moílrado ; e que huma 
Armada tão poderofa , como Goníalo Perei- 
ra Marramaque levou tão cheia de gente, 
e provida de baítimentos , e munições tu- 
do por lá fe confumio : e que pêra fe fa- 
zerem as Armadas da coíla do Malavar, 
e do Norte não havia navios , nem cabe- 
dal , porque por caufa da guerra geral as 
Alfandegas nao renderam coufa alguma ; e 
que pêra fe aviar António Moniz do mo- 
do que EIRey mandava não havia gente, 
vafilhas , nem artilheria ; e quanto ao ca- 
bedal mal fe podia fazer o que havia de 
levar com quatrocentos mil pardaos ^ que 
H ii nao 



ii6 ÁSIA de Diogo de Couto 

não havia donde fe tiraíTcm , como tudo 
logo fe moftrou bem claro ; porque man- 
dando EIRey a António Moniz que def- 
pachaíTe pêra Malaca a D. Leoniz , do mef- 
mo modo queElRey mandara aoVifo-Rey 
D. António que o defpachaíTe a elle , não 
•houve com que , nem foi , como melhor 
ao diante fe verá , pelas quaes razões EI- 
Rey foi muito enganado , como fempre fe- 
ra de quem lhe aconfelhar que divida o 
governo da índia \ porque eftá claramente 
manifefto , que nem hum , nem outro fe 
poderam fuftentar , porque o de que de- 
pende a governança de Malaca , e de que 
•fe pôde fuftentar , he lo dos direitos da Chi- 
na , e do cravo de Maluco , que não fei 
fe renderam duzentos mil xarafins 5 que tan- 
tos he força venham a faltar nos rendimen- 
tos da Alfandega de Goa , que piedofa- 
mente fe pode fuftentar com todos os ren- 
dimentos \ como por muitas vezes fe tem 
moftrado ao Rey nas receitas do que ren- 
de, e nas defpezas do que fe gafta , que 
demais a mais paíTam as defpezas cada 
anno de duzentos mil pardaos : como fe 
-poderá logo fuftentar a governança de Ma- 
laca' feparada da índia ? E já por varias 
-vezes tenho moftrado pelodifcurfo das mi- 
nhas Décadas , que algumas vezes que os 
:Reys de Portugal pertendêram eftas divi- 
sões . 



Década IX. Cap. XVI. 117 

soes, ellas por íi fe acabaram, e desfize- 
ram , porque as coufas grandes com o mef- 
mo tempo cahem. 

Primeiro que palie daqui, quero contar 
o que me aconteceo com o Vifo-Rey D. 
António de Noronha no princípio deAgof- 
to paíTado , que fazia a Armada pêra D, 
Henrique de Menezes , que foi eíla. Tinha 
eu a meu cargo os Armazéns dos manti- 
mentos , e hum dia me mandou chamar , ef- 
tando fó, pêra me encommendar os provi- 
mentos daquella Armada, e de prática em 
prática me perguntou pelas novas que cor- 
riam em Goa; ao que lhe refpondi que ne- 
nhumas , e que pêra Agoílo , que nunca vi- 
ra tao poucas. E iíto lhe diíTe, porque na 
índia he muito antigo tanto que entra o 
mez de Agoílo defenfronharem-fe as men- 
tiras , que todo o inverno eíliveram rebu- 
çadas ; porque como efperam por náos do 
Reyno , os inimigos dos Vifo-Reys affir- 
mam que lhes vem fucceífor , e ainda fobre 
iflb ha largas apoítas , os amigos publicam 
o contrario , outros publicam outras cou- 
fas , e são tantos , e tão vários os parece- 
res, como os defejos , e conveniências de 
quem os dá. O Vifo-Rey , quando lhe eu 
diíTe que nunca vira tão poucas novas em 
Agoílo, íorrio-fe, e refpondeo-me que não 
eílava eu no mundo , que havia Fidalgos 

em 



Ii8 ÁSIA de Diogo de Couro 

em Goa , que pelo feu ponto faziam na- 
quellas nãos Vifo-Rey na índia , do que 
cu me ri , porque aos dous annos de leu 
governo não podia imaginar talcoufa. Vie- 
ram as náos (como diíie) não veio Viíb- 
Rey em peífoa, mas veio em papel na via 
que fe abrio , de que eu fiquei maravilha- 
do , quando mç achei ao abrir da íiiccef- 
sao , deitando muitos juizos donde aquii- 
lo podia fahir ; porque do demónio (don- 
de os feiticeiros', que ha muitos na índia, 
que fempre , ou as mais das vezes men- 
tem) nao podia fer , porque a noticia do 
futuro, conforme a doutrina recebida dos 
Theologos , he obra própria de Deos noílb 
Senhor , e que os demónios nunca pude- 
ram imitar; e poíto que elles denunciaram 
algumas coufas , que íahíram verdadeiras , 
e algumas que a razão natural por aítro- 
nomia pode alcançar , fuppoíto que o que 
fe contém em fuás coufas necelíarias mais 
he do prefente , que do futuro , donde vem 
que não adivinham os Aítrologos , quando 
predizem os eclipfes antes que fuccedão , 
porque nas fciencias da Aítrologia , e Fi- 
lofofia natural fazem os demónios grande 
ventagem aos homens , nao negando que 
fouberam muitas coufas, que os Anjos, que 
são Miniftros de Deos , denunciaram. O 
certo he que a fubtileza do demónio , e a 

fcien^ 



Década IX. Cap. XVI. 119 

jfcicncia excede a dos homens em conje- 
cturar, e daqui vem terem noticia das cou- 
fas que hão de fucceder , ou por lua natu- 
ral Filofofia ? e noticia , ou por arte , e 
fciencia, ou por conjecturas : em fim quq 
eíle negocio de que trato não podem os 
demónios alcançar , porque como foram 
couías forjadas no conceito doRey, e dos 
Miniítros , os quaes conceitos fó são pre- 
fentes a Deos , e elle fó os penetrou , e 
foube , por onde me affirmo que o alcan- 
çar-fe que neílas náos vinha Vifo-Rey foi 
conjeélura , e prefumpcao do mefmo An- 
tónio Moniz pelas couías que tinha efcri- 
tas a EIRey contra o Vifo-Rey D. Antó- 
nio de Noronha , as quaes prefumpções el- 
le communicaria com feus amigos , que no 
fim lhe fahíram verdadeiras. 

O Vifo-Rey D. António de Noronha 
logo fe embarcou pêra Cóchim no galeão 
S. Leão , Capitão António de Morim , e 
de Cóchim fe embarcou pêra o Reino na 
náo Capitânia, fem lhe darem gazalhados , 
nem liberdades , nem pêra feus criados, co- 
mo he coltume , foffrendo eíte Fidalgo tu- 
do com grande prudência , e conítancia , e 
outras muitas vexações , que ainda mais 
lhe fizeram , que ao diante direi , porque 
quero aqui concluir com eíte Vifo-Rey ., por 
entrarmos com o governo de António Mo- 
niz 



120 ÁSIA de Diogo de Couto 

niz Barreto. Foi filho de D. Martinho de 
Noronha, edefua mulher, foi cafado com 
D, Francifca de Noronha , irmã de D. Fer- 
não Alvares de Noronha , Capitão geral 
que foi das galés do Reino , e Sumilher 
de EIRey D. Sebaítião, da qual teve hum 
filho , que lhe morreo moço , eítando elle 
por Vifo-Rey da índia , e duas filhas. 

Foi Fidalgo mui continente , amigo da 
juítiça , e tão verdadeiro , que podia ter 
efcola de verdade ; antes que fe embarcaf- 
fe fe tinha retratado , e pofto na cafa , on^ 
de eftam todos os Vifo-Reys ; e António 
Moniz depois que acabou , fe mandou tam- 
bém retratar , e poz o feu retrato junto 
delle, porque todos eítam fucceilivamente , 
e tão naturaes ambos , que he pafmar. Eram 
homens corpulentos , efpadaudos , de gran- 
des roftos , e carregados , e ficaram os re- 
tratos poftos de feição, que ficavam olhan- 
do hum pêra o outro com grandes carran- 
cas , como fe fe defafiáram. Invernou em 
Moçambique , indo pêra o Reyno , aonde 
depois chegou em Maio feguinte ; e quando 
defembarcou em Lisboa , onde logo foi ao 
Mofteiro , em que fua mulher eílava enter- 
rada , e foi muito bem recebido dos Pa- 
dres , que o levaram á fua cova , onde fez; 
oração 3 e lhe lançou agua benta ; e por- 
que não fabia ainda da morte do filho , lhe 

dif- 



Década IX. Cap. XVI. 121 

diíTe o Prelado , que eftava junto delia , que 
Deos fora fervido levar também pêra fi a 
D. António , e fobrefaltado o Vifo-Rey 
com aquella nova , interrompeo com hum 
gemido , dizendo alto : » Sem mulher , fem 
» filho , e fem honra , não ha quem polia vi- 
» ver ' y » e recolhendo-fe em leu apofento , 
veio a adoecer, e em pouco tempo a morrer y 
e fazer companhia a fua mulher , e filho - 
e diíferam que EIRey D. Sebaftião ficara 
arrependido da rigorofa demonftração que 
com elle mandou ufar ; e eílando a huma 
janella, quando lhe deram as novas de fua 
morte , dando de mão á porta , a cerrou 
de pancada , moílrando grande fentimento 
diíTo ; e tem-fe entendido que fe vivera , 
lhe houvera EIRey de reftituir fua honra, 
pela qual hia muito determinado a puxar , 
mas em fim com fua morte fe acabou tu- 
do , como também acabaram os que foram 
occaíião delia. 

CAPITULO XVII. 

Das coufas que fuccedêram em Malaca nef- 

te tempo : e do cerco que os vizinhos 

puderam aquella Fortaleza. 

NAõ ficou fora da conjuração geral , 
que os Reys da índia fizeram contra 
as noífas Fortalezas , o Achem tyranno, in* 

fo- 



122 ÁSIA de Diogo de Couto 

íòlcnte , e poderofo , e o maior inimigo 
de todos , o qual também foi folicitado 
pelo Cota Maluco , hum dos da liga , que 
o mandou prover com muitas munições , 
pêra fazer guerra á nofla Fortaleza de Ma- 
laca , o qual não fe contentou de metter 
todo o cabedal pêra efta jornada, mas ain- 
da convocou a Rainha de Japará , fenhora 
poderoíà , e rica , a qual folgou muito de 
fe lhe offerecer aquella occaíião pêra aju- 
dar a deflruir aquella Fortaleza , que tão 
pezada era a todos os Reys daquellas par- 
tes ; e como o Achem era a principal ca- 
beça nefta expedição , e eftava mais prof- 
pero, poz logo no mar fua Armada, que 
eram mais de noventa velas , em que en- 
travam vinte e íinco galés , e todas as mais 
fnílas , e lanchas mui bem artilhadas , e 
cheias de munições , e fete mil homens de 
peleja Achéns , que são valentes homens , 
e cruéis ; e tendo tudo p refles , fem querer 
efperar pela Rainha de Japará , pelo orde- 
nar aíilm Deos por fua mifericordia , por- 
que ainda que caíligava aquella Cidade 
com cercos , o fazia como Pai , porque fe 
ambos fe ajuntaram , não pudera efeapar 
aquella Cidade de totalmente ficar deflrui- 
da. Poíto em fim o Achem no mar, deo á 
vela em a entrada de Outubro defte anno 
,de fetenta e três P e aos treze já fobre a 

tar- 



Década IX. Cap. XVII. 123 

tarde chegou á vilta daquella Fortaleza, e 
logo de noite delembarcou todo o poder 
naquella parte chamada de Malaca, á dií> 
ferença da outra chamada dellher, que he 
do Poente, a que logo mandou pôr o fo- 
go , a que acudio D. João Bandarra , natu- 
ral , e Capitão de todos os Gentios , que 
era muito bom cavalleiro , e em todos os 
cercos o moítrou ; e como fahio com pou- 
cos a dar nos inimigos , ainda que foi fazen- 
do fua obrigação, peleijando valerofamen- 
te , todavia foi morro ; e poíto que Mala- 
ca teve eíte caítigo de perder hum tão 
grande defenfor, com tudo logoDeos acu- 
dio com fuás coftumadas mercês , que foi 
na maior força do incêndio cahir do Ceo 
hum tão grande diluvio de aguas com ta- 
manha tempeftade , que deo com muitos 
navios á coita , e o fogo fe apagou ; por- 
que fenão fora aquella mifericordiofa mer- 
cê de Deos , todos os moradores daquella 
parte acabaram abrazados , e não deixaram 
ainda de perecer alguns , que fugindo ao 
fogo , morreram affogados no rio , aonde fe 
lançaram. 

O Alcaide mor , que fuccedeo por mor- 
te de D. Miguel de Caftro , acudio com 
toda a gente ás portas , e aos muros , e o 
Bifpo , e Religiofos em toda a noite efti- 
veram com as armas nas mãos , e mandou 

met- 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

metter gente em duas , ou três náos , que 
eílavam no Porto , e provellas de munições. 
O Achem , que não tinha ainda defembar- 
cado , também efteve a riíco de dar á cof- 
ta com a tormenta , e ao outro dia man- 
dou recolher toda a fua gente á Armada, 
e determinou levar aquelle negocio por ou- 
tro rigor mais perigofo que o dís armas , 
que era o da fome , pêra o que affentou 
de tomar os eftreitos , e não deixar paliar 
pêra aquella Fortaleza nenhuma coufa , que 
lhe pudeíTe levar provimentos , pêra aífim 
a pôr no extremo das neceííidades , e pê- 
ra iflb fe quiz ir lançar na coita de Muar, 
linco léguas de Malaca, com toda a fua Ar- 
mada eítendida por onde as embarcações 
do foccorro haviam de paliar; e primeiro 
que fe partiífe , que foi ao terceiro dia de 
fua chegada, mandou commetter as náos, 
que ellavam no porto , que foram batidas 
muito rijamente; porém delias, e da For- 
taleza foram as embarcações da Armada 
muito bem varejadas com a artilheria ; e 
vendo o Achem que não podia fazer cou- 
fa alguma, foi-fe pêra o rio de Muar, on- 
de fe deixou eftar com grande vigilância 
fobre os navios que não paífaíTem pêra a 
Fortaleza. Poucos dias depois , que foram 
aos dous de Novembro , furgio fobre aquel- 
la Fortaleza a náo de Triítão Vaz. da Vei- 
ga* 



: Década IX. Cap. XVII. %%$ 

ga , em que vinha D. Francifco Henriques , 
que logo defembarcou , e também tomou 
poíTe daquella Fortaleza : efoi grande mer- 
cê de Deos noíFo Senhor pôr na vontade 
ao inimigo que fizeíTe aquella mudança que 
diíle ; porque fe eftivera fobre aquella For- 
taleza com tão groíTa Armada , correra aquel- 
la náo glande rifco. Ao outro dia convo- 
cou o noílo Capitão a confeiho o Bifpo , 
Vereadores , e peflbas principaes , e com 
todos praticou o remédio , que fe poderia 
dar pêra lançar aquelle inimigo do lugar 
de Muar , porque com medo delle não ou- 
favam os mercadores a lhe trazerem man- 
timentos, nem ainda os peícadores a fahi- 
rem ao mar a pefear , com o que total- 
mente padecia aquella Cidade tanta falta 
de tudo 5 que não havia quem fe pudeíTe 
valer; e debatido o cafo, foram todos de 
parecer que não havia outro melhor remé- 
dio , que pedir a Triftão Vaz da Veiga to- 
maíle aquella empreza a fua conta , e que 
fe lhe deífem todos os navios que fe pu- 
deífem remediar ; e como elle eílava pre- 
fente , lhe pediram todos que por fervi ço 
de Deos , e de EIRey quizeíTe fer reítau- 
rador daquella Cidade , e libertador de tão 
duro cativeiro , como o da fome que come- 
çavam todos a padecer, que não podia fer 
-maior que verem-fe todos acabar fem gol- 
pe 



nó ÁSIA de Diogo de Couto 

pe de efpada ; que fe eítiveram cercados 
dos inimigos , e ás mãos com elles , lhes 
fora de grande confolaçao morrerem , to- 
mando nelles iatisfação daquelles males. 
Triítão Vaz da Veiga aceitou a jornada 
com grande gofto , promettendo que fe Deos 
noíío Senhor , por cujo ferviço fe offere- 
cia áquelle perigo , lhe déíTe a vitoria , que 
em fua infinita bondade efperava , que el- 
le promettia de não pedir a EIRey fatis- 
facão alguma , e que logo fe hia fazer 
preftes na fua náo ; e que os navios que lhe 
haviam de dar fe negociaíTem com muita 
brevidade , porque na preífa 7 e refolução 
coníiília o remédio daquella Cidade. Aca- 
bado o confelho , foi-fe Triítão Vaz da Vei- 
ga negociar , e o Capitão com os Verea- 
dores ordenaram os navios que havia de 
levar , aos quaes fe deram a maior preífa 
que puderam j e os que fe acharam capa- 
zes foram hum galeãozinho de hum merca- 
dor de Cóchim chamado João de Torres , 
e três galeotas velhas $ e cem poftiças co- 
mo fuftas , mas também do mefmo toque , 
e todas poífo dizer que fem velas , porque 
as que levavam fe podiam mais chamar re- 
des , e todas mal efquipadas de marinhei- 
ros 5 cujo lugar fuppríram os efcravos dos 
mercadores : munições tão poucas , que em 
cada fufta não havia mais que duas arra* 

bas 



Década IX. Cap. XVII. 127 

bas de pólvora de bombarda , e meia de 
eípingarda. Triftão Vaz tinha as luas mu- 
nições que trouxe de Goa, e omeímojoão 
de Torres , dono do galeão , fe oíFereceo pê- 
ra efta jornada , e alguns Fidalgos , e Ca- 
valleiros j e o primeiro , ê principal foi 
Fernão Peres de Andrade, Fidalgo velho, 
grande cavalleiro, que em todos os cercos 
que alli houve , e batalhas que os noíTos 
no mar tiveram com o Achem , e Jaós , 
moílrou o valor de fua peffoa ; Francifco 
de Lima o de Maluco, que eftava em Ma- 
laca pêra ir de íbccorro , também grande 
foldado , e homem muito nobre , e cuido 
que Fidalgo nos livros de ElRey , Fernão 
de Lemos, que tinha chegado da China ri- 
co , Manoel Henriques cafado na terra y 
homem muito nobre , João Troche , Pêro 
Dias de Leão , Nuno Rodrigues do Bailo , 
cafados na terra: Ayres Pinto também ca- 
fado nella , comprou huma galeota , e jun- 
tou parentes , e foldados com que fe quiz 
achar nefta jornada ; e com fe metter todo 
o cabedal da foldadefca que havia não fe 
puderam achar mais que trezentos folda- 
dos , mal armados , e peior pagos , porque 
lhe não deram hum quartel. O Capitão mor 
fe poz no mar com efta pobre Armada em 
comparação do poder do inimigo , e logo 
foi navegando pêra o rio Fermofo , que 

era, 



128 ÁSIA de Diogo de Couto 



era, como já diffe , doze léguas de Mala- 
ca , e ao outro dia chegou á vifta delle , e 
vio fahir de dentro mais de vinte navios 
ligeiros, e logo todo o mais corpo da Ar- 
mada , que hia demandar a noíla. Vendo 
Trilião Vaz cia Veiga que era já neceíTa- 
rio baralhar-fe com elles por lhe fer for- 
çado , entregou a fua náo a hum Manoel 
Ferreira , e elle embarcou na galeota de 
Ayres Pinto, porque videm os noflbs que 
elle fe não queria valer da Fortaleza da 
fua náo , eílando elles arriícados em navios 
tão pequenos , e mal petrechados , e che- 
gou toda a Armada a íi , e animou a to- 
dos , affirmando-lhes que os inimigos os 
queriam commetter com defconfiança que 
era final de fua perdição , pois fe queria 
valer do balravento , que trabalhava por 
lhe tomar ; porque quando elle fe queria 
lambem ajudar daquelia ventagem , linal 
jera que a confiança que trazia não era gran- 
de , que elle entendia naquellas moftras que 
lhe havia Deos nofíb Senhor de dar vito- 
ria contra aquelle inimigo; elogo mandou 
que fe chegaílem pêra a náo , e galeão, 
aíTim pêra os fegurar, como pêra fe valer 
de fua artilheria. O inimigo fe poz a bal- 
ravento , e veio defcahindo fobre a noíTa 
Armada , e travaram hum fermofo jogo de 
bombardadas , do qual elles receberam bem 

gran- 






Década IX. Cap. XVII, 129 

grande damno das noíTas náos , e apôs ifto 
íc inveítíram com grande determinação. 
Triítão Vaz da Veiga teve fempre o olho 
na Capitânia do Achem , que era huma 
muito fermofa galé com mais de duzentos 
homens ; e virando a ella , lhe deo huma 
muito fermofa furriada de arcabuzaria , e 
apôs ella a abordou , e travou com ella hu- 
ma afpera batalha , em que élle > e Ayres 
Pinto , e os mais fizeram tão altas cavalle- 
rias , que pelo rigor da efpada entraram 
dentro. Succedêram grandes cafos , ora de- 
clinando a huma parte , ora a outra ; e por 
fim permittio Deos que o General dos Mou- 
ros foífe derrubado de huma efpingardada^ 
com que a vitoria fe acabou de declarar 
pelos noífos , não lhe valendo fete furtas 
que trazia por poppa , que por varias ve- 
zes o cevaram de gente , as quaes foram 
também abrazadas dos íioílos. 

Os mais Capitães da noífa Armada ao 
mefmo tempo com o Capitão mor inveítí- 
ram cada hum com fua galé y e á que abor- 
dou Fernão de Lemos carregaram todos os 
inimigos a huma banda de tal feição -, que 
fe virou a galé , e no mar matou muitos ? 
e cativou outros : os mais que eítavam atra- 
cados , cada hum com fua galé , fizeram- taes 
façanhas em armas até que as renderam 
com morte da maior parte dos inimigos» 
Couto. T0m.KP.1L I A 



130 ÁSIA de Droco de Couto 

A mais Armada tanto que vio a galé do 
^feu General desbaratada, e perdida a ban- 
deira, e farol, largando tudo , fe foram aco- 
lhendo pêra a fua terra , não efcapando 
ainda elles da fúria da artillieria das nof- 
fas náos , que fez nelles grande eftrago. 
Vendo TriftaoVaz da Veiga a mercê, que 
Deos noífo Senhor lhe tinha feito , deo-lhe 
muitas graças , e deixou-fe ficar no lugar 
da vitoria três dias curando os feridos, que 
eram muitos , os mortos não paliaram de 
dez; depois fe recolheo a Malaca, aonde 
chegou com as galés por poppa , e as ban- 
deiras dos inimigos arraítando pela agua; 
e falvando a Cidade , defembarcou nella , e 
foi recebido com folemne triunfo, efoi le- 
vado á Igreja em procifsao > onde deram 
todos muitas graças ao alto Deos por ta- 
manhas mercês , e com iito ficou a Cidade 
defapreffada do trabalho , e começaram a 
vir embarcações de fora com mantimentos, 
e provimentos. 

Trilião Vaz da Veiga , que hia fazer pi- 
menta a Jundá pêra carregar pêra o Rei- 
no , partio-fe logo ; mas como Deos noífo 
Senhor o tinha guardado pêra remédio da- 
quella Fortaleza , ordenou que não achaífe 
pimenta , pelo que fe tornou logo pêra 
aquella Fortaleza de Malaca , onde achou 
D. Francilco Henriques muito mal, de que 

veio 



Década IX. Cap. XVlL 13 f 

veio a falecer em Novembro de fetenta e 
quatro , deixando em feu teftamento no-* 
meado por Capitão Trilião Vaz da Veiga 5 
conforme a hama Provisão que pêra iílo 
levava , o qual tomou poífe da Fortaleza s 
e começou a correr com fuás obrigações. 

CAPITULO XVIII. 

Entra o tempo do governo de António Mo* 

ni& Barreto 5 que he o da minha 

nona Década. 

A Primeira coufa , que efte Governador 
fez 3 foi ordenar hum a Armada pêra 
levar os navios dos mercadores , que varri 
aos rios do Canara carregar de arroz por 
eítar a Cidade falta delle, pêra a qual ele- 
geo D. António de Menezes Cantanhede 
com duas galés , huma em que elle hia , e 
outra António Lobo , e féis fuílas ., cujos 
Capitães eram os feguintes. D. Diogo da 
Silveira , filho de D. Simão da Silveira o 
Velho , Paulo António Telles , António Ca- 
bral , Francifco Fernandes, Pedro Rodri- 
gues Malavar , e Pêro Gomes. Efta Arma- 
da partio de Goa em vinte e dous de Ja- 
neiro de mil e quinhentos e fetenta e qua- 
tro , até Abril em que fe recolheo , e trou- 
xe a Goa duas cáfilas de mantimentos , com 
I ii que 



132 ÁSIA de Diogo de Couto 

que a Cidade ficou abaítada ; c porque não 
lhe fuecedeo mais , acabaremos aqui comella. 
E porque o Governador lábia que Fer- 
não Telles , que andava no Norte , levava 
Í»or regimento que reprezafíe as náos do 
dalxá que vieíTem de Meca , aífentou em 
confelho geral que fe não bulliíTe nellas, 
antes fe as encontrafíe , lhes fizeílem cum- 
primentos , e as favoreceííe em tudo , e 
que ajuntafle as cáfilas de Cambaya , e de 
todas as Fortalezas , e fe recolheíTe com 
ellas 5 porque era neceíTario virem depreíTa 
pelas muitas fazendas , que haviam de tra- 
zer pêra a carga das náos do Reyno , e 
muitos mantimentos , que haviam de vir 
naquellas cáfilas pêra a Cidade de Goa, 
o que Fernão Telles fez , e trouxe pêra a 
Cidade de Goa tudo o que levava por re- 
gimento ; mas não encontrou as náos do 
Idalxá, e no fim de Dezembro chegou com 
toda aquella cáfila a Goa. 

Aos quatorze do mefmo mez de De- 
zembro fe ajuntou o Governador António 
Moniz Barreto com todos os Capitães, Pre- 
lados , e Officiaes da Fazenda em confe- 
Jho, no qual aíTiftio D. Leoniz Pereira, Go- 
vernador de Malaca , e D, Francifco de 
Soufa, Capitão mor das náos do Reyno, e 
o Arcebifpo D. Gafpar, e lhes propoz em 
como o Idalxá tinha retheudos D. Henri- 
que _ 



Década IX. Cap. XVIII. 133 

que de Menezes 5 e todos os Portuguezes y 
que andavam em fiia Corte com fuás fa- 
zendas j e que não bailando iílo , o fizera 
também a Chriftovão do Couto, que oVi- 
fo-Rey D. António tinha mandado , que 
pedia a todos votaííem livremente o que 
entendeíFem naquelle cafo , porque era de 
muita confideração; e debatido o negocio, 
foram todos de parecer, que fe não devia 
de dar por achado daquellas coufas , antes 
havia de diíhmular com. ellas , porque to- 
mando-fe diílo , ficava obrigado a fatisfazer- 
fe daquella afFronta ; e que o bom feria 
que o Secretario Rodrigo Annes Lucas ef- 
creveíTe como de íi huma carta a Chrifto- 
vao do Couto, em que lhe déífe conta de 
como António Moniz Barreto governava a 
índia, equeElRey mandara ir pêra oRey- 
no ao Viíb-Rey D. António de Noronha ; 
e que aífim como houvera aquella mudan- 
ça no governo , aífim a procuraífe elle em 
leu negocio com os Capitães , com quem 
folicitalíe fua caufa , e que era neceífario 
faber do Governador o que lhe mandava , 
e que trabalhaíTe o mais que pudeífe por 
vir pêra Goa , porque não fabia fe o que 
fe trataíle dalli em diante fatisfaria ao Go- 
vernador. Aílentado ifto , efcreveo logo o 
Secretario a Chriftovão do Couto a carta 
do theor feguinte, 

CA^ 



134 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XIX. 

Da carta do Secretario do EJlado a Chri- 

jloião do Couto 5 que eftava retheudo 

na Corte do Idalxd. 

» X) Elas mudanças que Sua Alteza hou- 
» X ve por bem de fazer , e prover nas 
» náos , que ora chegaram ao governo def- 
y> te Eftado , me pareceo neceffario , como 
» Official que fou , e voífò amigo , avifar- 
)> vos do que pafla , pêra que aífím como 
» nifto houve mudança nova , tomeis tam- 
» bem em voflbs negócios nova traça , fe 
» vos parecer. O Vifo-Rey , que foi D. An- 
» tonio de Noronha , houve EIRey noflb 
» Senhor por bem , que não governafle mais , 
> o que feria pelas informações , que lhe 
» iriam na Armada do anno paíTado , e 
» mandou que governafle António Moniz 
)> Barreto , ao qual pareceo não faltavam 
>) as qualidades 3 que são necelíarias a quem 
y> tiver eíle cargo , porque tem experien- 
» cia de muitos annos deite governo , tem 
y> pefíba , tem difpofiçáo , e valor pêra com 
» íua preíença aííiftir nos negócios da guer- 
•» ra , e pêra as coufas que cumprem a elS 
» la refolução , valentia 9 confelho , e ex- 
» periencia : tem verdade , e bondade pe- 
}) ra çonferyar a paz com os Reys com 

» quem 



Década IX. Cap. XIX. 135: 

» quem elle a aíTentar , e lha merecerem 5 
)> e determinação pêra lhes fazer guerra, 
» quando lhe for neceííario : não tem cu- 
» bica do alheio , pêra que por efía caufa 
» faça defordens y e tem cuidado do pro- 
» prio deElRey noífo Senhor, tanto , quan- 
» to cumprir. Até agora efte Fidalgo nem 
» tomou , nem mandou tomar 5 nem foi 
» participante por communicaçao que lhe" 
» défle D. António de Noronha da toma- 
)) da das náos dos Capitães do Idalxá , nem 
» fica lugar pêra fe lhe poder pedir conta 
» diíTo , fenao com muita razão , e modos 
» de amizade por outras muitas vias; e re- 
» prefentadas eítas razões , e outras que pe- 
» ra voílo negocio vos parecerem neceffa- 
)> rias ao Idalxá 5 e feus Capitães com quem 
)> correis , parecc-me que devem procurar 
» logo voffa vinda pera.Gca, pêra poder- 
» des dar razão ao Governador do que lá 
» pafibu i pêra lhe a elle ficar tempo de 
)> poder dar conta neftas náos que vam a 
» ÈlRey noífo Senhor , do eftado em que 
» ficam as couías delle , e como eftá com 
» os Vizinhos que lhe elle. tanto encommen- 
» da conferve em fua amizade ? porque vos 
» affirmo que lhe convém dar a Sua Aire- 
» za conta de tudo , pois elle moftra pela 
» execução que fez que terá cliíferente or- 
» dem no governo, do que tiveram osVi- 
j> fo-Reys paliados, » O 



136 ÁSIA de Diogo de Couto 

» O não vos receber o Idalxá com o 
y> preíentc que levaftes , iílb não afFronta o 
» Governador , pois não foi o author dei- 
)) le , nem lho enviou : e ainda digo por 
)> parte do Vifo-Rey D. António que tão 
y> pouco não havia razão pêra deixar de 
y> lho aceitar , pois iííb não foi enviado co- 
)) mo prefente , nem foi mais que fatisfa- 
» ção ao Idalxá com duas efpadas , e hum 
)) cavallo que a eíla Cidade mandava com- 
» prar , e por eferever fobre iílb cartas ao 
» próprio Vifo-Rey , pêra que lhe foíTe 
}) com brevidade , e favoreceíTe a peflba que 
:» a iíío enviava , em refpofta do que pêra 
y> mais fatisfaeão lhe enviou o cavallo , e 
» efpadas que vós levaftes > e ejle defeja- 
)) vâ , a que devia moítrar-fe agradecido > 
» não pelo preço , fenão pela vontade com 
y> que o fervia naquellas coufas. 

» Não tenho niílo mais que vos lem- 
» brar , fenão que procureis de vos partir 
» pêra efta Cidade, tanto que lá fe fouber 
>) por eíla , ou pelas novas que correm que 
» já não governa o Vifo-Rey D. António 
» de Noronha , e que quem eftá no gover- 
» no , não tem culpa no defgofto que fuo 
» cedeo na tomada das náos 5 ou depofito 
)) que fe queria fazer nellas , até fe ver o 
y> que o Vifc-Rey ordenava fe fizefle dei- 
-las ^ e o que fe fez não foi coufa nova > 

i> pois 



Década IX. Cap. XIX. 137 

» pois fempre foi coftume darem as náos 
» que navegam razão de feus cartazes i e 
» fe trazem couías defezas > e não pôrem- 
» fe logo em defensão , e reíiílencia de ar- 
» mas 5 como fizeram os Capitães delias 
)) com a noíía Armada ; e o que fuccedeo 
» aíTim ás náos , como ao noíTo Capitão 
» mor, fello a jurifdicção da tormenta , e 
» acontecimentos vários do mar, que cof- 
)) tuma fazer feu curfo , e não o que os ho- 
» m.ens pertencem. De Goa , quatorze de 
)> Dezembro de mil e quinhentos e feten- 
y> ta e três. » 

Recolhido Fernão Telles da Coita do 
Norte , onde andava no fim de Dezembro 
de fetenta e três com huma grande cáfila, 
e huma galeota de Malavares que tomou, 
e hum Embaixador que o Grão Mogor man- 
dava ao Vifo-Rey D. António de Noro- 
nha , que veio grandemente acompanhado , 
homem de muita peífoa, e gravidade, que 
por fer o primeiro que paffou á índia o 
recebeo o Governador com grande magef- 
tade , e apparato , e foi em Goa mui ban- 
queteado de alguns Fidalgos velhos, e ri- 
cos , principalmente de D. Leoniz Pereira > 
e de Ayres Telles de Menezes , nos quaes 
banquetes foi o Embaixador fervido com 
todas as baixellas que havia em Goa , e 
com todos os regalos que a índia podia 

dar 



138 ÁSIA de Diogo de Couto 

dar de íi , e me affirmáram que em cada 
jantar fe gaitaram mil cruzados : logo o 
Governador António Moniz Barreto o tor- 
nou a dcípcdir , e a Fernão Telles por Ca- 
pitão mor da coita Malavar com quatro ga- 
lés , e oito , ou dez fuítas , que partio de 
Goa meiado Janeiro de íetenta e quatro. 
Os Capitães das galés, a fora elle, eram D. 
João da Gama , Fernão Pereira de Miran- 
da 3 e António Cabral ; e das fuítas D. Luiz 
de Menezes , Fernão de Albuquerque , Gon- 
falo Rodrigues Caldeira , Diogo Taveira , 
Gonfalo de Souía , Pedro de Anhaya , Ef- 
tevão de Pina, Roque de Brito, feu irmão, 
e outros a que não achei os nomes. 

No fim deite mez foi D.Diogo de Me- 
nezes entrar na Capitania de Ormuz , que 
lhe EIRey tinha mandado , e lhe deo o Go- 
vernador António Moniz a galeota S. Vi- 
cente pêra ir nella. 

Logo na entrada de Fevereiro defpe- 
dio o Governador por Capitão mor da coi- 
ta do Norte a D. António de Menezes com 
duas galés, elle em huma, e em outra An- 
tónio Lobo Falcão , e oito fuítas , de que 
foram por Capitães Paulo António Telles, 
D. Duarte Deça , D. Diogo da Silveira , 
Francifco Pereira Efcorcio , Sebaítião Gon- 
falves de Alvellos , e outros. Neíta compa- 
nhia foi Ayres Falcão entrar na Capitania 

de 



Década IX. Cap. XIX. 139 

de Baçaim, e António Ferrão por Veador 
da fazenda das Fortalezas do Norte. 

Deixemos agora os íucceííbs deílas Ar- 
madas , e continuemos com as coufas do 
Idalxá, e catives que eftavam em fua Cor- 
te. Com a carta que o Secretario Rodri- 
go Annes Lucas efereveo a Chriítovao do 
Couto , houve algum abalo nos Capitães 
do Idalxá , a quem eíle deo cópia da car- 
ta , que parece communicáram tudo com o 
Idalxá , o qual fabendo da mudança do go- 
verno , e que nelle eítava António Moniz 
Barreto , defpedio logo hum Embaixador a 
dar-lhe os parabéns de fua íuccefsao , o 
qual em breves dias chegou a Goa na en- 
trada de Fevereiro , e lhe fez o Governa- 
dor hum grande recebimento , e o mandou 
agazalhar, e prover muito bem, e o Em- 
baixador lhe deo huma carta do Idalxá, e 
outra de Fratel Maluco feu Regedor , e 
Governador de feus Reynos , que ambas 
eram de muita fubftancia , e nella lhe da- 
vam os parabéns de feu governo , e lhe 
pediam que mandalíe fatisf azer a perda das 
duas náos , que lhe D. Henrique de Mene- 
zes tomara por mandado do'Vifo-Rey D. 
António de Noronha , as quaes o Gover- 
nador mandou ler em confelho geral que 
pêra iífo fe ajuntou , e nelle fe aífentou 
que pêra fe dar fatisfação áquelle Rey fe 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

fizeíTem algumas diligencias fobre aquelle 
negocio a vifta do Embaixador , as quaes 
eram defpedir hum catúr ligeiro aCóchim, 
com provisões rigorofas, pêra que fe ain- 
da eitiveíTe o Vifo-Rey D. António por 
embarcar 3 lhe tomafie o Capitão da Cida- 
de a homenagem de fe não ir até eftar a 
direito com oldalxá; eque fendo partido, 
lhe fequeftraíTem toda a fazenda que fe lhe 
achaíle; e a mefma diligencia mandou fa- 
zer publicamente em Goa , deitando gran- 
des pregões com grandes penas , a quem 
foubeífe de alguma fazenda lua , fe a não 
defcubriile dentro em três dias , o que tu- 
do foi á vifta do Embaixador, o qual pe- 
dio ao Governador alguns cartazes pêra 
fuás náos navegarem pêra Ormuz , e ou- 
tras partes ; e que os paífos da Ilha de 
Goa foíTem francos pêra todos os que 
quizeííem paíTar , e tornar por elles , pa- 
gando os direitos de fuás fazendas , e 
outras coufas ; com que o Embaixador fe 
moftrou fatisfeito ; e porque era neceífa- 
rio pêra a liberdade de D. Henrique de 
Menezes , e de todos os mais que lá efta- 
vam retheudos , defpedio o Embaixador com 
brevidade , fazendo-lhe muitas honras , e 
dando-lhe prefentes pêra o Idalxá , e Fra- 
tel Maluco , e lhe efcreveo cartas em ref- 
poíla das fuás , e a de EIRey era defte 

theor a 



Década IX. Cap. XIX. 141 

theor, deixando os títulos, e cortezias do 
intróito. 

» A coufa que mais me encommenda, 
» e manda EIRey meu Senhor em fuás car- 
» tas he o ferviço de Vofla Alteza , e que 
)> pêra elle lhe oíFerecia eíle Eftado todas 
» as vezes que lhe cumprir : e que mo não 
» mandara , fatisfizera - eu com a mefma 
» obrigação, pois tenho de longe conheci- 
» mento da fua vontade , que he não dar 
» nunca occaíiao aos Reys que tem por 
» amigos ; e quando elles a pertendam , e 
» bufquem , ou vam contra as pazes por 
» elle juradas , ficará EIRey meu Senhor 
» defculpado com Deos , e com os homens. 
» Com as coufas do ferviço de Voffa Al- 
» teza tenlio corrido em tudo como pude, 
» e nada me ficou por fazer depois que 
)) fou Governador : e he tanto iíto aííim , 
» que em chegando o Embaixador de Vof- 
» fa Alteza , logo mandei fazer preítes hum 
» catúr ligeiro , pêra que com toda a bre- 
» vidade foífe a Cóchim deter o Vifo-Rey 
» D. António , ou que deixaíle fiança a tu- 
» do o que contra elle fe julgaífe. Efcre- 
» vi a EIRey meu Senhor febre efte par- 
» ticular , e lhe enviei a carta de Fratel 
» Maluco ; e íe Voíla Alteza quiz , e me 
» mandou que fobre elle negocio efcrevef- 
» f e a Portugal , e dçffe particular conta 

» de 



142 ÁSIA de Diogo de Coitto 

» de tudo , eu o fiz por VoíTa Alteia af~ 
» fim mo mandar. E que razão poderei eu 
» dar a EIRey meu Senhor , que nefte car- 
» go me poz 5 de me determinar nefte cafo 
» fem refpofta , e ordem íua , tendo-lhe cí- 
» crito na forma , que VoíTa Alteza me 
» mandou? Senifto ha culpa (o que na ver- 
» dade me não pafrece) VoíTa Alteza a tem , 
» pois quiz a determinação mais cumpri- 
)> da do que eu a pudera dar ; mas tudo 
» irá a melhor. Mandei apregoar que to- 
» da a peflba , que foubefle da fazenda , ou 
y> dinheiro do Vifo-Rey D. António , o vieí- 
)> fe manifeftar dentro em três dias , e por 
)> ferviço de VoíTa Alteza faço da minha 
» parte todas as juftifícaçóes poíliveis pe- 
)> ra acertar em feu ferviço , e não coníin- 
)) to ficar-me nenhuma por fazer. Ao Em- 
)> baixador concedi os cartazes que mepe- 
y> dio , e os pajTos da Ilha francos pêra o 
)> que quizeíTem ; e fendo todos os Fidal- 
» gos de meu confelho de Eílado de pa- 
» recer , que já que VoíTa Alteza retinha 
» em prizao , e não mandava vir os Portu- 
» guezes que lá eftavam , mandaíTe eu ef- 
» perar as faas náos de Ormuz y e Benga- 
y> la , e as retiveiTe também , e eu fó fui o 
» que contra tantos pareceres prevaleci. O 
» Embaixador traz por efcrito grandes po- 
» deres , e não ufa delles , deve de fer em 

, » fe- 



Década IX. Cap. XIX. 143 

» Fecreto affim mandado de VoíTa Alteza \ 
)) pelo que lhe peço de mercê mande fol- 
» tar os prezos com que lhe ficarei em 
» obrigação de fempre o fervir j porque , 
» Senhor, quem pede juítiça não deveuíar 
» de força , que he quebrar as leis , que 
» Voíla Alteza tem obrigação de fazer a 
» todos guardar j e fazendo-me VoíTa Al- 
» teza efía mercê, e juntamente mandar a 
» feus Tanadares deites portos , que não 
» recolham nelles inimigos deite Eítado, 
» pois he contra o contrato das pazes ce- 
» lebradas , ficarei cativo 9 e criado de Vof- 
)) fa Alteza , e obrigado a não fahir nunca 
» de feu ferviço , e mandar caítigar rija- 
)) mente a quem os recolher , como que- 
»brantador do bem público, e da paz ce- 
» lebrada. NoíTo Senhor guarde oRealEí- 
)) tado de Voíla Alteza , e a vida accreC- 
)> cente por largos annos. Goa dezefeis de 
» Fevereiro de mil e quinhentos e letenta 
» e quatro. » 

E pêra que não foíTem tudo rogos , tam- 
bém tratou o Governador de entrar com 
alguns ameaços , eítes foram mandar paffar 
Provisões , pêra que os Portuguezes não le- 
vaílem cavallos , nem outras fazendas ao 
Balagate , porque com iffo obrigaria aos 
mercadores daquelle í^eyno a virem com- 
prar eítas couías a Goa pela neceílidade 



144 ÁSIA de Díogo de Couto 

que delias tinham ; e com iífo não ío Se- 
guravam os vaíTallcN de EIRey nas con- 
fciencias pelos eícrupulos que ficavam de 
levarem cavallos , e fazendas aos Mouros , 
mas ainda ficavam engroílando os rendi- 
mentos das Alfandegas , porque pêra a com- 
pra delias couías haviam de trazer muitas 
fazendas a Goa , de que não fó pagariam 
direitos da entrada , mas também das que 
levaíTem á fahida : e que além deites pro- 
veitos feguravam aos vaíTalíos de EIRey 
de Portugal as fazendas , que levavam ao 
Balagate , e muitos cavallos que cada vez 
que os Mouros quizeíTem , podiam lançar 
mão de tudo , como já algumas vezes fi- 
zeram. Eftas Provisões mandou o Governa- 
dor apregoar pela Cidade , pêra que os 
Mouros do Balagate , que nella andavam y 
avifaílem de tudo ao Idalxá ? com o que 
poderia fer o movefiem a foltar os prezos 

f>cla neceffidade que tinham , de que lhe 
evaiTem aquelias coufas que lhe defendiam. 
Na entrada de Fevereiro deite anno de 
mil e quinhentos e fe tenta e quatro che- 
garam as náos de Malaca , nas quaes es- 
creveram D. Francifco Henriques Capitão 
daquelia Fortaleza, e Triftão Vaz da Vei- 
ga, que nella eftava, por não poder paliar 
a Jundá a carregar de pimenta conforme 
o Seu contrato , nas quaes lhe reprefentá- 

rain. 



Década IX. Cap. XIX. 14^ 

ram o miferavel eílado em que aquella For- 
taleza eílava, e de como o Achem com a 
Rainha de Japará eftavam conjurados em 
feu damno , e que em ambos aquelles Rey- 
nos fe faziam grandes preparações , e fe lan- 
çavam ao mar groffas Armadas , que aquel- 
la Fortaleza ficava com pouca gente , e 
muito falta de munições , e mantimentos, 
que lhe pediam a foccorreíTem , e fenao 
que fe perderia tudo ; e o mefmo efcrevê- 
ram a D. Leoniz Pereira Capitão de Ma- 
laca , o qual fe foi ver com o Governador , 
e lhe moítrou as cartas, e lhe diíle que el- 
le eílava preíles pêra fe partir pêra Mala- 
ca , dando-lhe elle Governador o que El- 
Rey lhe mandava; efobre iílofez fuás lem- 
branças em boa forma diante do Secreta- 
rio do Eftado , Veador da Fazenda , e ou- 
tros Officiaes. O Governador António Mol- 
niz Barreto lhe refpondeo que bem via o 
Eílado como eílava falto de tudo pelas guer- 
ras pairadas , fem Armadas , nem gente pê- 
ra lhe poder dar o que EIRey mandava , 
mas que fe fizeífe preíles, que elle lhe da- 
ria tudo o que pudeífe fer , e que ajunta- 
ria Confelho geral, e o que nelle fe aífen- 
taífe iíío fe faria , não vendo eíle Gover- 
nador que cahia na trampa que armou ao 
pobre Vifo-Rey D. António de Noronha , 
por onde o fez remover do Eílado com 
Couto. Tom.F.P.iL K tan- 



146 ÁSIA de Diogo de Couto 

tanta affronta , tendo elle naquelle tempo 
menos tudo , porque as grandes guerras 

Í3aíTadas, e as muitas defpezas que com el- 
as fe fizeram , não em huma , mas em to- 
das as Fortalezas da índia , contra as quaes 
fe conjuraram todos osReys delia , era bas- 
tante razão que tinha poríi pêra não aviar 
ao Governador António Moniz Barreto , 
como ElRey mandava , porque nem ame- 
tade , nem a quarta parte fe lhe podia dar 
naquelle tempo : e affim como Deos he juf- 
to Juiz , affim permittio que fe viífe logo 
a innocencia do Vifo-Rey D. António y e 
a paixão , e ódio dos que o aíFrontáram , 
de o fazerem tirar do governo ; e pode 
bem fer que fe não fe mettêra de permeio 
^a defaventurada perda de ElRey D, Sebaf- 
tião , que pagara eíte Governador ao Vi- 
fo-Rey D. António de Noronha o mal que 
lhe fez , pois agora tinha mais obrigação 
de enviar a D. Leoniz Pereira , pelo reca- 
do que fobreveio do aperto que fe efpera- 
va em Malaca; mas deixemos eítascoufas > 
e vamos com a noíTa hiftoria. 

Logo aos quatro de Março deite anno 
tornou o Governador a ajuntar o Confelho 
geral , no qual propoz as neceffidades , e 
trabalhos em que eílava a Fortaleza de Ma- 
laca, e o pouco commodo que havia pêra 
fe poder foccorrer j mas que todavia faria 

o 



Década IX. Cap. XIX. 147 

o que fe aífentaífe que era necelTario fazer- 
fe iobre aquelle negocio \ e debatida en- 
tre todos a propoíta , foram os mais de pa- 
recer que fe devia aviar o Governador de 
Malaca , a cuja conta todas aquellas For- 
talezas eftavam , e aquellas partes , e de£ 
obrigar-fe delia o Governador António Mo- 
niz Barreto ; e que fe não pudeíTe ir do 
modo que EIRey mandava , foífe como o 
Eítado pudeíTe pelas impoffibilidades pre- 
lentes , e que eíla refolução fe fizeífe logo 
a faber ao Governador D, Leoniz Pereira 
pêra fe determinar , ao que logo o Secre- 
tario o foi bufcar , por fe elle não querer 
achar naquelles confelhos ; e lhe deo con- 
ta do que fe paífára , e que viífe como que- 
ria ir ^ porque o Governador eítava preltes 
pêra o aviar : ao que D. Leoniz lhe refpon- 
deOj que mais preftes eítava elle pêra irfer- 
vir a EIRey da maneira que elle manda- 
va ; mas porque o Governador , e os do 
Confelho não cuidaíTem que elle feforrova 
dos trabalhos , que dando-íhe António Mo- 
niz Barreto huma Armada , como mandava 
a qualquer Rey do Malavar , de duas ga- 
lés , e íeis fuítas , que elle fe contentaria pê- 
ra ir fervir EIRey naquella empreza. 

Com efta refpofta foi o Secretario ao 
Governador António Moniz , que achou ain- 
da com todos os do Confelho juntos ; e 
K ii dan- 



148 ÁSIA de Diogo de Couto 

dando publicamente relação do que palia- 
va , tornaram a debater íobre o cafo , e af- 
fentáram que por então não poderia o Ef- 
tado dar mais de íi que dous navios de al- 
to bordo ; e que fe das Armadas que anr 
davam fora , pudeflem ir algumas fuítas , que 
fe aviaíTem pêra iíío , e que pêra Setem- 
bro poderia o Governador dar a D. Leo- 
niz Pereira Armada com que fe pudeíTe ir. 
AíTentado ifto , tratou logo o Governador 
das coufas que havia de mandar a Mala- 
ca , e Maluco ; e em quanto fe fazia iíto 
preítes , defpedio a Henrique Moniz Barre- 
to pêra a coita do Canará com huma Ar- 
mada pêra ir dar guarda ás cáfilas que ha- 
viam de trazer os mantimentos pêra as Ar- 
madas , o qual partio de Goa em oito de 
Março com duas galés , elle em huma , e 
Gomes Eannes de Freitas em outra , e fe- 
te fuítas mais , de que foram por Capitães 
Manoel Furtado de Mendoça , João Ro- 
drigues Deça , Matinas Pereira de Sampayo, 
António de Monroy , João de Mello de 
Sampayo , Pedro Rodrigues , e Pedro Soa- 
res Malavares. A eíta Armada não fucce- 
deo coufa alguma mais que tornar a Goa 
em vinte e dous de Abril com muitos man- 
timentos. 

Partida eíta Armada , defpedio logo o 
Governador Miguel de Abreu de Lima , que 

ti- 



Década IX. Cap. XIX. 149 

tinha vindo do Reyno pêra ir por Embai- 
xador á Períia , o qual partio em vinte de 
Março nas náos que foram pêra Ormuz ; 
e porque a caufa deita embaixada , e as 
coufas que íuccedêram a eíte Embaixador, 
fe hão de contar em outro lugar , não tra- 
tarei aqui delias. 

Em vinte e fete de Abril deite anno 
partio Belchior Botelho a fazer as viagens 
de Maluco no galeão Santa Catharina mui- 
to cheio de mantimentos , e munições : foi 
mais D. António da Coita em huma galé 
pêra ir de foccorro a Malaca , e o Licen- 
ciado Martim Ferreira por Veador da Fa- 
zenda pêra Malaca no galeão S. Diniz , e 
com Belchior Botelho foi embarcado Nu- 
no Pereira de Lacerda pêra ir entrar na Ca- 
pitania de Ternate , de que eítaya provi- 
do por Sua Mageítade. 

Falta-nos continuarmos com Fernão Tel- 
les, que anda no Malavar , o qual andou to- 
do o reíto do verão correndo aquella cof- 
ta com grandes intelligencias fobre os pa- 
ráos ; e fendo avifado que no rio da Pedra 
fe recolheram finco , que vieram do Norte 
carregados de prezas , foi fobre aquelle rio, 
e o mandou entrar pelos navios de remo , 
os quaes foram ainda tanto a tempo que 
os tomaram ainda dentro no rio com todo 
o feu recheio ; e endireitando com elles , os 

in- 



i^o ÁSIA de Diogo de Couto 

inveitíram muito determinadamente; epok 
to que entre todos houve huma muito af- 
pera briga , fendo os contrários favoreci- 
dos da gente da terra , e tanto apertaram 
osnoífos comelles que houveram por bom 
partido lançarem-fe a nado a terra , e dei- 
xarem os navios nas mãos dos noílbs com 
todo o recheio, que foram tirados atoa pê- 
ra fora , e cada hum tomou o que pode. 
Não efpecifiço aqui os que primeiro abal- 
roaram, nem os que foram neíte negocio, 
porque todos os Capitães das fuílas foram 
nelle , e inveílíram os jnimigos juntamen- 
te. Fernão Telles deo rfiui tas voltas áquel- 
la coita , e já a tempo de fe recolher foi 
dar com huma náo do Çamori que vinha 
de Meca ; e mandando-a commetter pelos 
navios pequenos pela não querer metter no 
fundo com a artilheria das galés , foi de- 
pois de grande referta entrada , e a maior 
parte dos Mouros mettidos á efpada , e al- 
guns cativos , e com eílas prezas fe reco-* 
lheo a Goa no fim de Abril, 



CA- 



Década IX, Cap. XX. 15T 

CAPITULO XX. 

Francifco Barreto eleito Governador pêra 

a Conquifta das Minas do Reyno de 

Manornotapa. 

Tinham tantas vezes perfuadido a El- 
Rey D. Sebaftiao a que mandaíTe con- 
quiftar as riquiiíímas Minas do Reyno de 
Manomotapa , que fe moveo a fazello , e 
pêra efta jornada , e conquifta efcolheoEI- 
Rey Francifco Barreto , que tinha fido Go- 
vernador da índia , e que então era Gene- 
ral das galés do Reyno , e tinha vindo da- 
quella fermofa jornada do Pinhão , donde 
foi com huma grafia Armada por manda- 
do de EIRey D. Sebaftiao pêra fe achar na- 
quelle feito com D. Garcia de Toledo , na 
qual os Portuguezes ganharam o nome que 
lempre tiveram: tratou-fe do titulo, e ju- 
rifdicção que fe lhe daria , a qual foi de Ca- 
pitão geral , e Conquiftador dos Reynos 5 
que jazem defdo Cabo das Correntes até 
o de Guardafum , e que lhe dariam três 
náos com mil homens , e cem mil cruzados 
em dinheiro , em quanto as Minas não pu- 
deíTem fupprir eftas defpezas , e munições , 
e mantimentos pêra a Armada; e que to- 
dos os annos , em quanto durafle a conqui£ 
ta, fe lhe dariam os cem mil cruzados aífi- 

ma 



152 ÁSIA de Diogo de Couto 

ma com auinhentos homens ; e que fe por 
algum caio foíTe ter á índia , ou fe encon- 
traflc no mar com o Vifo-Rey , ou Gover- 
nador , levariam ambos fuás bandeiras , e 
faroes , e que governariam nos fuccelíos da 
guerra , em que fe achaíTem ambos de dous 
em conformidade , e que por feus manda- 
dos fariam os Officiaes da fazenda da ín- 
dia as defpezas de fua Armada nos provi- 
mentos delia 5 com outras mercês , e favo- 
res que deixo , porque não fazem ao cafo 
de nofía hiftoria. 

Pêra eíta jornada mandou EIRey que 
fe preparaífem as três náos , e fe pagaífem 
mil homens de armas ; e pela novidade del- 
ia , e fer a defcubrir Minas de ouro ; aba- 
lou toda Lisboa , e acudiram muitos Fidal- 
gos pêra fe acharem nella , e tanta gente 
líouve que fobejava pêra outra Armada, Pê- 
ra ir Francifco Barreto fe negociou a náo 
Rainha, que andava na carreira da índia, 
pêra a qual fe pagaram feiscentos foldados , 
em que entravam mais de trezentos Fidal- 
gos , e mais de duzentos criados de EI- 
Rey 5 e toda a mais gente mui limpa , e 
nobre : as outras duas náos eram de duzen- 
tas e íincoenta toneladas , e em cada hu- 
ma fe embarcaram duzentos homens de ar- 
mas , afora gente do mar, das quaes eram 
Capitães Vafco Fernandes Homem , e Lou- 

rèu- 



Década IX. Cap. XX. 153 

renço Carvalho. Levava mais Francifco Bar- 
reto neíia Armada cem homens Africanos , 
{porque determinava mandar buícar caval- 
os á índia , e levallos no feu exercito pê- 
ra maior fortaleza. Em fim y preparada eíta 
Armada , fe fez Francifco Barreto á vela , 
com as fuás náos juntas no fim de Abril 
do anno de 1569. e feguindo fua viagem , 
logo fe apartaram ; e Lourenço Carvalho 
por não poder dobrar os abrolhos arribou 
ao Reyno , Francifco Barreto foi invernar 
ao Brazil , fó Vafco Fernandes Homem fe 
negociaram os feus Officiaes melhor , e tra- 
balharam tanto que chegaram a Moçambi- 
que em Agoílo , eftando todas as náos da 
Armada do Vifo-Rey D. Antão de Noro- 
nha de arribada , e elle morto , como dif* 
femos no titulo de fua Armada , e eílava 
na Fortaleza por Capitão Pedro Barreto , 
que tanto que foube que Francifco Barre- 
to vinha com aquelles poderes pêra profe- 
guir na conquiíla ? houve-fe por aggravado 
de EIRey , e aíFrontado de Francifco Bar- 
reto 5 tanto , que largando hum anno , que 
lhe faltava por acabar naquella Fortaleza , 
logo fe embarcou pêra o Reyno 5 como foi 
tempo na náo Chagas, e faleceo no cami- 
nho antes de chegar ao Reyno , na qual 
companhia eu também fui requerer os fer- 
ricos que tinha feito na índia. 

Fran- 



1^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Francifco Barreto , que eítava invernan- 
do noBrazil na Bahia de Todos os Santos, 
tanto que foi tempo partio-fe pêra Moçam- 
bique , aonde chegou afalvamento com to- 
da a gente sã , e muito bem difpoíta ; e 
tomando informação da terra , que achou 
falta de mantimentos, vendo que pela fal- 
ta da gentQ da outra náo , de quem não fa- 
biam novas , não podia ir profeguir na con- 
quiíla , e que havia de eftar alli alguns me- 
zes, até virem as náos doReyno, em que 
efperava mais foccorro , pareceo-lhe bem 
dar huma volta até a coita de Melinde , af- 
íirn pêra caíligar o Rey de Patê , que efta- 
va levantado , como pêra arrecadar as pá- 
reas , que deviam de alguns annos todos 
os mais Reys , e pêra trazer de lá muitos 
mantimentos pêra a jornada que efperava 
fazer, e ajuntou todos os pangaios ? e em- 
barcações que pode , em que fe embarcou 
com toda a gente , deixando por Capitão 
na Fortaleza a Lourenço Godinho , Alcai- 
de mor, e foi furgir fobre o porto de Pa- 
tê , onde aquelle Rey veio logo á obediên- 
cia, e lhe pagou as páreas que devia, co- 
mo pagaram os mais Reys , e todos os Se- 
nhores daquella coita , com que largamen- 
te fez as defpezas de fua Armada , e trou- 
xe muitas embarcações carregadas de man- 
timentos , que lhe foram muito bons por 

ha- 



Década IX. Cap. XX. i^ 

haver em Moçambique poucos , e effes mui- 
to caros; e dos Mouros daquella cofta , que 
são muito futís , e penetrao todo o fertao 
da Cafraria, fe informou de muitas coufas 
pêra fua entrada poraquellas terras dentro; 
e de huns do Reyno de Atoude foube que 
de Quiloa , ou do Atoude por quinze , ou 
vinte léguas de caminho pelo fertao den- 
tro poderiam chegar até o outro mar de 
Angola , e que foram algumas vezes á fua 
feira , onde vinham os mercadores daquel- 
loutro mar contratar com elles em fuás fa- 
zendas ; e difto achei na feitoria de Mo- 
çambique regiftada huma carta , que Fran- 
cifco Barreto efcreveo a EIRey íbbre efte 
negocio , aflim fecca , fem dizer fe eftes Mou- 
ros hiam por mar, ou por terra, nem lhe 
pedir o roteiro daquella viagem , que foi 
grande defcuido ; e com eíta carta achei 
também regiftada a refpofta de EIRey , na 
qual lhe eítranhava muito deixar a princi- 
pal jornada , a que fora enviado que era a 
das Minas , e ir-fe á cofta de Melinde ; mas 
que também lhe agradecia algumas coufas 
que lá fizera , as quaes cartas eu trasladei 
por curiofidade, fendo bem moço naquelle 
tempo. Francifco Barreto , depois que fez 
na cofta de Melinde o que diflemos , tor- 
nou-fe pêra Moçambique, aonde achou as 
duas náos > que o Vifo-Rey D, Luiz de Ataí- 
de 



i$6 ÁSIA de Diogo de Couto 

de lhe tinha mandado com roupas , e mu-» 
nições , mantimentos , e cavallos > e por 
aquellas náos teve novas da conjuração de 
todos os Reys do Oriente (como contámos) 
e de como o Nizamoxá ficava com hum 
groflb poder fobre Chaul , que por nenhum 
cafo poderia deixar de tomar aquella Ci- 
dade por eílar toda aberta , e fem defen- 
são : o que fabido por Francifco Barreto , 
propoz em hum Confelho geral , que mais 
fervi ço de EIRey feria acudir a Chaul , que 
ir ao negocio das Minas , que a todo o tem- 
po fe poderia fazer , dando muitas razões 
que todos approváram , e affim fe começou 
a preparar pêra aquella jornada , pêra a 
qual tinha as fuás duas náos y e huma que 
tinha chegado de defcubrir o Cabo de Boa 
Efperança , por mandado de EIRey , da qual 
era Capitão Manoel de Mefquita , e ou- 
tras embarcações mais pequenas , em que 
poderia levar oitocentos homens ; e ten- 
do tudo preftes ? chegou D. António de No- 
ronha , que tinha partido do Reyno por 
Vifo-Rey da índia , com finco náos todas 
em huma maré , e o Vifo-Rey D, António 
vinha muito doente de tericia , e tal que 
cuidavam que não poderia viver. Eílavam 
elie , e Francifco Barreto mui defavindos 
já do tempo da índia , e fem embargo dif- 
fo foi em huma manchua metter as náos 

den- 



Década IX. Cap. XX. 157 

dentro no rio , e amarrallas ; e depois de 
as ter feguras , entrou na náo do Vilo-Rey-y 
que eftava em hum catre pequeno deitado 
na varanda 5 e chegando a elle o abraçou , 
e lhe diííe: )>Quebre-fe, Senhor, eíte en- 
a cantamento : peza-me de Voíla Senhoria 
» vir neííe eítado , porque o tomara ver 
)) muito bem difpoíto , pêra fupprir as ne- 
» ceffidades em que, Senhor, haveis de to- 
» mar a índia , pêra onde eu efpero de vos 
)> acompanhar; e pois VoíTa Senhoria vem 
» delíe modo, faça-me mercê de fe ir pêra 
» minha cafa , aonde fe tratará de voíla fau- 
» de o melhor que puder fer. » O Vifo-Rey 
lhe agradeceo muito aquelle termo , e lhe 
pedio o houveííe por efcuíb , porque era 
velho , e rabugento , e que lhe mandafle 
dar caías, em que fe pudeííe agazalhar; o 
que Francifco Barreto fez, mandandò-lhas 
perfumar muito bem, com muitos cheiros y 
e verduras ; e com o Governador António 
Moniz Barreto também teve outros cum- 
primentos , 'como parentes que eram , e o 
levou pêra fua cafa. 

Paliados alguns dias , em que o Vifo- 
Rey tomou algum alento , fez Francifco 
Barreto hum ajuntamento de todos os Ca- 
pitães , e Fidalgos velhos , o Governador 
António Moniz Barreto , Vafco Fernandes 
Homem, Religiofos que havia alli muitos, 

e 



158 ÁSIA de Diogo de Couto 

e muito bons Letrados , e o Padre Francif- 
co de Monclaros da Companhia , e prefen- 
tes todos , lhes propoz as coufas feguintes , 
pêra fe refolver com feu parecer : » Que el- 
» le eílava preftes com aquellas três náos, 
» e oitocentos homens pêra ir foccorrer a 
» Fortaleza de Chaul , que eílava em gran- 
» de aperto ; e que parecendo bem a to- 
» dos y o faria : e affim mais propoz , que el- 
» le trazia no primeiro capitulo de feu Re- 
» gimento , que na Conquiíta das Minas 
» não fizeíTe nada , fem o parecer do Padre 
» Francifco de Monclaros , que eílava pre- 
» fente ; que pêra as Minas de Butuá , e 
» Manicá havia dous caminhos ? hum pela 
» ferra , e terra de Manomotapa , e outro 
» por Çofala , que pedia a todos fe ouvif- 
» fem os homens velhos , e práticos naquel- 
» la terra , e que com as razões que def- 
» fem fe aíTentaífe qual deíles caminhos fe 
» havia de feguir. » E ouvindo os homens 
todos o que Francifco Barreto diífe, tratan- 
do-fe daquella matéria , vieram todos a con- 
formar 5 e aíTentar em que o caminho fe 
havia de fazer por Çofala , por fer mais fá- 
cil ? e menos arrifcado , porque pelo outro 
da ferra haviam de paffar forçofamente pe- 
las terras de hum Rey chamado Omigos , 
o mais poderofo de toda a Cafraria ; e que 
fuccedendo aos noffos alguma quebra com 

d- 



Década IX. Cap. XX. 15*9 

elle, ficaria o Governador Francifco Barre- 
to inhabilitado pêra profeguir a conquif- 
ta que lhe EIRey mandava. Efte parecer 
tomou o Governador affim com tanta íò- 
Icmnidade , porque o Padre Francifco de 
Monclaros apertou muitas vezes com el- 
le que foífe pela ferra , e terras de Mano- 
motapa , tendo elle fabido dos homens prá- 
ticos , que não iriam bem encaminhados ; 
e porque Francifco Barreto não quiz feguir 
o parecer do Padre, andavam elles quebra- 
dos , e differentes , e ainda nefta junta o 
eftavam , x e o Padre teimava em que fe ha- 
via de fazer o caminho da conquiíia por 
onde elle queria , enão por onde geralmen- 
te a todos parecia, o que era zelopiedofo, 
mas damnofo ; porque a razão porque nif- 
fo infiília era, pêra que o Governador Fran- 
cifco Barreto tomaífe do Manomotapa al- 
guma fatisfaçao da morte do Padre D. Gon- 
falo da Silveira , que elle mandou marty- 
rizar , como em feu lugar contei , e pêra 
ver fe poderiam achar as relíquias de feus 
olfos , o que não podia fer , porque todos 
os homens que naqueíle tempo tratavam 
pêra as terras de Manomotapa affirmavam , 
que tanto que lançaram o corpo deíle fan- 
to Padre no rio , logo os lagartos , e co- 
codriilos o comeram , e engoliram , donde 
não pudera tornar a apparecer , fenão no 

ul- 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

ultimo juizo univerfal ; e debatido o nego- 
cio naquelle grande concurfo de Capitães , 
Theologos , e mercadores práticos daquel- 
Ias Minas , aílentáram todos que ao Gover- 
nador Francifco Barreto lhe era neceílario 
fazer feu caminho por Çofala , alfím por 
fer mais perto, como menos arrifeado. Af- 
fentado efte negocio, aílignáram todos no 
termo que difíb fe fez , em que também o 
Padre Francifco de Monclaros aífignou por 
Jhe parecer muito bem. 

E fobre o primeiro ponto que o Go- 
vernador Francifco Barreto propoz , de que 
eftava preíles pêra foccorrer Chaul , diíle 
o Vifo-Rey D. António que naquillo tinha 
bem cumprido com o ferviço de EIRey , 
e obrigação defua peííba, que a tenção era 
muito boa , e fora muito bem acertada a 
jornada, fe faltaram náos ; masque poisel- 
le Vifo-Rey hia pêra a índia com tamanha 
Armada , que eícufava elle Francifco Bar- 
reto aquelle trabalho , pois tinha o outro da 
conquifta das Minas , que EIRey tanto lhe 
encommendava ; mas que pois alli eftavam 
juntos aquelles Capitães Fidalgos , e Reii- 
giofos , e Cavalleiros , lhes pedia que prati- 
caífem fobre fe iria elle D. António com 
toda a Armada demandar Chaul , que era 
o que eftava mais arrifeado , ou fe iria di- 
reito a Goa j porque fe Chaul fofle perdi- 
do > 



Década IX. Cap. XX. 161 

do , elle já o não podia remediar ; e fe ef- 
tiveiTe ainda cercado, que com a nova que 
chegaífe aos inimigos de fua vinda com ta- 
manho poder , eftava certo levantarem-fe 
logo daquella Cidade fobre que eftava ; e 
que chegando eile a Goa, lhe poderia lo- 
go mandar todos os íbccorros que quizef- 
fe ; e concluído iíto com tanta fatisfaçao 
de todos, fe partio o Vifo-Rey pêra a ín- 
dia. 

Francifco Barreto começou a mandar 
muita parte da fabrica da conquifta pêra 
Çofala em muitas embarcações , e elle fe 
começou a preparar pêra a jornada ; mas 
como ao Padre Francifco de Monclaros 
lhe parecia que fe fazia oíFenfa á fua au- 
thoridade , e letras , e ao que EIRey del- 
le fiava que aconfelharia ao Governador o 
que fofle jufto , e honefto , conforme a feu 
ferviço , e não a fuás pertençóes , foi-fe hum 
dia ao Governador , e lhe pedio licença 
pêra fe ir pêra a índia pela Coita de Me- 
linde , porque entendia que elle Governa- 
dor hia contra fua confciencia , e contra o 
ferviço de EIRey em querer fazer feu ca- 
minho por Çofala , como eftava aífentado, 
parecendo-lhe ao mefmo Padre muito acer- 
tado o que fe aífentou em hum Confelho 
tão authorizado , como fe convocou pêra ef- 
ta matéria de hum Vifo-Rey, dousGover- 
Couto. Tom. V. P. iL L na- 



í6z ÁSIA de Diogo de Couto 

nadores, e mais de vinte Padres de S. Do- 
mingos , Thcolcgos , querendo que feu pa- 
recer fó venceííe a todos eíles , paixão mui- 
to natural em muitos Religiofos, pela qual 
deitaram a perder na índia grandes occa- 
fiões , e fe arrifeáram , e ainda perderam 
algumas Fortalezas , como pelo difeuríb 
de minhas Décadas fe verá; porque muito 
fabido he nas Eicrituras Divinas , e Huma- 
nas que cada dia erra o homem , que fe 
governa por feu parecer , e que as mais 
das vezes acertou quem fe governou pelo 
alheio : em fim a paixão deite Padre che- 
gou a tanto , ou o medo , e temor que o 
Governador Francifco Barreto tinha aos 
Prelados da Companhia , e ao Meílre de 
EIRey D. Sebaftiao , que foi o que o en- 
caminhou pêra eíta jornada, que fez remo- 
ver o parecer que eílava tomado de tan- 
tas peífoas tão eminentes , e fazer nova jun- 
ta , em que tornou a propor o negocio , no 
qual parece que o Padre tinha feito o que 
pertendia com os que haviam de fer cha- 
mados ; e tornado a debater o negocio , vo-* 
taram que foííe o Governador pela ferra, 
e não por Çofala : e niílo fe poderá bem 
ver o que podem refpeitos , que o que ho- 
je pareceo bem a huns , á manha parece 
mal aos meímos : ora deixemos ifto , que não 
fêrvio de mais que de efeandalizar a quem 

o 






Década IX. Cap. XX. 163 

o íbube. O Governador Franciíco Barreto 
tornou a remover o que eílava aílentado, 
e mandou embarcações a Çofala , pêra que 
toda a fabrica que lá eílava , o foíTe efpe- 
rar no forte da ferra , como fez ; e elle co- 
mo fe hia chegando o tempo em que ha- 
via de partir , fe foi fazendo preíles , e fe 
proveo baítantemente de muitas coufas pê- 
ra aquella jornada , pêra a qual levou mais 
de duzentas peças de pannos de cores pê- 
ra fe veílirem os foldados no tempo de in- 
verno , que he lá muito frio. Aqui quero 
contar eíle cafo , que me aconteceo com el- 
le. Vim eu doReyno, como já difle, com 
o Vifo-Rey D. António de Noronha ; e co- 
mo Franciíco Barreto comprava todos ef- 
tes pannos, parece foube que eu trazia hu- 
mas trinta peças , que me mandou regar 
lhe vendefle , as quaes eu lhe mandei lo- 
go , e depois fui ter com elle , que eílava 
fazendo contas com hum Feitor íeu , que 
comprava cites pannos , o qual me pergun- 
tou a como os havia de dar 5 ao que Fran-» 
cifeo Barreto , que eílava praticando comi- 
go nos aífentos da janella, lhe refpondeo 
cilas palavras : » Ora eítais muito graciofo , 
» perguntai a eíle fenhor foldado por ar- 
» mas , e dar-vos-ha razão delias : pagai- 
» lhe as fuás peças por aquillo que as mais 
» caras vos cuítáram » o que elle logo fez : 
L ii trou- 



1^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

trouxe iíto, pêra que fe veja a natureza, e 
grandeza deite Fidalgo. 

CAPITULO XXL 

Parte Francifcc Barreto pêra a Conquijia 
das Minas : e da deferipção de toda a 
Cojia do Cabo Delgado até o Cabo das 
Correntes , e do Reyno de Manomotapa > 
e das Minas de Butud > e Manicá. 

P Refles Francifco Barreto de tudo, ajun- 
tou todos os navios , que havia no rio 
de Moçambique , e mandou embarcar a fa- 
brica toda , e aííim os cavallos , e huma 
quantidade de jumentos , e alguns camel- 
los , que lhe trouxeram das coitas dos Bo- 
doins pêra o ferviço do exercito, e fervi- 
ço deíle 3 levou o Governador mil folda- 
dos , muitos eferavos , e alguns Mouros , 
que fabiam a terra , muitas roupas , man- 
timentos , e odres pêra agua , e em fim tu- 
do o que lhe difieram fer neceífario pêra 
aquelia jornada , e no mez de Novembro 
fe embarcou , e foi com tudo a falvamen- 
to até o rio de Quilanamé noventa léguas 
de Moçambique , que he o rio dos Bons 
Sinaes , onde Vafco da Gama , quando foi 
ao defeubrimento da índia , efpalmou as fuás 
náos > e porque me pareceo que feria accei- 

to 



Década IX. Cap. XXL 16? 

to dos curiofos fazer aqui huma defcrip- 
çao deita cofta toda do Cabo Delgado até 
o Cabo das Correntes , a farei, começando 
do Cabo Delgado pêra o das Correntes. 

Efta coita do Cabo Delgado até Mo- 
çambique quaíi que imita a feição de hum 
arco , começa em nove gráos do Sul , e 
acaba em'quatorze emeio, em cuja diítan- 
cia ha eítes rios , e Ilhas. Cabo Delgado , 
Ilha dos Paílaros , Ilha de Mefa , rio Pan- 
dagi , tem huma Ilha na boca do feu no- 
me , Ilha Macoloé , Ilha de Materno , Ilha 
de Quiribá , Ilha da Cobra , junto delia rio 
Melvané , Ilha de Quizoé na fua boca , 
Ilhas das Cabras , a eítas Ilhas lhe puze- 
ram o nome os íbldados da Armada de 
Vafco da Gama , quando por alli paliou a 
primeira vez , Ilhas do Açoutado , porque 
nellas mandou Vafco da Gama açoutar o 
Piloto , que o levou de Moçambique , por- 
que o metteo entre ellas , a fim de lhe fa- 
zer perder as náos. Vai logo o rioMefen- 
te, o rio Noculubó , o rio Jitú, o rioAbé, 
o rio Xagás , o rio Samouco , o rio de Ve- 
lofo Xaracapá , enleada de Fungo , o rio 
de Penda , que tem huns baixos que lançao 
duas léguas ao mar de feu nome , o rio 
Quiíimalúco , o porto de Velhacos , Tinta- 
goné ; onde fazem as aguadas , tem dous 
Ilheos fora da boca Moçambique ; daqui 

até 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

até a ponta da cnfeada da Sanca , que eftá 
em vinte c lium grãos e meio , vai encur- 
vando a terra pêra dentro delongo , da qual 
jaz aquelle perigoío parcel de Çofala , na 
qual diftancia ha eftes rios abaixo de Mo- 
çambique , o rio Mocugó , o rio Bafonis , 
o rio Moíigé , o rio Moguncualé 3 que tem 
na boca huns baixos que lançanl duas lé- 
guas ao mar , aonde eu já eftive perdido 
em huma naveta indo pêra Çofala í por fi- 
ma dos quaes cavalgou a embarcação , e 
milagrofamente fe iahio com o leme que- 
brado , o rio Janguafé , o rio Ambuzio , as 
Ilhas deAngoxa, que Iam três , o rio Mon- 
ja , o rio Macolongo t que tem três llheos 
na boca , o rio Tendamagé , o rio Corro- 
becá, o rio Quiíingó , o rioLoranjá, o rio 
Quinami 5 o rio Locangò , o rio Monguló , 
o rioMafutá, barra de Quilinamé , que ef- 
tá noventa lesmas deMocambiaue , em cu- 
ja cofta jazem os rios aílima , capazes de 
navegarem por elles Pangayos de cem can- 
dís de cai-ga ; corre logo a Ilha Chinogá 
adiante trinta léguas até á barra de Luca- 
bó vam lego eftes rios , Tendeculó , rio 
Quiloé , rio Tambambugoé , rio Miafé, 
rio de Çofala , que faz na entrada huma 
Ilha chamada Ijihafantó , rio de Loané 5 rio 
de Mambont, rio Mulinern , rio Quilama- 
coíi a ponta de Boíícá , que eftá em vinte 

e 



Década IX. Cap. XXL 167 

e dous gráos do Sul , onde começa huma 
concha da feição de hum briguigáo , que 
vai acabar junto do Cabo das Correntes 
em vinte e três gráos , por íima da qual 
coita eftá o Trópico de Capricórnio : cha- 
ma-fe eíla concha , ou enfeada da Sovea, 
dentro he aparfellada toda , entre a derra- 
deira ponta da banda do Sul , e do Cabo 
das Correntes faz o rio Inhabané , onde os 
Capitães de Moçambique mandam fazer 
refgate de marfim, donde lhe vem grande 
quantidade delle ; e ainda pêra o Cabo das 
Correntes ha outro rio , que fe chama In- 
hangé. 

CAPITULO XXII. 

Das terras que pojjue o Manomotapa : e 

dos lugares a que os Portuguezes vam 

fazer fuás feiras , por commutaçao de 

roupas , e conta com ouro. 

TOda a terra que o Manomotapa fenho- 
rea, beija a boca do rio Cuama ao Nas- 
cente , ao redor de duzentas e íincoenta lé- 
guas , que delia puderam alcançar os Por- 
tuguezes , e Mouros., que vam pela terra 
dentro , e prefume-íe que vai a paflar mui- 
to mais avante até confinar com os Rey- 
nos do Sertão do Prefte João da Abaífia. 
Eíla terra he cortada pelo meio com hum 

fer- 



i68 ÁSIA de Diogo de Couto 

fermofiílimo rio chamado Zambofé , no qual 
fe mette o rio Quiri , que corta a terra 
chamada Barono , e o rio Maníbvo , o rio 
Arroenha, e o Cabreza , e o Arrugé , e o 
Arruboy 5 todos rios profperiífimos de agua > 
a fora outros muitos de menos quantida- 
de , ao longo dos quaes vivem muitos Reys , 
huns izentos , e outros vaíTallos do Mano- 
motapa, e ornais poderofo dos izentos he 
o Rey chamado Monge y que confina com 
os noflbs fortes de Sena., e Tete, e parti- 
cipa em algumas partes do rio Zambofé. 
As mais ricas Minas de todas fam as de 
Mafapá, de que já tratei em algumas par- 
tes , e onde moílro na minha Abaífia , que 
a Rainha Sabá levou a maior parte do ou- 
ro , que foi offerecer ao Templo de Sala- 
mao , a qual eu tenho pelo Ophir de que 
trata a Sagrada Efcritura, e a femelhança 
do nome o moílra claramente , porque feus 
Cafres lhe chamam Fur , ou Fura , e os 
Mouros Aufur , que hum , e outro , tirando- 
fe poucas letras , e com pouca corrupção 
na pronunciaçao (que eítes bárbaros adul- 
teram ) he mui femelhante a Ophir : he ef- 
ta Mina tão rica , que ha bem poucos an- 
nos que delia fe tirou huma pedra, de que 
fe tiraram mais de quatro mil cruzados de 
ouro , e arrebentam debaixo as veias do 
ouro com tanta força , que fe achou fubi- 

rem 



Década IX. Cap. XXII. 16? 

rcm pelas raizes dos pés das arvores aflí- 
ma; e dehuma veia, que veio arrebentan- 
do aflima , tiraram hum pedaço de ouro , que 
empedra pezava doze mil cruzados, a mo- 
do de hum grande Inhame com alguma ter- 
ra por partes que fazia veias , a qual foi 
ter ás mãos dos noíTos Portuguezes , e não 
fe cavou mais neftas veias , porque havia 
grandes penas de mortes , e tormentos aos 

?[ue nellas buliíTem ; e em outras partes 
e acharam á flor da terra pedaços , ou ef- 
galhos de ouro como gengivre de pezo de 
quatro mil cruzados : ha outra também mui- 
to profpera, que fe chama deManicá, eiíi 
que também não podem cavar os naturaes ; 
e ainda que pudeflem , o não fariam , por- 
que não fabem profundar as Minas , nem 
ordenar as máquinas pêra ifíb : a outra Mi- 
na he deButuá, também he profpera , mas 
de nenhuma delias fabem os Cafres tirar 
ourOj e fomente pelos invernos andam pe- 
los enchurros , que defcem das ferras pêra 
baixo , em que acham alguns grãos , e lai- 
cas , e de outras partes tiram a terra em 
gamellas , que levam eftas enchurradas , de 
que tiram ouro mais miúdo , a que chama- 
mos em pó; e como os Cafres são muitos, 
fempre acham muita quantidade , ainda que 
naturalmente são tão preguiçofos , que co- 
mo acham o que lhes baila pêra comprarem 

dous 



170 ASIÂ de Diogo de Couto 

dous pannos pêra fe veílirem , não traba- 
lham mais. Outras muitas Minas ha ncftes 
Reynos menores , e as haverá maiores tam- 
bém fe profundaííem ; mas nem os Cafres 
tem apparelhos , nem cubica, e calor pêra 
iífo , porque, como já diílé, fe contentam 
com pouco. 

Três são as feiras a que os noífos Por- 
tuguezes vam relgatar o ouro , e vender 
fuás fazendas , ou commutalias por ouro, 
pêra as quaes hão defahir do noífo forte de 
Tete , que eílá cento e vinte léguas pelo rio 
Zamboíé aííima. Os que querem ir , e os 
outros mandam feus Cafres \ porque ha mer- 
cadores deites , que tem cento , e duzentos 
Cafres feus cativos , que mandam a efte ref- 
gate, os quaes são tao fideliffimos que até 
hoje fenão fabe que hum fizeife hum a ve- 
lhacaria , nem fe deixaífe ficar por lá com 
a fazenda de feu fenhor : cada Cafre dei- 
tes leva á cabeça hum fardozinho feito ao 
comprido, muito bem liado , a que chamam 
Motiro , em que vam duas corjas de pan- 
nos azues , que são quarenta , roupa baixa 
de íete até oito covados de comprido , e 
pouco mais de hum de largo, e alguns dei- 
les tao ralos , que parecem redes , e outras 
laias de pannos liítrados do mefmo tama- 
nho , e nuns , e outros os Cafres eítimam 
muito , e os partem em alguns pedaços, 

com 



Década IX. Cap. XXII. 171 

com que fe encacham , e eítas são pêra th 
les as maiores galanterias do mundo. Le- 
vam também a eíte refgate humas conti- 
nhas de barro miúdas, humas verdes , e ou- 
tras azues , e amarellas , que são as gargan- 
tilhas , que as Cafras põem ao peícoço , 
como os noílos colares ricos ; eítas contas 
vam enfiadas em huns fios de Macoíi , que 
he huma coufa como folhas de palma , e 
delias fazem hum ramal de dez , doze fios 
de palmo cada hum , a que chamam me- 
tins , que he hum certo pezo , que elles 
ulam , e a dez metins deites chamam lipa- 
te , e a vinte lipote , que vai hum cruza- 
do, e chega lá poíto quarenta reis; e to- 
das eítas coufas que levam fe vendem lo- 
go , e dobram nellas o dinheiro , ou mais. 
Eílas cáfilas de Cafres com eítas fazendas 
fahem do noffo forte de Tete chamado 
Sant-Iago , e vam a três feiras , aonde os 
Cafres do Sertão os vam efperar a certos 
tempos ; a primeira fe chama Luanhé , que 
fera trinta e íinco léguas de Tete pelo Ser- 
tão da banda do Sul , que eítá entre dous 
pequenos rios, que depois que fe ajuntam 
em hum , fe chamam Naufovo , e fica o 
dito lugar affaílado década hum deites ria- 
chos dez léguas de Tete, até eíta feira gaf- 
tam os noífos quatro dias de caminho. A 
fegunda feira fe chama Bucotó , e fe faz en- 
tre 



iyz ÁSIA de Diogo de Couto 

tre outros dous braços pequenos , que fe 
vem também ajuntar com o grande , affaí- 
tada da fralda de cada hum duas léguas : 
e deTete a efte lugar ha quarenta léguas , 
e da feira deLuanhé por linha direita tre- 
ze. Mafapá he a terceira feira , que fica na 
jornada do rio Mafouvo , fincoenta léguas 
de Tete ; efta feira he grande , e riquiíli- 
ma. Em todos eftes lugares tem os Padres 
deS. Domingos Igrejas , onde fe facramen- 
tam os Chriítaos , que alli vivem , e que 
alli vam ter. Aqui nelta feira de Mafapá 
reíide hum Capitão Portuguez apprefenta- 
do pelo Capitão de Moçambique , e con- 
firmado pelo Manomotapa , o qual fem fua 
licença fe não pode fahir dalli fobpena de 
o matarem , o qual he Juiz das differenças 
que ha entre os Portuguezes , e ainda en- 
tre os Cafres , por lhe ter dado o Manomo- 
tapa jurifdicção fobre elles : chama-fe efte 
Capitão das Portas , porque por alli hão 
de paífar forçadamente os que vam pêra 
a Corte. 



CA- 



Década IX. Cap. XXIIL 175 

CAPITULO XXIIL 

Do que fuccedeo a Francifco Barreto nejl& 

Conquijia , e a ordem que teve em ca-* 

minhar pela terra dentro. 

DEixamos o Governador Francifco Bar- 
reto emCuama com toda a fabrica de 
feu exercito , e pelo rio aííima foi até o 
forte de S. Marçal, ou de Sena, e fe af- 
fentou em huma povoação , que fe chama- 
va Inhaparapalla , onde fe agazalhavam to- 
dos os Portugueses mercadores que por al- 
li andavam , onde já lhe tinham feitos 
apofentos pêra o Governador, e Igreja, e 
muitas cafas pêra a gente, tudo de palha: 
havia defta povoação á outra de Mouros 
hum tiro de falcão , os quaes eram noífos 
amigos , e tinham feu Xeque que os go- 
vernava, e pêra a communicaçao de todos 
os Portuguezes com quem fe criavam , faí- 
lavam , e aprendiam a nofla lingua , e e£ 
creviam com as nolfas letras. Era a povoa- 
ção em que Francifco Barreto fe agazalhou 
ao longo do rio , de cuja agua todos be- 
biam, que era muito barrenta, e turva; e 
fe a não aífentavam de hum dia pêra o ou- 
tro , não fe podia beber, pêra o que era 
neceílario muitas vazilhas grandes que não 
havia, efó dehuns cabaços fe ferviam que 



174 ÁSIA de Diogo de Couto 

levavam duas, e trcs canadas de agua, pe- 
la qual razão começou a adoecer alguma 
gente , no que o Governador quiz prover 
com mandar abrir hum poço defronte das 
fuás cafas , e elle em peíToa com todos os 
FidaJgos , e peílbas principaes trabalha- 
vam na obra , e acarretavam a pedra pêra 
fe empedrar; e eftando já tão alteado que 
deram na agua } chegou hum daquelles Mou- 
ros homem principal , que fe chamava Ma- 
nhoefa , o qual apartou o Governador , e 
em fegredo lhe diífe que fe não fiafle da- 
quella agua , e que mandaífe logo a entu- 
pir o poço , porque lhe haviam de lançar 
peçonha nelle pêra o matarem, a elle , e 
a todos os mais. O Governador diffimulou 
com o negocio hum dia , ou dous , e de- 
pois o mandou entupir, dizendo que ainda 
aquella agua era peior que a do rio que 
era corrente ; e como nunca os Mouros fe- 
rao amigos dos Chriílãos , tanto que fou- 
beram da ida do Governador a defcubrir 
as Minas com que elles ficavam perdendo 
aquelle cominercio , tinham aífentado de 
matarem os noffos poucos a poucos com 
peçonha , e pêra iífo tanto que o Gover- 
nador chegou, fe moílráram mui aífaveis", 
e domeílicos , e convidaram por muitas ve- 
zes aos noífos , e nos convites lhes lança- 
ram peçonha , que depois ao longe lavrou j 



Década IX. Cap. XXIII, 17? 

e vindo vefpera de Natal, convidaram mui-' 
tos Fidalgos , e peilbas principaes pêra lhes 
darem deçonfoar, pêra o que fizeram mui- 
tos doces , e entre elles muito boa gerge- 
lada, na qual tinham carregado bem amáo 
de peçonha , porque fabiam ferem os nof- 
fos affeiçoados áquella fruta. Já neíle tem- 
po eram mortos alguns cavallos de peço- 
nha fem es noífos cahirem no que era ; c 
todavia vendo que morriam muitos , man- 
daram abrir alguns , e lhes acharam os fí- 
gados , e corações comidos , e podres. O 
Governador vendo aquelle negocio , man- 
dou prender todos os farazes , e começan- 
do-lhes a dar tratos , confeíTáram que hum 
Caciz dos Mouros lhes trazia a peçonha , 
que clles davam aos cavallos pêra o que 
os tinha peitado ; e feito iílo , mandou o 
Governador em muito fegredo chamar cer- 
tos Capitães com fuás Companhias 3 e lhes 
mandou que com fegredo , e cautela cer- 
caflem diíiimuladamente a povoação dos 
Mouros toda em roda , e que eítiveflem 
preítes todas as embarcações ligeiras com 
as proas em terra, e que ouvindo tocar a 
caixa , defíem na povoação dos Mouros, 
e os paíTaífem todos á efpada ; e que as 
embarcações ligeiras andaflem pelo mar , e 
tomafiem todos os que foffem fugindo ; o 
que tudo fe fez muito bem feito, e mata- 
ram 



176 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram todos os que acharam , e prenderam 
os principaes , e algumas embarcações pa£ 
fáram á outra parte do rio pêra darem na 
povoação de hum Mouro muito rico, que 
tinha quarenta Mouros feus criados, emais 
de quinhentos Cafres ; e hum foldado por 
nome Balthazar Marrecos , que hia em hu- 
ma das embarcações , o qual vive hoje em 
Goa honrado , e abaítado , levava comíigo 
outro na embarcação , o qual fabia muito 
bem a cafa do Mouro por ter ido lá mui- 
tas vezes , e tomou por hum eíleiro , que 
hia ter á íua porta , e defembarcando en- 
controu o Mouro que hia bufcar , com mais 
féis , o qual como não tinha ainda noticia 
docafo, e o conhecia, lhe perguntou a que 
hia lá , ao que lhe refpondeo que o Gover- 
nador o mandava chamar por humas novas, 
que lhe vieram do Mongas , que fe fazia 
preítes pêra o ir bufcar. O Mouro lhe dif- 
ie que hia negociar três mil meticaes de 
ouro , que o Governador lhe pedira em* 
preftados pêra pagamento dos foldados , e 
com tudo o foldado apertou com elle pê- 
ra o levar ; e tanto fez que o levou com- 
figo pêra a embarcação ; e vindo pelo rio , 
viram vir hum luzio grande , em que hia 
hum Capitão com muitos Fidalgos em buf- 
ca delle. O Mouro em o vendo lançou mão 
a hum traçado , e o Balthazar Marrecos 

com 



Década IX. Cap. XXIII. 177 

com os companheiros levaram das armas, 
e lhe difleram que não bulliíTc comíigo, 
em fim o amarraram , e mettèram na em- 
barcação ; e encontrando-fe com o luzio , o 
Capitão que hia nelle lhe pedio o Mouro , 
que elle lhe não quiz dar, e lhe diíTe que 
foíTe á povoação , que havia nella muito 
que fazer, o que elle fez, e foi dar nella, 
e nas cafas do Mouro , que Belchior Mar- 
recos levava , que fe chamava Mujugané, 
e a faqueou , porque o Mouro era rico , e 
houve foldado de dous , e três mil cruza- 
dos. Balthazar Marrecos entregou o Mou- 
ro ao Governador , que o mandou metter 
em huma prizão , em que já tinha outros; 
e procedendo contra elles , os fentenceou á 
morte , que logo fe executou , convidando-os 
primeiro a que fe fizeíTem Chriftãos , o que 
elles não aceitaram ; e fó hum chamado 
Mafamede Joanne , irmão de Mafamede 
Xeque Rajáo, hum Mouro muito conheci- 
do em Moçambique , o qual aquelle dia 
pela manha mandou chamar os Padres da 
Companhia, e lhes diíTe que aquella noite 
lhe apparecêra a Virgem noífja Senhora Mai 
de Deos , e lhe diííera que fe fizeífe Chri- 
ftão, e fe chamaíle Lourenço , pelo que em 
feu coração determinava receber a agua do 
fanto baptifmo : e que não cuidaíTem que 
aquillo era pêra lhe darem ávida, porque 
Couto. Tom.F.P.iL M bem 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

bem fabia que havia de morrer , que lhes 
pedia obaptifmo, o que os Padres fizeram, 
confolando-o muito : e logo foi tirado a 
juíliçar com todos os mais , que cada dia 
tiravam de dous em dous , e os mettiam 
nas bocas das bombardas que os defpeda- 
çavam pêra temor dos mais ; ío o Louren- 
ço , que fe fez Chriftao, foi enforcado, e 
acompanhado com o Santo Crucifixo , e 
muitos delles foram mortos com outros tor- 
mentos exquiíitos , e aíTim padeceram to- 
dos ; fó o Manhoefá , que aconfelhou ao Go- 
vernador que entupiííe o poço, porque lhe 
haviam de deitar peçonha, he que eícapou, 
e o Governador lhe difle que bem fe podia 
ir pêra onde quizeífe ; mas elle quiz ficar 
fempre em fua companhia , e o Governa- 
dor o mandou prover , e tratar muito bem. 
Poucos dias depois de o Governador 
chegar ao forte de S. Marçal , defpedio 
hum Portuguez dos antigos mercadores , que 
andavam naquelies rios , muito conhecido 
do Manomotapa , pêra o irviíitar, e tratar 
com elle alguns negócios , ao qual deo por 
inftrucçao que antes de chegar á Corte man- 
dafíe recado ao Rey que fe o havia de re- 
ceber como Embaixador de EIRey de Por- 
tugal , e do feu Governador , e ouviílo da 
maneira que todos os Reys Chriftaos o re- 
cebiam , que iria á fua Corte 5 fenao que 

íe 



Década IX. Cap. XXIII. 179 

fe tornaria. A caufa , por que o Embaixa- 
dor fez efta diligencia , e advertio ao Go- 
vernador deite modo , foi , porque tem eíles 
Reys por eílilo , quando entram a lhe fol- 
iar alguns eílrangeiros , cu naturacs com 
elle , irem defarmados , defcalços , e de joe- 
lhos , batendo as palmas das mãos , e jun- 
to delle fe lançam de bamga no chão. O 
Manomotapa lhe mandou dizer, que foíle 
a elle , aííim como entrava a fallar aos Reys 
Chriílãos , que era diífo muito contente, 
poílo que os Mouros que efíavam na Cor- 
te o perfuadíram que o não ouvifle , fenao. 
como era coftume , porque os Portuguezes 
eram grandes feiticeiros , e que naquellas 
ceremonias com que queriam dar a embai- 
xada , havia coufas , e palavras com que o 
haviam de matar; e com iíto detiveram al- 
guns dias o Manomotapa , que efteve refo- 
luto em o não receber, e no fim lhe man- 
dou que entraíTe na Corte, como fez; e no 
dia em que lhe havia de fallar, mandou o 
Embaixador por alguns Portuguezes huma 
cadeira , e huma alcatifa debaixo , que fe 
poz defronte do lugar do Manomotapa per- 
to delle, e logo entrou o Embaixador com 
todos os Portuguezes veftidos , e calçados , 
e com fuás armas. O Manomotapa em el- 
le entrando fe levantou donde eílava aííen- 
tado, e orecebeo com gazalhado , e fetor- 
M ii nou 



iSo ÁSIA de Diogo de Couto 

liou a aíTentar , e o mefmo fez o Embai- 
xador, e pelo interprete o mandou viíitar 
da parte do Governador, e fazer-lhe gran- 
des cumprimentos \ e depois deitas práti- 
cas lhe pedio da parte do Governador qu 
lhe défle licença pêra ir íbbre o Rey Mon 
gas, que eítava levantado contra elie Ma 
nomotapa , porque alua conta o queria caf- 
tigar, e que também lhe relevava paíTar ás 
Minas de Butuá , e Manicás , e o não que- 
ria fazer fem fua licença : mettiam-fe as ter 
ras deite Rey entre a noíTa Fortaleza de 
Sena , e as terras do Manomotapa, e era 
o mais poderofo de todos, tirando elle. O 
Manomotapa lhe mandou refponder que ef- 
timava muito aquelle oíFerecimento , e que 
folgaria de elle lhe caftigar aquelle alevan- 
tado , e que pêra iííb lhe daria cem mil 
homens , e tudo o mais que foííe neceíTa- 
rio , e que foííe embora as Minas que di- 
zia : ao que o Embaixador lhe tornou a 
mandar dizer que nada havia miíter o Go- 
vernador pêra aquella jornada mais que 
licença fua , e certeza de que levava goíto 
que a fizeíTe , e com ifto fe defpedio do 
Manomotapa , e foi dar refpoíta ao Gover- 
nador que eítimou muito ; e como iíto era 
na entrada do verão, logo fefez preítes pê- 
ra aquella jornada , e começou a dar or- 
dem a ella. 

Fei- 



Década IX. Cap. XXIII. i8r 

Feito tudo o que lhe pareceo neceífa- 
rio , foi o Governador marchando com to- 
do o feu exercito ao longo do rio até che- 
gar ás terras do Mongas , que era o inimi- 
go que elle hiabufcar; e porque tinha por 
novas que elle também o efperava com grof- 
fo poder, pareceo-lhe bem , pêra ficar mais 
defembaraçado , deixar em humallha, que 
alli fazia o rio, todos os doentes, e parte 
da bagagem que lhe não fervia , e também 
fe deixaram ficar alguns sãos que de caval- 
leiros fe fizeram doentes , e por Capitão 
de tudo iílo deixou hum Fidalgo chamado 
Ruy de Mello que eílava ferido , e com a 
gente com que ficou, que eram finco Com- 
panhias , fe poz em campo , e a todos lhes 
diífe brevemente que bem viam como ef- 
tava daquella maneira com tão pouco ca- 
bedal pêra ir commetter o Mongas Rey 
poderofo , na qual jornada fe lhe oíFere- 
ciam muitos perigos , fomes , e fedes , e in- 
commodidades , mas que tudo lhe facilita- 
va verem todos ogoíto, e animo com que 
todos o queriam acompanhar , e feguir : 
que elle fe defembaraçára dos doentes , e 
os deixara naquella Ilha por não impedi- 
rem os sãos ; e porque elle não podia ter 
noticia das doenças , e indifpoíições fecre- 
tas que alguns podiam ter , lhes pedia que 
aquelle, que fe não achafle muito fuíii cien- 
te 



182 ÁSIA de Diogo de Couto 

te em forças, e faudc pêra o acompanhar, 
lho notiíicaííe pêra o deixar também na 
Ilha, onde lhe não haviam de faltar reba- 
tes dos inimigos 5 e que por aquelle dia 
fe deciaraílem , porque ao outro havia de co- 
meçar a marchar ; mas como já os doen- 
tes eítavarn agazaihados , lhe refpondèram 
todos os que alii eftavam que clles fe acha- 
vam todos muito sãos pêra o feguirem em 
todos os trabalhos. Feita eita diligencia , 
ao outro dia á tarde levantou o Governa- 
dor o campo , e foi marchando até o Sol 
poíto , que fe tornou a alojar, e ao outro 
dia fez pela manha refenha da gente que 
o feguia , e achou quinhentos çfefíenta fol- 
dados todos de efpingarda , em que entra- 
vam cem mofqueteiros que levavam foldo 
dobrado , e vinte e três de cavaílo , e dei- 
ta gente ordenou íinco Companhias ; e ca- 
valsando em hum fermofo cavallo , arma- 
do de armas ligeiras, fepoz nomeio de to- 
dos , e lhes diíTe : » Eia , companheiros 
» meus, e esforçados cavai! eitos , caminhe- 
» mos , e vamos bufcar os inimigos , que 
» mais contente , e feguro vou com eftes 
» poucos tão contentes que com muitos 
» mais forçados , e contra fua vontade ; » 
elcgo foi marchando peia terra dentro com 
guias que os levavam por onde houveíTe 
agua y pelos quaes caminhos foram nove, 

ou 



Década IX. Cap. XXIII. 183 

ou dez jornadas, achando os mais dos po" 
ços entulhados , pelo que paíTárarn naquei- 
les dias grandillimas fedes , e fomes ; e foi 
de feição eíle trabalho , que chegaram a 
não comer , de dous a dous dias , mais que 
alguns pedaços de carne de vaca , de al- 
gumas que matavam , a qual aífavam em 
efpetos de páo , e ainda deífa muitos guar- 
davam alguma pequena parte pêra o ou- 
tro dia. 

No fim de dez jornadas indo caminhan- 
do por hum tezo aíTima , fahíram as gen- 
tes do Mongas dar viíla aos noífos com 
tamanho número que fe não pode efmar, 
porque cubriam os montes , e os valles. O 
Governador ordenou a fua gente , e deo a 
vanguarda a Vafco Fernandes Homem , que 
fazia o officio de Meftre de Campo , e o 
Governador na retaguarda , e a bagagem 
no corpo da batalha [ e algumas peças de 
campanha. Em os Cafres dando aquella 
moftra que pareciam gafanhotos em nuvens y 
ordenou-fe o Meftre de Campo pêra es re- 
ceber, e mandou paliar palavra ao Gover- 
nador ., que acudio a cavallo , e chegou á 
vanguarda ; e vendo a multidão dos Cafres , 
foi-fe encoftando pêra huma parte, onde vio 
huma fermofa ferra , onde fe abrigou com 
todo o exercito , fortalecendo as coitas nel- 
la, porque não podia fer commettido pe- 
la 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

la retaguarda. Os Cafres vendo a ordem i 
e difpoliçao dos noífos , foram-fe retirando , 
c o Governador lançou-lhes logo alguns de 
cavallo , pêra que foflem reconhecer a par- 
te por onde íe recolhiam. Aquella tarde 
chamou o Governador ao Sargento mói^ 

Í[ue fe chamava Pedro deCaílro, e lhe diP 
e, que de todas as efquadras das Compa- 
nhias eícolheíTe de cada huma três Tolda- 
dos , e que fazendo número de oitenta , ef- 
tiveífe preítes pêra tanto que anoiteceíTe 
vir chegando pêra o corpo da guarda , o 
que elle fez com muita ordem. Os Cafres 
tanto que anoiteceo foram-fe alojar menos 
de meia légua , e toda a noite eftiveram a 
tocar os tambores com grande eftrondo > 
que todos fe ouviram no noílo arraial. O 
Governador no quarto d ? alva mandou ao 
Sargento maior que com os oitenta ho- 
mens que tinha efeolhidos foíTe dar hum 
aífalto no arraial dos Cafres ; e tanto que 
elle fahio y ceifaram os atabales , e marina- 
das dos Cafres. O Governador tanto que 
os não ouvio , mandou com grande preífa 
recado ao Sargento mor que fe recolhei* 
fe, porque entendeo que em quanto os Ca- 
fres tangiam , repoufavam ; e que tanto que 
ceifou o eftrondo , começavam a partir , e 
marchar pêra virem dar nos noífos , pelo 
que lançou efpias fobre elles que lhe vie- 
ram 



Década IX. Cap. XXIII. 185- 

ram dizer que já fe vinham chegando , com 
que o Governador mandou tocar a arma , c 
fe ordenou pêra os efperar : e aífim eitive- 
ram aponto aguardando até amanhecer , que 
mandou por alguns de cavallo defcubrir o 
campo 5 em que não viram coufa alguma, 
e com efte recado mandou marchar , levan- 
do fempre os de cavallo diante , e foram 
caminhando por huma campina rafa , pela 
qual os de cavallo defcubríram os inimi- 
gos , de que deram rebate ao Governador , 
que fe poz em ordem de peleijar com el- 
les , fazendo hum efquadrao de duas Com- 
panhias na vanguarda , e outras duas, hu- 
ma por cada lado, e na retaguarda outra, 
ficando a bagagem no meio , e na retaguar- 
da mandou levar hum falcão pedreiro , e 
pelas ilhargas , berços , e meios berços , e 
na vanguarda três quartas de efpera , que 
lançava pelouro de ferro coado. Os Cafres 
vinham todos em meia lua chegando-feaos 
noífos , e traziam diante huma Cafra velha , 
que tinham por grande feiticeira , a qual 
perto dos noífos tirou de hum cabaço , em 
que trazia huns poucos de pós , os quaes 
efpalhou pelo ar, com os quaes tinha fei- 
to crer ao Mongas que havia de cegar aos 
noífos , e tomarem-nos todos ás mãos ; e 
tão crentes vinham nifto, que traziam mui- 
tas cordas pêra os amarrarem. O Governa- 
dor 



i86 ÁSIA de Diogo de Couto 

dor vendo aquella Cafra velha fazer gati- 
manhos diante de todos, logo lhe pareceo 
fer feiticeira , e mandou ao Condeítavel 
que lhe fizefie tiro com o falcão, o que el- 
le fez em tão boa hora que levou a bala 
a maldita Cafra em pedaços pelo ar , de 
que os Cafres ficaram como pafmados , 
porque a tinham por immortal , pelo qual 
tiro o Governador lançou ao pelcoço do 
Condeítavel huma fermofa cadeia de ouro 
que no feu trazia ; mas nem por iflb os 
Cafres deixaram de remetter com os nof- 
fos com huma defordem brutal , com gran- 
des gritas , e algazaras , efgrímindo fuás ef- 
padas, e dardos, a que chamam pomberas. 
r rancifco Barreto fez final ao romper , ap- 
pellidando ao Apoítolo Sant-Iago , com o 
que a noíTá arcabuzaria , e mofquetaria co- 
meçou a difparar , e a derrubar nelles co- 
mo em gralhas amontoadas ; e pofto que 
fizeram alguma refillencia , e feriram al- 
guns dos noífos com fuás frechas , e aza- 
gaias , vendo a mortandade que os noífos 
nelles faziam , voltaram as coitas , indo os 
noífos na fua retaguarda matando , e der- 
rubando nelles á fua vontade até ouvirem 
a trombeta que os mandava recolher , o 
que fizeram com muita ordem. O Gover- 
nador defpedio os de cavallo a defcubrir 
o campo P enão vendo coufa alguma > vol- 
ta- 



Década IX. Cap. XXIII. 187 

taram com recado ao Governador, que lo- 
go mandou marchar o exercito pêra a Ci- 
dade do Mongas que eítava perro , e an- 
tes de chegarem a ella deram em hum ma- 
to muito ferrado , o qual mandou o Gover- 
nador derrubar pelos gaíladores que eram 
muitos , o que íe fez com grande brevidade. 
Eílando o Governador a cavallo encof- 
tado emhuma lança vendo trabalhar os ro- 
fadores , o que feria pelas dez horas do 
dia, levantando os olhos pêra todas as par- 
tes , vio hum nevoeiro que lhe pareceo fer 
pó de muita gente que vinha marchando, 
pelo que mandou com muita preíía vir pê- 
ra alli toda aartilheria, e ordenou fua gen- 
te , e das arvores cortadas ordenou huma 
tranqueira com grande brevidade , e não 
tardou muito que não viíTem aíTomarhuma 
grande quantidade de Cafres eftendidos em 
lua, que vinham cingindo com duas pontas 
todo o campo ; e remettendo aos noífos 
com grandes gritas , eítiveram quaíi todos 
baralhados. O Governador defceo-fe do ca- 
vallo , como fazia em todas as brigas , pêra 
fer companheiro nos trabalhos aos feus , e 
mandou que não difparaíTe a artilheria , e 
efpingardaria , fenao quando já os Cafres 
eíliveíTem perto, como fizeram, eílando já 
qual! todos baralhados (como já diífe): e 
daquella furriada foram tantos os mortos 

que 



188 ÁSIA de Diogo de Couto 

que ficou o campo cuberto delles , e em 

})aflando a fumaça fahio a gente de cavai- 
o, e as Companhias ; e dando naquella 
multidão defordenada dos Cafres , os foram 
desbaratando até voltarem de todo, ficando 
naquelle lugar da batalha mais de féis mil 
Cafres mortos , a fora outros muitos que fo- 
ram morrendo pelo caminho. O Governa- 
dor foi marchando pêra a Cidade , que já 
tinha fabido que eítava defpejada , á qual 
mandou pôr fogo, em que feconfumio por 
fer tudo madeira , e palha , e depois man- 
dou apagar o fogo , e fe agazalhou alli , 
porque eítava toda cercada de mato efpef- 
io , e tinha fó huma aberta por onde fe fer- 
via , a qual mandou entupir com arvores 
groífas , e naquella parte aífeftou a artilhe- 
ria pêra fua defensão , e alli curaram os 
feridos , que foram mais de feífenta , dos 
quaes íb dous morreram. Aqui acharam 
muita agua de que hiam faltos, pelo que fe 
detiveram finco dias , e ao fexto em rom- 
pendo a manha , tornaram os Cafres com 
mais groífo poder a commetter os noífos 
com muito grande determinação , e entre 
todos fe travou huma perigofa batalha que 
durou até áhuma hora depois do meio dia, 
em que os noífos fizeram neiles hum gran- 
de eftrago , ferindo elles alguns dos noífos ; 
e a Vafco Fernandes Homem , que era o 

Mef- 



Década IX. Cap. XXIII. 189 

Meílre de Campo , que andou fempre pe- 
leijando i\a dianteira com muito valor, lhe 
deram hum a frechada pelo hombro direi- 
to , que lhe paliou hum tiracolo do traça- 
do, que trazia atraveífadò , que era de três 
dobras de anta , irmã de huma coura que 
levava veílida , e lhe paliou a feta a outra 
parte meio palmo, de que muito tempo não 
pode bullir o braço, e aílim com a frecha 
empenado mandou a fua foldadefca até os 
Cafres fe recolherem pelas duas horas des- 
baratados ; e querendo-fe os noííbs alojar, 
e deícançar , appareceo hum Cafre com hu- 
ma bandeira branca , e foi muito feguro 
buícar o noflb exercito. O Governador man- 
dou hum pífaro a faber delle o que que- 
ria , o qual mandou dizer que o feu Rey pe- 
dia pazes , e logo o mandou trazer diante 
de íi, e o efperou em huma cadeira de ve- 
ludo fentado , e todas as Companhias em 
ordenança com fuás efpingardas , e murrões 
nas ferpes , e a artilheria affeftada diante 
delle , e os Condeítaveis com feus botafo- 
gos nas mãos. Eílava o Governador com 
hum jazerão mui forte com fuás mangas , 
huma efpada de prata a tiracolo , e hum 
pagem junto delle com hum efcudo de 
aço muito luzente; e pofto o Cafre diante 
delle, ficou embaçado fem poder fallar pa- 
lavra , nem faber refponder ao que lhe per- 

gun- 



ipo AS IA de Diogo de Couto 

guinavam, tremendo todo de pés , e mãos.' 
O Governador lhe mandou dar hum boca- 
do de doce, e hum copo de vinho, com o 
que tornou alguma ceufa em fi , e dilíe que 
o feu Rey Mongas mandava pedir pazes , 
e defejava muito de fer leu amigo; ao que 
o Governador lhe mandou refponder que 
elle hia caminhando , e que dalli a dous , 
ou três dias poderia mandar tratar do que 
queria , e com iílo o defpedio. Os nofibs 
de cavallo foram nas fuás coitas defeubrir 
o campo ; e vendo que nada apparecia, 
defeançáram aquella noite , e ao outro dia , 
tanto que amanheceo, levou o exercito, e 
foram marchando até quaíí noite , e fe alo- 
jou em hum muito bom íitio , em que ti- 
nham muita agua , e logo chegaram dous 
Cafres , e difleram ao Governador que o 
Mongas lhe mandava pedir licença pêra 
tratar de pazes , e que fe tinha neceílida- 
de de mantimentos que lhos mandaria. O 
Governador lhe mandou dizer que as pa- 
zes fe fariam a feu tempo , e que elle le- 
vava mantimentos em abaífança. Eítando 
nefías práticas fe foltou hum camello , e 
veio fugindo pêra a tenda do Governador, 
e apôs elle vinha o que tinha cuidado del- 
le pêra lhe lançar hum cabrefto , e o ca- 
mello parou , e começou a roncar , e le- 
vantar opefcoço, que era muito comprido, 

e 



Década IX. Cap. XXIII. 191 

c abrir as ventas. Os Cafres do Mongas , 
que viram aquella tão grande alimária, que 
naquella Cafraria não havia , foi tamanha 
o leu medo que fe foram metter na tenda 
do Governador, e por baixo das eítancias 
debruçados no chão o eílavam vendo com 
admiração. O Governador fe levantou , e 
foi andando pêra o camello até chegar a 
elle , que o elperou muito domeftico , elhe 
fez lançar o cabreílo ; e tornando-fe aflen- 
tar, mandou chamar os Cafres, que vieram 
como pafmados , e perguntaram á língua 
que alimária era aquella. O Governador lhe 
mandou dizer que daquelles trazia muitos , 
e que não comiam outra coufa fenao car- 
ne de gente , e que aquellc lhe vinha di- 
zer da parte dos outros que de nenhum 
modo fizeífe pazes com o Mongas, porque 
lhe faltaria o comer , e que todos os Ca- 
fres que nas batalhas paífadas lhe mataram 
os noílos , elles os comeram , e que efpe- 
ravam comer todos os mais. Os Cafres ba- 
teram duas , e três vezes as mãos , que he 
o feu final de grande admiração , e pedi- 
ram ao Governador que pediíTe áquellas. 
alimárias que não comeílem mais gente do 
Mongas , que elles lhe trariam muitas va- 
cas pêra fe fuftentarem , o que veio doCeo 
aos noííos , porque já não tinham com que 
fe fuítentar , e mandou dizer aos Cafres que 

el- 



lyi ÁSIA de Diogo de Couto 

elle rogaria áquellas alimárias que fe fuf* 
tentafTem , e contentaífem fó com raças , e 
não comelíem mais a gente do Mongas , 
ecomiílo osdefpedio, dizendo-lhes que el- 
le hia pêra a Cidade do feu Rey , e que 
lá fe viriam. Os Cafres foram faltando pal- 
mados , e foram contar tudo ao Mongas , 
que não ficou menos pafmado queelles. O 
Governador foi marchando com grandes 
neceffidades de provimentos , e fó havia al- 
gumas vacas de que piedofamente fe fuf- 
tentavam; e vendo-fe o Governador em ta- 
manho aperto , por confelho de todos tor- 
nou a voltar pêra o rio , e em três dias 
chegaram (co,m grandes neceffidades) ás ter- 
ras de hum fenlior chamado o Rombo , que 
fenhorea de Lapatá pêra o forte de Tete, 
ealli fe alojaram ao longo do rio, onde ef- 
tiveram nove, ou dez dias paliando efpan- 
tofas fomes ; e chegou o aperto a tanto , que 
fe mettêram os noífos pelos matos a buf- 
car algumas hervas que coziam, e efparra- 
gadas com fal as comiam. O Governador 
defejou de mandar recado a Ruy de Mel- 
lo , que ficou na Ilha com a gente , e baga- 
gem ' y porém não havia embarcação em que 
fe pudeífe ir , e huns Cafres lhe trouxeram 
huma tão pequena que não cabia nella mais 
que o negro que remava, e nella efcreveo 
3 Ruy de Mello que logo lhe mandaífe to- 
das 



Década IX. Cav. XXIII. t$$ 

das as embarcações que houvefle carrega* 
das de mantimentos : o que elle fez lego i 
e lhe mandou féis embarcações grandes c'ai> 
regadas de mantimentos 5 milho, e outros 
legumes , o que tudo foi recebido dos nof- 
fos com grandes feitas. O Governador na- 
quelle mefmo dia mandou paliar da outra 
parte do rio huma Companhia de folda- 
dos , cavallos , camelios , e toda a baga-* 
gem , e munições , e artilheria , e por der- 
radeiro fe panou toda a gente , e elle no 
cabo , e da outra parte mandou o Gover- 
nador marchar o exercito de longo do rio i 
e ao outro dia fe metteo pelo certão até 
chegarem a huma povoação chamada Ham- 
boa , e por eíte caminho lhe levaram os 
Cafres muitas coufas de comef , e em qua- 
tro dias chegaram a huma povoação , on- 
de fe agazalháram fem fobrefaltos , e ao 
dia feguinte mandou ao Meftre de Campo 
que foíle deítruir duas Cidades levantadas, 
as quaes elle aíTolou , e deftruio. Tanto 
que Vafco Fernandes chegou, tratou o Go- 
vernador de ir em peílba a Moçambique, 
porque teve cartas que António Pereira Bran- 
dão eítava como levantado , e que tratava 
de o não prover com o que de Goa lhe 
mandaífem , e fez apreífar ao Governador 
a eíta jornada huma carta , que certo Fi- 
dalgo lhe moítrou , a qual lhe tinha eferi- 
Couto. Tom. V. P. iL N to 



194 ÁSIA de Diogo de Couto 

lo o meímo António Pereira Brandão ; e 
como o remédio daquella Conquiíla eftava 
em até virem provimentos de Moçambi- 
que, e a perdição em lhe faltarem, como 
eftava certo , fe elle não foífe , deixando 
Vafco Fernandes Homem com todos os feus 
poderes, elle fe embarcou em três vogues, 
e algumas Almadias , com algumas peífoas 
que pêra ifíb elegeo , e o Padre Francifco 
de Monclaros , e fe foi a Luábo embarcar 
em alguns pangaios que lá eitavam , e em 
poucos dias chegou a Moçambique , e des- 
embarcou em NoíTa Senhora do Baluarte , 
onde fe ordenou , e fe deteve até lhe def- 
pejar António Pereira Brandão a Fortale- 
za , o qual foi vifitar o Governador a Nof- 
fa Senhora do Baluarte, e ao outro dia fe 
foi pêra a Fortaleza, onde começou a tra- 
tar do que lhe convinha. 

Dalli a menos de hum mez chegou o 
navio do contrato da índia com os provi- 
mentos peia aquella Fortaleza, e nelle vi- 
nha embarcado João da Silva , filho baftar- 
do do Governador Francifco Barreto , o 
qual houve em Baçaim fendo Capitão, pe- 
lo qual D. Jorge de Menezes , que depois 
foi Alferes mor, lhe mandou huns Capita- 
los infamatorios , que António Pereira Bran- 
dão mandou a EIRey , os quaes mandou á 
índia por vias pêra fe repartirem pelas náos , 

do 



Década IX. Gap. XXIII. i# 

tío que D. Jorge teve noticia : e pela ra- 
zão que tinha com o Governador Francif- 
co Barreto , porque foi cafado com huma 
irmã de feu pai, tanto fez naquellc nego- 
cio, que houve todos á mão , e huns lhe 
mandou , e outros guardou* O Governador 
abrio os Capítulos , e vio que nêlles dizia 
a EIRey mil infâmias , e falildades contra 
elle, devendo-lhe António Pereira Brandão 
mais que todos os homens ; e porque fe 
veja a ingratidão deite homem, o darei a 
conhecer. Eíle Fidalgo foi aquelle que em 
Maluco fez aquellas diabruras , fendo D. 
Duarte Deça Capitão , como na minha fe- 
tima Década no terceiro Capitulo do . . • 
Livro fe contém, pelas quaes coufas EIRey 
o mandou ir prezo pêra o Reyno , e lhe 
confifcou a fazenda , e fe proceífou contra 
elle , e fahio degradado pêra Africa por 
toda a vida , que não devia fer muita , pois 
tinha naquelle tempo oitenta annos deida- 
de; e fabendo elle que Francifco Barreto 
hia pêra a Conquifta das Minas , fe foi ter 
com elle , e lhe pedio quizeife haver de 
EIRey commutaçao daquelle degredo pê- 
ra a Conquifta , porque defejava de o acom- 
panhar. Francifco Barreto o alcançou de 
EIRey, e o levou comíigo, e em Moçam- 
bique o deixou por Capitão daquelia For- 
taleza y dizendo-lhe que lha dava pêra tU 
N ii rajr 



196 ÁSIA de Diogo de Couto 

rar rtella vinte mil cruzados com que ca- 
lar huma filha que tinha , e em pago def- 
tes benefícios lhe urdia huma tamanha trai- 
ção. O Governador ao outro dia foi ou- 
vir MilTa á Ermida do Efpirito Santo , que 
he defronte da Fortaleza velha , que fíca 
em hum penedo fobre o mar, pêra a qual 
fe fervem por huma ponte , e ao entrar 
delia diífe a todos os que o acompanha- 
vam que fe ficaífem , e levou fó comíigo 
a António Pereira Brandão ; e entrando na 
Ermida , fez oração , e ouvio Mifla , e de- 
pois fe tornou pêra fora , e fe encoltou a 
Jhum efteio , e puxou pelo António Pereira. 
Algumas peíToas me dilferam que viram a 
Francifco Barreto concertar hum punhal de 
orelhas que levava na cinta , e diífe o que 
quer que foi a António Pereira Brandão , 
o qual fe lhe lançou no chão , e o abra- 
çou duas , ou três vezes pelas pernas. O 
Governador fe abaixou todo , e o levan- 
tou ; e mettendo a mão na algibeira 5 tirou 
os feus Capitulos que mandava a EIRey -> 
e em elle os vendo , pafmou , e rebentou 
.em lagrimas , lançando-fe-lhe aos pés , pe- 
dindo-ihe mifericordia com tão grandes fo- 
luços , que os ouviram os que eftavam af- 
faítados. O Governador, que tinha hum co- 
ração muito maviofo , e as entranhas cheias 
Áe brandura , voltou as coitas , e foi andan- 
do 



Década IX. Cap. XXIIL 197 

do pêra a Fortaleza com os olhos arraza- 
dos em lagrimas , como fe elle fora o cul- 
pado , e tão affrontado , que parecia vinha 
de algum grande trabalho , e aò pé da es- 
cada fe defpedio de todos ; e chamando o 
Ouvidor, fe encoftou ahumefteio dajanel- 
la , e alli lhe deo conta de tudo o que paf- 
fava , e lhe moílrou os papeis que Antó- 
nio Pereira mandava a EIRey > e lhe dif- 
fe que naquella tarde mandaíTe chamar as 
peífoas que teílemunháram na inquirição 
daquclles Capitulos , o que o Ouvidor fez , 
e diante do Governador fe retraítáram , e 
pediram perdão, dizendo que António Pe- 
reira Brandão , fendo Capitão , os mandara 
chamar hum e hum, e lhes dava juramen- 
to , tendo com figo hum Efcrivao , e manda- 
va efcrever o que queria , e por força os 
fazia aíTignar ; e de tudo ifto mandou fazer 
hum auto , em que todos fe aJlígnáram , e o 
guardou pêra fua fatisfação , e de António 
Pereira não tratou mais , porque lhe lem- 
brou que era de oitenta annos $ e que ti- 
nha filhos. 

Sendo tempo do Governador fe partir 
pêra Sena , defpedio duas navetas carrega- 
das dos provimentos que trouxe da coita 
de Melinde, , e elle depois fe partio com 
todas as embarcações que havia , deixando 
por Capitão Lourenço Godinho , Feitor , e 

Al- 



198 ÁSIA de Diogo de Couto 

Alcaide mor daquella Fortaleza, e em bre- 
ves dias chegou a barra de Quilinamé , e 
pelo rio affima fe foi até á Fortaleza de 
Sena , onde foi muito bem recebido de to- 
dos , e eftando dando ordem a muitas cou- 
fas , depois de fete , ou oito dias de chega- 
da , fe foi ter com elle o Padre Franciíco 
de Monclaros , e lhe requereo em público 
da parte de Deos, e deElRey que deixaf- 
feaquella Conquiíía, em que tinha engana- 
do aElRey, e que da gente que nella era 
morta , e morrefíe 9 elle havia de dar a 
Deos larga conta, O Governador muito 
apaixonado lhe diíTe que o deixaíTe , e fe 
foíTe muito embora; e deitando-fe logo em 
huma camilha, voltou o roíto pêra a pare-* 
de , e interrompeo em efpantofos fufpiros , 
e ais , e toda a noite paliou naquellas an- 
ilas fem dormir, nem quietar, e ao outro 
dia pela manha mandou chamar ao Padre 
Eftevão Lopes, Companheiro do Padre Fran- 
cifco , que era feu Confeífor , e fe confek 
fou com elle muito devagar , e veíHo-fe 
muito cançado; e encoftado a huma cana, 
foi á Ermida , onde ouvio MiíTa , e com- 
mungou com grande devoção , e dalli fe re-» 
çolheo pêra cafa , e fe recolheo fem febre , 
nem frio, nem outro achaque algum, mais 
que aníias , fufpiros 5 voltas J e inquieta-* 
goes^ fem em todo o dia comer mais quçí 

hum | 






Década IX. Cap. XXIII. 199 

hum caldo de gallinha ; e tanto que anoi- 
teceo, tornou a chamar oConfeííbr, e com 
elle foi o Padre Francifco , que eítiveram 
com elle até ás dez horas , e já neíte tem- 
po tinha as pernas muito frias dos joelhos 
pêra baixo , e com lhe applicarem muitas 
toalhas quentes , e esfregações , nada lhe 
aproveitou, porque era frialdade da morte. 
Os Padres entendendo que morria , eítive- 
ram toda a noite em huma cafa de fora; 
e fendo pela meia noite, defpedio os cria- 
dos que eílavam de joelhos ao redor da ca- 
ma , porque queria repoufar , e virou-fe pê- 
ra a parede , e dalli a quaíi huma hora deo 
hum grande ronco , ao qual todos acudi- 
ram , e o Confcílbr lhe metteo a candeia 
na mão, mas já eítava de todo concluído: 
os feus o prantearam bem , porque nelle. 
perdiam feu remédio. Sobre eiía morte não 
na que foliar, mais que contar o cafo co- 
mo paíTou , que pudera dizer muito , mas 
nem ilTo lhe ha de dar a vida , nem ha de 
acabar com os Religiofos que deixem de 
fe metter no governo temporal que eíles 
ignoram , porque o não aprenderam ; e he 
coufa muito differente rezar, dizer MilTa, 
e confelíar , de governar armas , e difpôr. 
as coufas da Republica, nem feus Prelados 
hão de remediar nunca ifto , de que por mui- 
tas vezes foram advertidos. 

Fa- 



aoo ÁSIA de Diogo de Couto 

Falecido Francifco Barreto, foi levado 
fem pompa a enterrar na Ermida de S. 
Marçal , onde antes de fer lançado na co- 
va fe abrio huma fuccefsao que trazia em 
huma boceta fua , e achou-fe nella Vaíco 
Fernandes Homem , que era Meílre de Cam- 
po , na qual EIRey mandava que fuccedef- 
fe a Francifco Barreto no mefmo lugar com 
os mefmos poderes , e titulo ? de que lo- 
go tomou poífe , e deo a homenagem , e 
depois fe enterrou feu corpo, A fazenda 
de que fe lhe fez inventario , foram cento 
e vinte mil cruzados , que devia ás partes , 
a quem a tomou pêra os gaftos da Conquif- 
ta , náo lhe ficaram filhos , e deixou por 
fua herdeira , e de feus ferviços a D. Fran- 
cifca de Aragão , fua fobrinha , que ainda 
hoje vive , e foi cafada com D. João de 
Borja , do qual teve D. Carlos de Borja 
Conde de Ficalho , Fidalgo de muitas par- 
tes. Foi eíle Fidalgo Francifco Barreto fi- 
lho de Ruy Barreto , foi cafado duas ve- 
zes , a primeira com huma irmã de D. João 
de Menezes , Alferes mor do Reyno , a 
quem chamavam o Tubara , da qual teve 
dous filhos , Ruy Nunes Barreto, que foi 
com feu pai a Conquifta , e faleceo na Se- 
na a primeira vez que lá foi ; e Luiz da 
Silva que mataram em Goa em hum def» 
afio em tempo do Vifo-Rey D. Antão de 

No 






Década IX. Cap. XSQIL aor 

Noronha: da fegunda vez cafou, como já 
difle , com hum a irmã de D. Luiz de Ataí- 
de , Conde de Atouguia , de quem não teve 
filhos. Foi eíte Fidalgo fempre grande pef- 
foa , e fempre os Reys fe fervíram delle 
em coufas grandes , veio á índia por Ca- 
pitão de Baçaim , e depois por Governa- 
dor da índia j e indo pêra oReyno, o fez 
EIRey General das galés do Reyno , que 
ainda era quando faleceo, e depois de vir 
á Conquiíta deitas Minas , a Diogo Lopes 
de Siqueira , a quem as encarregou em lua 
aufencia : foi General da Armada que EI- 
Rey D. SebaíUao fez contra o Pinhão , quan- 
do D.Garcia de Toledo o tomou, na qual 
jornada Francifco Barreto foi com grande 
apparato , gaítos , eferviços, e nocommet- 
timento do Pinhão foi dos que mais fize- 
ram , e a quem fe deve igual gloria , e a 
D.Garcia de Toledo, como EIRey D. Fi- 
lippe o Prudente moítrou bem em huma 
carta que lhe efcreveo , de que logo darei 
relação. Os criados deite Fidalgo lhe le- 
varam pouco depois afua oflada, e de feu 
filho Ruy Nunes Barreto pêra Moçambi- 
que mettidas em hum caixão com tanto fe- 
gredo que nunca fe foube ; e porque acha- 
ram as náos de D. Francifco de Soufa de 
arribada , em que hia o Vifo-Rey D f An- 
tónio de Noronha 5 lha embarcaram logo 

per 



202r ÁSIA de Diogo de Couto 

pêra o Reyno, e chegando a Lisboa, que 
fe deo o recado aElRey, fentio muito fua 
morte , e mandou que fe não buliííe em 
fua ofTada íem ordem fua , e logo a deo 
pêra fua defembarcaçao , mandando a Dio- 
go Lopes de Siqueira , fobrinho de Fran- 
cifco Barreto , a quem tinha encommenda- 
doj e a toda a Corte, que o acompanhaf- 
fem : e feus parentes lhe ordenaram as pom- 
pas funeraes , e os acompanhamentos de 
todas as Ordens Mendicantes , Cabido da 
Sé , e Cleriíia ; e no dia ordenado foi Dio- 
go Lopes de Siqueira com as galés tolda- 
das de negro , e trouxe a oífada até o cães 
da ribeira , onde a efperava toda aquella 
fabrica , e a Irmandade da Mifericordia , 
e na tumba foi levado aos hombros de ai-» 
guns Senhores Cavalleiros da Ordem de 
Chrifto , da qual elle era , e com a maior 
pompa fúnebre que pode fer o levaram a 
S. Lourenço , onde tinha feu tumulo junto 
com fua mulher D. Brites de Ataíde : e por 
efta carta que lhe efcreveo EIRey Fiíippe 
Prudente fe poderá ver a eílimação em que 
tinha efte Fidalgo ; porque depois de Fran- 
cifco Barreto vir da jornada do Pinhão de 
acompanhar D. Garcia de Toledo , queren- 
do EIRey D. Filippe gratificar-lhç aquelle 
fervi ço , mandou-fe retratar emhuma lami- 
na de ouro com huma argola, e cadeia grof* 

fa 



Década IX. Cap. XXIII. 203 

fa com que mandou vifitar a Franciíco Bar- 
reto , e lhe mandou a carta feguinte. 

Cópia da Carta de EIRey Filippe. 

EL buen íucceílb de la emprefa dei Pe- 
non , yo íe pongo más a vueftra fortu- 
na, que a mi potencia, íiempre le efperé 
tal como eftuve certificado que hiva D. Gar- 
cia de Toledo ayudado de vuefíro fabor. 
El trabajo que en ello tuviftes , os agra- 
dezco mucho , y os quedo por el en mu- 
da obligacion , y no lupe ai prefente con 
que os lo pueda pagar, y agradecer, íino 
embiando-os un retrato de mi perfona , eri 
una cadena, para que con ella me tengais 
prezo todos los dias de vueftra vida para 
lo que de mi os compliere. Madrid. 

Tinha eíte retrato , e cadeia quatro mil 
cruzados de valor , e nunca foube que fo- 
ra defta peça , que era mais digna de an- 
dar por timbre na cafa dos Barretos , que 
outros muitos que outras cafas tem. 



CA, 



204 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XXIV. 

Do que fuccedeo ao Governador Vafco Fer~ 

nandes Homem depois que tomou pojfe : 

e como fe partio pêra as Minas 

de Manichds. 

ENtregue o Governador Vafco Fernan- 
des Homem das coufas daquella Con- 
quifta ? tratou de a profeguir, mas o Padre 
Franciíco de Monclaros que lhe não pare- 
ceo bem 5 ou porque fe queria metter em 
tudo como fuperior daquella jornada , per- 
luadio a Vafco Fernandes Homem que de- 
íiftifle delia , e fe foíle pêra Moçambique , 
o que elle fez contra fua honra , e contra o 
ferviço deElRey, no que lhe ponho maior 
culpa que ao Padre ; e aífim lho diífe a el- 
le mefmo , porque me encontrei com elle 
em Moçambique , e levou comfigo a fabri- 
ca , e foldadefca dos rios ; e chegando 
áquella Fortaleza , veio ter a ella em huma 
galeota da índia Francifco Pinto Pimentel , 
primo com irmão do Governador Vafco 
Fernandes Homem, o qual fabendo o que 
era pafíado , e como depois de fucceder 
naquella Conquiíta , a deixara , e fe viera pê- 
ra aquella Fortaleza 5 lho eftranhou , e re- 
prehendeo de fazer aquella mudança fem 
ordem de EIRey, porque eílava obrigada 



Década IX. Cap. XXIV. 20? 

a lhe dar conta da.morte de Francifco Bai> 
reto , e da fua fuccefsão , pêra elle prover 
como mais foíle feu ferviço , e que entre 
tanto correíTe com a.Conquifta, e foffe en- 
facar as Minas pêra dar razão a EIRey de 
tudo 5 lembrando-lhe que havia tão pouco 
tempo que EIRey mandara cortar a cabe-^ 
ça a D. Jorge de Caílro por largar a For- 
taleza de Chalé , e que o mefmo faria a el- 
le por largar aquella Conquiíla , em que 
tanto cabedal eftava mettido , e que fizef- 
fe o que pudefle até acabar a vida em fer- 
viço do feu Rey , a quem eftava tão obri- 
gado pela confiança que delle fizera em fuc- 
ceder a hum tão valerofo , e prudente Go- 
vernador, cujo lugar havia de fubftituir, e 
tratar de o imitar , principalmente na refo- 
lução ; e que não déífe mais ouvidos a Re- 
ligiofos nas matérias de guerra , pois fe não 
creáram nella , nem a verfavam , e que lhes 
diífeífe , quando o aconfelhaflem nefte par- 
ticular , fe feria acertado , fendo elles Letra- 
dos ? perguntarem a elle Governador maté- 
rias da Sagrada Theologia , pêra que lhas 
decidiífe, não eftudando elle, nem profef- 
fando fciencias : que o acertado era cada 
hum ufar do feu officio , e das faculdades 
que profeífavam, porque tudo o mais fer- 
via de confusão. O Governador Vafco Fer- 
nandes Homem entendeo que IIiq faltava 

co- 



io6 A Si A de Diogo de Coirro 

como parente , e amigo , e íogo fe prepa- 
rou pêra fe tornar. Neíte tempo chegaram 
as náos do Reyno , de que veio por Capi- 
tão mor Ambrofio de Aguiar Coutinho , nas 
auaes o Padre Francifco de Monclaros , e 
íeu Companheiro fe embarcaram pêra o 
Reyno , e o Governador fe percebeo del- 
Jias de muitas coufas neceífarias pêra fua 
jornada , e nelias fe foram muitos foldados 
efcondidos dos mais velhos da Conquiíla , 
que ilto fez a vinda do Governador Vaico 
Fernandes Homem a Moçambique. 

Chegado o verão , embarcou-fe o Gover- . 
nador Vafco Fernandes Homem em todos 
os pangaios que havia , com toda a fabri- 
ca pêra a Conquifta, e quinhentos homens 
com algumas peças de campo , e todas as 
mais coufas que lhe eram neceíTarias , e em 
poucos dias foi a Çofala , por onde era o 
verdadeiro caminho pêra as Minas que El- 
Rey mandava defcubrir , e não por Cua- 
ma , como fizeram ir ao Governador Fran- 
cifco Barreto, que foi a caufa de fua per- 
dição , e morte. Poílo o Governador em 
Çofala, tratou da jornada que havia de fa- 
zer pêra as Minas de Manicá , que eítavam 
no Reyno de Chicagá, que confina com o 
do Quiteve pelo certão , e eram grandes 
inimigos ; e porque havia de paífar pelas? 
terras de Quiteve, que he grande Senhor, 

e 



Década IX. Cap. XXIV- 207 

e maior que todos os Cafres daquellas par- 
tes , tirando o Manomotapa , o mandou dian- 
te vifitar com alguns prefentes , e fazer-lhe 
a faber que havia de paíTar por fuás ter- 
ras pêra as de Chicagá feu inimigo , que 
houveíTe por bem dar-lhe franca paíTagem , 
c que aífim ficariam correndo os commer- 
cios mais largamente do que antes. O Qui- 
teve não lhe pareceo bem aquella jornada 
que queria o Governador fazer, evifitaque 
de fua parte fe lhe fazia ; porque como ti- 
nha grandes ciúmes do commercio dos Por- 
tuguezes , que por via de Çofala lhe leva- 
vam as roupas , e contas que pêra eíles Ca- 
fres he o mais rico thefouro que pêra nós , 
o que o Governador hia defcubrir , recean- 
do que tanto que o Governador defcubrif- 
fe as Minas , fe levaíTe toda aquella fazen- 
da pêra o Reyno de Chicagá , e que ficaf- 
fe elle perdendo os proveitos que tinha 
delia , não refpondeo bem á vifita. O Go- 
vernador como fez aquillo fó por cumpri- 
mento , deo-lhe pouco do Quiteve moílrar 
pouco gofto de elle paliar por fuás terras > 
e logo fe fez preítes pêra caminhar na or- 
dem que Francifco Barreto o fez pelas ter- 
ras do Mongas 5 e como o Governador 
Vaico Fernandes Homem tinha fido Me£ 
tre de Campo, por lua ordem fe fazia, e 
obrava tudo , e aífím foi caminhando com 

o 



208 ÁSIA de Diogo de Couto 

o feu exercito bem ordenado ao longo do 
rio , que entra por toda aquella Cafraria , e 
corta as terras do Quiteve , levando por el- 
le muitas embarcações com a bagagem ; e 
entrando pelas terras do Quiteve , foi im- 
pedido de muita gente, com que lhe man- 
dou dar alguns affaltos , nos quaes os nof- 
fos fe houveram tão cavalleirofamente , que 
em todos os desbarataram com morte de 
muitos , de que elles faziam pouco cafo ; 
porque como eftavam em fuás terras , logo 
fe refaziam em dobro \ mas quantos mais 
fe ajuntavam, mais damno recebiam da ar- 
tilheria , e arcabuzaria. Vendo o Quiteve 
que lhe não era poíTivel defender a paíTa- 
gem por armas \ quillo fazer por outras 
mais poderofas , que eram as das fomes, e 
affim mandou eíconder todos os mantimen- 
tos , e defpovoar todas as povoações por 
onde os noííbs haviam de paífar , e entu- 
lhar os poços de agua , por onde fe vê que 
ainda que são Cafres > não são tão bárba- 
ros que não ufem deites ardis , como o 
fazem os Reys da Per/ia, que são hoje tão 
políticos , quando os Turcos lhes entram 
por feusReynos, que com lhes impedirem 
os mantimentos, e queimarem os campos, 
os desbaratam fem golpe de efpada , co- 
mo fe verá pelo difcurfo das minhas Dé- 
cadas \ mas o Governador Vafco Fernanr 

d es 



Década IX. Cap. XXIV. 209 

des Homem não desfaleceo , nem deííílio 
da jornada, mas por todas eftas fomes, è 
fedes foi paíTando até Simbaoé que era á 
fua Corte , a qual achou defpejada, por el- 
le fe ter recolhido com fuás mulheres , e 
filhos ahumas terras muito fragofas , e for- 
tes. O Governador como fe vio naquella 
Cidade , lhe mandou pôr o fogo, em que fe 
perdeo pouco ; porque fuppoíto que era 
grande , tudo era palha , e madeira : dalli 
foi caminhando mais folgado > e em dous 
dias chegou ás terras de Chicagá , onde ef* 
tavam as minas , o qual já lábia de lua vin- 
da , e de tudo o que paftbu pelas terras àú 
Quiteve; e querendo grangear o Governa- 
dor , o mandou vifitar ao caminho com mui- 
tas vaccas , mantimentos , e frutas , certificàn- 
do-lhe eftar muito alvoroçado pêra o ver 
cm feu Reyno pêra o fervir , como veria* 
O Governador Vafco Fernandes Homem 
lhe refpondeo bem , e com bom prèfente > 
e ao entrar na fua Cidade o fahio a rece- 
ber com muitas feitas , e todos os dias que 
alli efteve o tratou com muitas moíiras de 
amizade , e proveo todo o exercito baílante- 
in ente de tudo o neceíTario y e fizeram pazes ; 
e huma das condições , e a principal , foi , que 
pudeífem ir todos os Portuguezes que quizeí- 
fem a feu Reyno livremente com luas fazen-' 
das , e paliar ás Minas a refgatar ouro* 
Couto. Tom. V.P.iL O Os 



2 io ÁSIA de Diogo de Couto 

Os noflbs tanto que fe viram naquellà 
terra , de que havia fama que tudo era ou* 
ro , cuidaram que logo o achaííem pelas 
ruas , e matos , e que carregaflem delle. O 
Governador partio logo pêra as Minas , on- 
de efteve alguns dias j e vendo a difficulda* 
de com que os Cafres o tiravam das en- 
tranhas da terra , com tamanho rifco que 
quaíi ficavam enterrados cada dia muitos 
nas Minas que arruinavam por lhes não fa- 
berem fazer repairos , e ainda daquelia ter- 
ra que tiravam enchiam delia as gamelas , 
e a hiam lavar aos rios , e cada hum tira- 
va quatro , ou finco grãos de ouro, tudo 
pouquidade , e pobreza. Outros pelo tem- 
po do inverno vam pelos pés da ferra, por 
onde defcem abaixo as enchurradas da água , 
como os rapazes no nolfo Portugal bufcam 
alfinetes, e depois que fécca, acham algu- 
mas lafcas , e grãos. Vendo o Governador 
aquella pobreza , e que pêra fenhorear 
aquellas Minas era neceífario grande fabri- 
ca , e infinitos negros pêra andarem naquel- 
le meneio ; porque como fe tira pouco ou- 
ro pelo modo que o elles bufcam : fendo 
muitos a iflb , tirar-fe-ha muito ; pofto que 
fe as Minas vieram a noílas mãos, que fe 
abriram , e profundaram até dar na veia, 
fempre fe tiraria grande quantidade; por- 
que, fegundo os que efcrevem das Minas, 

ás 



Década IX. Cap. XXÍV. «f 

ás vezes eftam doíis , e mais eítadios de- 
baixo do chão , e as veias do ouro fe ex- 
tendem quaíi quatro , e finco , e féis ; e ven- 
do o Governador que pêra enfacar aquel- 
le negocio , era neceíTario muito tempo , e 
muito vagar , o que elie não tinha , e fa- 
zerem-fe pêra abrir a terra grandes fábri-* 
cas , e máquinas , tratou de fe tornar , e 
confirmou novamente -as pazes com aqueL* 
leRey, e fe defpedio delle, que lhe man* 
dou dar tudo o neceíTario pêra a volta a 
troco de roupas , e tornou a defandar o ca^ 
minho ; e entrando pelas terras do Quite* 
ve , lhe mandou elle pedir pazes , e dar-lhe 
por fuás terras o que lhe fbíTe neceíTario', 
as quaes pazes Vafco Fernandes Homem 
lhe concedeo , e fe vio com elle y que lhe' 
fez muitas honras , e com elle aíTentou que 
deixaria paíTar pêra as Minas de Manicás 
aos Portuguezes com fuás fazendas , porque 
em fuás terras não havia ouro ; e que o Ca-» 
pitão de Çofala feria obrigada á dar-lhe 
por iíTo áquelles Reys duzentos pannos , que 
em noíTa moeda valeráõ duzentos toftões , 

Í)oílos lá por modo de prefente , a que el- 
es chamam Curves , e os Perfas Mocara- 
rios , e os Reys Mouros de todo o Orien^ 
te Xaguates. Concertado ifto , tornou-fe o 
Governador pêra Sena por mar, e em feu 
lugar fe dirá o que lhe fuccedeo. 

O ii CA- 



ii2 ÁSIA de Diogo de Cotjto 

CAPITULO XXV. 

Da grandeza do Reyno do Manomotapa] 
e de como Je ãividio. 

COmo entre eftes Cafres não ha eícri 
turas , em que fe poliam encommen 
dar a pofíeridade fuás coufas , não ha po 
der-fe íaber certeza do princípio deíle Rey- 
no do Manomotapa , nem eíles bárbaros 
fabem mais que dizerem que tiveram tan- 
tos Reys , fem faberem os annos que rei- 
naram , nem a origem de feu princípio ; mas. 
por conjediuras íe alcança que quando a 
Rainha Sabá quiz ir viíltar a EIRcy Sala- 
mão a Jerufalem j fora bufcar o ouro, que 
levara , a eílas Minas , aonde já havia Reys , 
e prefume-fe que lhe eram fujeitos : e ain- 
da naquellas partes da feira de Macapár, 
e Naberturá ha hoje aquelles grandes edi- 
fícios ., que ella mandou fazer pêra íi , todos 
de cantaria, a que os Cafres chamam Sim- 
baoê , que fam como baluartes fortes , pelo 
que elles contam fempre que o Manomo- 
tapa fenhoreou toda aquella Cafraria def- 
de o Cabo das Correntes até o grande rio 
de ... . que divide a terra de Mocanga | 
(que aílim chamam toda a do Manomota- \ 
pa da Moíimba) ; e fuccedendo naquella par- 
te da Cafraria os Reys huns aos outros por j 






Década IX. Cap. XXV. 213 

linha direita até vir a hum que teve qua- 
tro filhos , fem faberem dizer quantos ân- 
uos ha, o qual fendo velho, repartio feus 
Eftados com os filhos pêra es governarem , 
e a hum deo o Reyno deQuiteve, de que 
até agora foliámos , a outro o Reyno Se- 
danda, que corre deite Quiteve pêra o Ca- 
bo das Correntes , a outro o -Reyno Chi- 
cagá, quehe ornais rico de todos, porque 
nelle eftam as Minas de Manicás $ e Bli- 
tuá, e outras que fam aquellas aonde che-* 
gou o Governador Vafco Fernandes- Ho- 
mem , e o filho mais velho ficou com elle 
na Corte. Por morte defte Manomotapá fe 
levantaram os filhos com os Reynos que 
governavam , e tomaram appellidò de Reys 
delles dos mefmos Reynos que poííuiam, 
como entre nós dizemos Rey de Portugal, 
Rey de Caftelia , Rey de França , aííhn fe 
intitularam Rey deChicagá, Qyiteve, Se- 
danda , que os feus próprios nomes nin- 
guém lhosfoube, e cuido que os não tem, 
porque os não nomeam, fenão pelos fmaes 
que a natureza lhes poz , como fe he tor- 
to , manco , dente menos , ou qualquer ou- 
1 tro defeito que tiver, e infiro ifto de elíes 
i não nomearem aos Portuguezes que lavam 
| por feus nomes, fenão pelos finaes que tent 
I no corpo , ou veílidos. Apoíiados os filhos 
ido morto dos Reynos que governavam, o 

que 



314 ÁSIA de Diogo de Couto 

que íuccedeo no Império, ficou com maior 
quinhão que todos três , porque poíTue du- 
zentas léguas de comprimento , e outras 
tantas de largura, e o comprimento hedef- 
de aquella famofa Lagoa, que jaz nomeio 
do Sertão até fe metter no mar nos rios 
de Luabo até o de Tenculó, que fam do- 
ze léguas de hum ao outro. Os negros de 
Butuá , que he do Chicangá , aonde o Gover- 
nador chegou, por fem dúvida fe tem que 
commerceam com os de Angola, eque to- 
do p ouro que vai daqui pêra o Reyno , 
eftes Buttiás lho levam , porque lhe vam 
comprar roupas a troco delle , e pêra mim 
tenho que não fam cem léguas de cami- 
nho , porque como aquella terra fe vai ef- 
treitando até fenecer no Cabo de Boa Es- 
perança, aííim deve fer; e deixa ifco de fe 
laber, porque fomos Portuguezes , que não 
fabemos enfacar as coufas , nem ainda das 
que temos deportas adentro, como o rio 
deSurrate, e outros, onde ha cento e tan* 
tos annos que commerceamos , fe bem ho-^ 
je melhor que nós os Hollandezes , e In- 
glezes , os quaes a primeira vez que lá fo 
ram , defcubríram logo furgidouros entre 
baixos , e reftingas , onde eftam tão fegi 
ros , como em fuás cafas , das noífas Arma 
das , que lhes não podem fazer damno , 
quaes os noífos que cada dia entravam , 

ia* 






Década IX. Cap. XXV. 215- 

fahiam não fouberam fenao agora que os 
Inglezes no-los moftráram ; e não me en- 
vergonho de dizer iílo , porque todas as 
nações fabem já que nós íomos os bárba- 
ros , e elles os políticos , e até eítes Cafres 
buçaes nos tem nefía conta. . 

CAPITULO XXVI. 

Das coufas que nefte tempo fuccedêram fo* 
bre o cativeiro de í). Henrique de 

Menezes. 

DOm Henrique de Menezes, que eftava 
retendo na Corte do Idalxa com to- 
dos os cativos , eícreveo ao Governador An- 
tónio Moniz que devia tratar de feu ref- 
gate , e íòltura , com mandar hum Embai- 
xador ao Tdalxá , que iílo fó efperava ; e lo- 
go após iílo , que foi em Junho , chegou 
huma carta do mefmo Idalxá ao Governa- 
dor fellada com o leu fello, e chapa, cou- 
fa que elle poucas vezes fazia , em que 
lhe pedia que pêra comporem as coufas 
de entre ambos lhe mandafle hum Embai- 
xador pêra com elle as tratar, e que faria 
tudo o que lhe tinha pedido : e vendo el- 
le a neceflidade em que a Cidade eftava de 
mantimentos , e marinheiros pêra as Arma- 
das que fe haviam de fazer y ordenou lo- 
go 



2i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

go de o mandar, e elegeo pêra iííb a Ma- 
noel de Moraes , porferpeííoa mui conhe- 
cida do Idalxá , e rico , o qual partio de 
Goa depois de chegarem as náos do Rey- 
110 , e foi bem acompanhado , e por elle 
mandou o Gçvernador ao Idalxá algumas 
peças curiofas. Eíle homem foi mui bem 
recebido do Idalxá ; e tratando os negó- 
cios que levava a cargo , os concluio com 
muita fatisfaçao, aílim daquelle Rey , co- 
mo do Eftado da índia , e os apontamen- 
tos , e pontos principaes do que aíTen ta- 
ram, ao diante íe verão: e pêra fatisfaçao 
do Governador foltou logo a Chriftovac 
do Couto que lá efcava , e o mefmo fez a 
D. Henrique de Menezes , e aos mais Por- 
tuguezes que com elle eftavam, que todos 
fe vieram pêra Goa. 

PaíTados alguns dias de Setembro , che- 
garam a Goa as náos do Rey no , de que 
veio por Capitão mor Ambrofio de Aguiar 
Coutinho , como no feu titulo fe verá : e 
entre as coufas que EIRey D. Sebaftião 
mandou prover, foi, que feprendeíTe a D. 
Jorge de Caítro pela entrega da Fortaleza 
de Chalé , e que na meza da alçada da ín- 
dia com os Deíembargadores da Relação 
foííe fentenceàdo , e executado publicamen- 
te, pelo que o foram prender ao Paço de 
Pangi 5 ou daX>ladre deDeos ; onde eftava 

apo^ 



Década IX. Cap. XXVI. 217 

apofentado com fua mulher , não faltan- 
do peííbas que o avifaílem , pêra que fe 
puzefle em laivo , como pudera pôr , met- 
tenclofe na cafa da Madre deDeos, o não 
quiz fazer , e fe deixou eftar muito fegu- 
ro até o levarem a eíie i e a fua mulher 
ao tronco de Goa, e logo feproceflbu con- 
tra elle, dando o Promotor da Juíliça feu 
Jibeilo, e provou-fe-lhe muito baftantemen- 
te que entregara a Fortaleza ao Çamori , 
com o qual tivera primeiro muitas intelli- 
gencias j e outras culpas , que outros tinham 
mais que elle , pelas quaes foi fentencea- 
do que morreíTe morte natural, efoífe de- 
gollado no pelourinho de Goa, a qual £en^ 
tença fe poz logo em execução : e o dia 
que fe havia de tirar a juítiçar , fe lança- 
ram muitos pregões pelo terreiro do Vifo- 
Rey , pela rua direita , e pelas mais públi- 
cas da Cidade, que nenhum homem Fidal- 
go fahiffe aquella manha fora de fuás ca- 
ias , e que toda a mais gente não fahiffe 
fora de cafa com armas , por evitarem al- 
guns alvoroços : e logo foi tirado o pobre 
velho de oitenta annos , e ao apartar-fe de 
fua mulher D. Fiíippa, que com elle eíta- 
\a preza , foi hum efpeétaculo efpantofo 
pêra todos, e de muitas lagrimas, e lafti- 
mas , e pelas ruas publicas foi levado ao 
pelourinho \ e^por ventura que foíle iílo de 

ai- 



ai 8 ÁSIA de Diogo de Couto 

alguns Fidalgos que na entrega daquella 
Fortaleza tiveíTem mais culpa que elle : juí- 
zo íecreto de Deos , chegar num Fidalgo 
daquella idade , do melhor confelho que 
houve na índia fempre , e que fervio to- 
da a vida aos B.eys com muita fidelidade, 
e amor , e que foi Capitão de Maluco , e 
de Cóchim muitas vezes , e de Chalé qua- 
íi toda a vida, no cabo de todos eftes me- 
recimentos vir a morrer degollado porcul- 
{)as que elle não tinha , e de que íe podia 
ivrar por inhabilitado já de juizo , cafo 
foi pêra encolher muito o juizo dos ho- 
mens , e não fiar merecimentos , faber , ida- 
de , nem em femelhantes coufas a eftas , 
porque em fim/ fam caducas , e pouco ver- 
dadeiras : e toda a minha vida ouvi dizer, 
e o alcancei por experiência , que o ho- 
mem que na índia viver muito , não efea- 
pará deitas duas coufas , ou de pobre , ou 
deshonrado , o que tudo efte pobre velho 
vio; e a Deos, e aos Reys não fe pergun- 
ta razão das coufas : e quem havia de per- 
guntar a hum tão bom Rey, como foi D. 
Sebaftião , por que caufa mandou eíle anno 
degoílar elte Fidalgo , e o anno feguinte 
mandar-lhe mercês , e eferever-lhe cartas 
honradas, e mandar-lhe dargazalhados pê- 
ra fe ir pêra o Reyno com, fua mulher? 
Aqui não ha que difeurfar 7 nem que lan- 

jar 



Década IX. Cap. XXVI. 219 

çar juizos , porque todos feram temerá- 
rios ' y mas nao deixarei de dizer ifto : Re- 
querendo certo Fidalgo, que fe achou na- 
quelle cerco de Chalé, que foi o que mais 
culpa teve, e o que primeiro aílignou na 
Fortaleza , fci refpondido no Reyno que 
lhe faziam mercê da Fortaleza de Chalé, 
e por derradeiro vi em poucos annos a el- 
le , e todos defpschados com Fortalezas 
grandes , e ricas. Ora deixemos difpór a 
Dcos , que fabe o que mais nos convém , e 
vamos dando conta das coufas mais necef- 
iarias. 

Ambrofio de Aguiar Capitão mór das 
náos do Reyno trazia muita fazenda , e 
nao podia desbaratalla , e receava lhe ficaf- 
fe a maior parte delia na índia ; e como 
era FidaJgo de grande induftria, pedio ao 
Governador paflaíTe huma Provisão pêra fe 
ordenarem em Goa humas fortes , como mui- 
tas vezes fe fazem na Europa , porque pe- 
la novidade do cafo haviam muitos de lan- 
çar nellas , e allim fe ficaria remediando. 
Concedeo-lha o Governador, ordenaram-fe 
Juizes- cafados em Goa 9 deo elíe das fa- 
zendas que tinha , as quaes fe avaliaram 
pelos preços ordinários , e cuido que vie- 
ram a fazer fomma de vinte mil pardaos , 
e logo fe publicaram as fortes por efta ma? 
Beira.. As coufas de feda,, grans, raxas, 

quar- 



aio ÁSIA de Diogo de Coitto 

quartos de vinho , balas de papel , e quar- 
tos de azeite, e outras couias defta quali- 
dade, cada forte duas tangas, que famfeis 
vinténs : e ha-fe entender que as peças de 
grã, e veludos, fetins , e outras defta im- 
portância fe partiram pelo meio em duas : 
as peças de prata, que eram hum ferviço, 
taças douradas , faleiros , garrafas , e ou- 
tras muitas deftelote, cada huma três tan- 
gas ; e como iílo deo na gente da índia, 
principalmente entre mulheres , que fam ap- 
petitofas, ecnbiçofas, acudio tanto dinhei- 
ro que baftou pêra as coufas que fe ha- 
viam de lbrtear, e fobejou pêra todos os 
gaílos , e propinas de Juizes , Efcrivães y 
•Thefoureiros , e Porteiros , e mais Offi- 
ciaes , e houve peífoasque lançaram duzen- 
tas fortes, emais, como cada hum podia; 
e até os negros cativos , fe podiam ajuntar 
pêra huma, duas, ou mais, também fe ar- 
rifcavam , e até eu lancei meia dúzia em 
nome de huma orfa que creava , e no rol 
das fortes dei por nome Miraguarda , e 
foi ella tão ditofa que lhefahio hum quar- 
to de vinho muito bom : em fim as- fortes 
fahíram , e as fazendas fe desbarataram to- 
das , e os que foram ditofos ganharam 
bem , e os que perderam foi pouco, e o 
-alvoroço , e alegria foi tudo. 

E porque dos rios do Mala var tinham 

fa- 



Década IX. Cap. XXVI. 221 ~ 

fahido muitos paraos , e outros que fica- 
vam apreítando pêra iífo , querendo atalhar 
os damnos que fe podiam feguir , defpe- 
dio em dezoito de Setembro deite anno de 
fetenta e quatro a feu cunhado com João 
da Coíla por Capitão mór do Malavar com 
duas galés, elle em huma, e Francifco de 
Mello de Sampayo em outra , e vinte e 
quatro fuítas , cujos Capitães foram : Ruy Pe- 
reira de Sampayo, Balthazar Rodrigues de 
Alvellos , Sebaftiao Gonfalves feu irmão, 
Apollinario de Vai de Rama , João Caya- 
do de Gamboa , Miguel de Ayalla , D. Dio- 
go da Silveira , Fernão de Albuquerque , 
Cuílodio Martins de Vafconcellos , ManoeL 
Furtado de Mendoça , Duarte Pereira de 
Sampayo , Domingos Ferreira Efcorcio, 
Manoel Rodrigues, Gomes Eannes de Fi- 
gueiredo , Diogo Brandão de Cananor , Gaf- 
par Tavares de Cananor , António Gomes 
Malavar , Pedro Soares Malavar, Fernão 
Moreira , Belchior Diniz , Miguel Telles 
de Moura , D. Bernardo Coutinho., Fran- 
cifco da Silva de Menezes , e Manoel de 
Lacerda, 

Partida eíta Armada, logo o Governa- 
dor defpedio Fernão Telles por Capitão 
mór de outra pêra a Cofta do Norte , a 
qual conítava de outras duas galés, elle em 
huma , e Pedro Lopes Rebello em outra, 

e 



a» ÁSIA de Droco de Covio 

e dezefete fuftas , de que -foram por Capi* 
tães Mathias Pereira de Sampayo , An o- 
nio Baracho , Lourenço Pires de Soufa , Ruy 
Gonfalves de Siqueira , Jorge de Barros de 
Azevedo , António de Mendoça , Affonfo 
de Monroy , Leonel de Brito , João Rodri- 
gues de Vafconcellos , Braz da Silva , Fer- 
não Alvares do Oriente-, Pedro da Silvei- 
ra , que depois foi Capitão de Damão , e 
ainda he vivo , André Borges de Mefqui- 
ta , Domingos do Álamo , Alexandre Zu- 
zarte , João Fernandes , e Gaípar Gonfal- 
ves , e todos partiram em vinte de De- 
zembro* 

Eis-aqui duas Armadas , que com qual- 
quer delias fe contentava D. Leoniz Perei- 
ra , Governador de Malaca, pêra ir foccor- 
rer aquellas partes, que eftavam nos gran- 
des trabalhos que diílemos , e nem huma , 
nem outra mais pequena lhe quiz o Gover- 
nador António Moniz Barreto dar , vendo 
elle que pelo mefmo cafo mandara EIRey 
havia tão pouco tempo fufpender de Go- 
vernador D. António de Noronha , e en- 
tregar-lho a elle : no que- fe vê quanto po- 
de a cubica do mandar * que não via efte 
Governador a quanto fe arrifcava em não 
cumprir o que EIRey lhe mandava ; e fe 
me diífer que o Eítado não podia tanto > 
como não vio quanto menos podia no tem-. 

pa 



Década IX. Cap. XXVL 223 

po do Vifo-Rey D. António de Noronha , 
que tomou a índia toda de guerra com to- 
dos os Reys Mouros , e Gentios conjura- 
dos contra nós ? E vendo elle tudo iílo , et- 
creveo a EIRey que o Eftado da índia ef- 
tava muito profpero pêra fe lhe darem 
dous mil homens com Armada , e artilhe- 
ria, munições, e mantimentos pêra elle; e 
agora que não eftava a índia de guerra , fe- 
não muito pacifica, como não pode darhu- 
ma tão pequena Armada , como D. Leo- 
niz Pereira lhe pedia ? Eu não digo que 
nem então , nem agora eítava o Eftado pê- 
ra tirar de íi tamanho cabedal , mas digo 
que enganaram a EIRey, e no Reyno lhe 
fizeram crer quem fez a eleição que a ín- 
dia eftava com poflibilidade pêra tudo , e 
o mefmo lhe eícrevêram depois de cá , o 
que foi caufa de deshonrarem, e matarem 
hum Fidalgo tão honrado , e benemérito, 
como foi D. António de Noronha, hum dos 
mais puros , e verdadeiros Vifo-Reys que 
nella houve. Láeftam todos aonde Deos te- 
rá julgado fuás tenções \ e pelo que tenho 
vifto , e ouvido neftes negócios , me ma- 
goo como Chriftao muito de todos elles. 

O Governador António Moniz Barreto 
nunca tratou de aviar a D. Leoniz Pereira, 
Governador de Malaca ; e vendo elle as 
dilações que lhe faziam, e que o Governa- 
dor 



224 ÁSIA DE DíOGO DE CoUTÕ 

dor mandava Armadas pêra fora de Goa 
e fó da íua não tratava , tendo-o promet- 
tido a EIRey , tratou de fe embarcar pen 
oReyno, como fez neítas náos de Amhro- 
íio de Aguiar : e folgara eu de ver a cópia 
das cartas que o Governador António Mo- 
niz Barreto efcreveo a EIRey, e as razões 
que nellas lhe dava pêra não negociar a D. 
Leoniz Pereira , como elle queria que D. An- 
tónio de Noronha o negociaífe a elle. Eu 
fei que D. Leoniz Pereira levou certidões , 
e papeis mui íatisfaítorios pêra com elles 
moílrar a EIRey , como fempre eítivera pref- 
tes pêra o fervir nas partes do Sul , e que 
pelo não aviarem , nem bem , nem mal , fe 
embarcara pêra o Reyno. 

CAPITULO XXVII. 

Dos Embaixadores do Idalxd que foram 

a Goa : e da Armada que a Rainha de 

J apara mandou f obre Malaca. 

Ficou (como atrás já di fiemos) Manoel 
de Moraes, queeftava por Embaixador 
na Corte do Idalxá, concluindo o negocio 
das pazes com elle , e por fim fe aflentá- 
ram i e concluíram , e pêra maior firmeza 
delias defpedio aquelle Rey dous Embai- 
xadores pêra irem a Goa confirmar as pa- 
zes 



Década IX. Cap. XXVIL 225* 

zes com o Governador, hum delles chama- 
do Coração com feu Secretario , e o outro 
por nome Jaerbeque , o qual havia de pal- 
iar ao Reyno a negociar com EIRey D* 
Sebaílião , os quaes foram muito bem re- . 
cebidos em Goa , e ambos , pelos poderes 
que traziam > confirmaram as pazes que ef- 
tavam feitas com o Vifo-Rey D. António 
de Noronha ; e accrefcentáram mais que po- 
deriam os Governadores i e Vifo-Reys da 
índia mandar tirar de fuás terras todo o 
falitre que quizeííem ; e hiima Provisão , a 
que elles chamao Formão , chapada em bran- 
co com a chapa do Idalxá pêra tudo o mais 
que quizeííem aíTentar com o Governador > 
pêra ratificação deitas pazes que novamen- 
te fe juraram em Goa aos vinte e doiia 
de Janeiro de mil e quinhentos e fetenta 
e finco , fazendo no cabo huma declaração , 
que havendo o Idalxá de quebrar , ou fa- 
zer guerra a algum amigo do Eítado , o 
faria primeiro afaber ao Vifo-Rey., ou Go- 
vernador da índia ; e que tendo caufa ju£ 
ta pêra lhe fazer guerra , que elles o aju- 
dariam em tudo: e aos vinte e três domef* 
mo mez fe embarcou o Jaerbeque Embai- 
xador pêra o Reyno na náo Santa Barba- 
ra , de que era Capitão mor Manoel Pinto > 
e de fuás coufas adiante fe tratará. Em 
companhia deita náo foi Manoel Pinto de 
Couto. Tom. V. P. iL P Mef- , 



ai6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mefquita na caravela Santa Luzia a defcu- 
brir o Cabo de Boa Efperança pêra faze- 
rem em effeito crer a EIRey que era Ilha 
e levou comfigo hum catúr ligeiro , de que 
foi Capitão Manoel Corrêa Gato , e aflim 
foi Francifco Rodrigues Mondragao em hu- 
ma naveta á Ilha de S. Lourenço a defcu- 
brir os portos pela banda de fora pêra ver 
fe achava novas das náos Reys Magos , Ca- 
pitão mor Duarte de Mello, e a de S. Fran- 
cifco , Capitão Francifco Leitão de Gamboa 
do anno de mil e quinhentos e fetenta e 
dous que fe perderam , indo pêra o Reyno 
em Janeiro de fetenta etres, como em feu 
lugar , e titulo fe verá. 

Já atrás dei relação do fucceíTo do 
Achem, quando veio fobre Malaca, e co- 
mo eítava confederado com a Rainha de 
Japará pêra de conformidade , e mão com- 
mua darem naquella Fortaleza , e a leva- 
rem nas unhas , pêra o que cada hum em 
feus Reyncs fez fuás preparações , e jun- 
tou fuás Armadas, e gentes; e parecendc- 
Ihe ao Achem que elle fó bailava pêra aquel- 
la empreza pelo groífo poder que tinha 
junto , não quiz dar quinhão nella áquella 
Rainha , e aífim foi fó áquelle negocio , e 
nelle lhe fuccedeo o que já contei. Agora 
vendo a Rainha de Japará o máo fucceífo 
que o Achem teve de íbffrego , entenden- 
do 



ÒEtíADA Dt. Cap. XXVlL Í2f 

do que lhe poderia ficar a Fortaleza de 
Malaca , e que lhe feria muito fácil ganhai- 
la pêra íi., e defendella depois ao Achem > 
íe tornaífe com mais pod^r , lançou fua Ar- 
mada Ho mar efte Outubro paífado de fe- 
tenta e quatro , a qual conftava de trezentas 
velas, em que entrava coufa de oitenta jun- 
cos grandes do tamanho de noífas náos de 
até quatrocentas toneladas , e as mais em- 
barcações calalufes i na qual Armada man- 
dou embarcar quinze mil Jáos efcolhidos y 
muitos mantimentos , munições , e artilhe- 
ria , e petrechos de guerra > e elegeo por 
General deita empreza aQuilidamão, Rege- 
dor principal de feu Reyno , o qual com 
todo aquelle poder foi furgir fobre a bar- 
ra de Malaca com tamanhas carrancas de 
falvas de artilheria , que parecia fe queria 
acabar o mundo. Eftava por Capitão da For- 
taleza Trilião Vaz da Veiga > por fer fale- 
cido pouco tempo havia D. Francifco de 
Menezes , o qual com o Bifpo , Vereado- 
res , e peiToas principaes acudio a prover 
na defensão daquélla Fortaleza , e com mui- 
ta brevidade defpedio embarcação ligeira 
com recado ao Governador, do eftado em 
que ficava , pêra que o fóccorreífe. A gen- 
te toda que poufava fora da banda de Ma- 
laca logo fe recolheo á Fortaleza , o que 
não pode fazer tão de preíía a da banda 
P ii de 



128 ÁSIA de Diogo de Couto 

de Ilher. Osjáos tanto que chegaram, lo- 
go defembarcáram neíta povoação , e a en- 
traram , e nella fizeram grande damno , ao 
que acudio D. António de Caílro com dez 
ioldados tão apreíTado , que. não teve Jugar 
de tomar armas ; e remettendo com osjáos , 
que vinham apôs da gente que fe recolhia 
pêra a Fortaleza , travou com elles huma 
boa batalha , na qual foi morto com alguns 
dos companheiros 5 o que foi muito fenti- 
do de todos. 

O General dos Jáos ao outro dia def- 
embarcou todo o poder , e poílo em or- 
dem , fe foi chegando pêra a Fortaleza , e 
na parte que lhe pareceo mais accommoda- 
da aílentou feu campo , e formou fuás tran- 
queiras , e fe fortificou ao redor da Cida- 
de muito á fua vontade. O Capitão Tri£ 
tão Vaz da Veiga formou logo fuás eítan- 
cias j provendo nellas , e nos baluartes o me- 
lhor que pode, conforme ao tempo , e a bre- 
vidade delle, pondo pelos baluartes , e mu- 
ros os mefmos que nelles eíliveram na oc- 
cafiao palfada do Achem no cerco que tão 
pouco havia tiveram , eporiílb os não tor- 
no a nomear, ordenando as coufas que lhe 
pareceram mais neceífarias 3 tão contente , e 
alegre, que metteo em todos os da Forta- 
leza grande animo; e porque fe começaíTe 
afazer alguma coufa P que déífe confiança a 

to- 



Década IX. Cap. XXVII. 229 

todos , e defanimaíTe aos inimigos , orde- 
nou ao Licenciado Martim Ferreira , Vea- 
dor da fazenda , que com cento e fintoen- 
ta foldados foffe dar em huma tranqueira y 
que os inimigos tinham fabricado a trinta 
paffos do baluarte S. Domingos , dando a 
dianteira a Diogo Lopes da Cunha o fol- 
dado y que o era muito bom , e em huma 
madrugada fahíram todos da Fortaleza, fi- 
cando o Capitão aporta delia; e com hum 
animo mui determinado commettêram as 
tranqueiras , as quaes logo cavalgou o Dio- 
go Lopes com osdafua companhia, e den- 
tro tiveram huma razoada batalha com os 
inimigos , e lhes mataram fetenta , e dei- 
taram todos os mais fora , ficando a tran- 
queira por noíTa , a qual fe defmanchou , 
e desfez logo , e fe recolheram fete berços 
que nella eítavam , com que fe recolheram > 
moftrando-fe nefte negocio o Martim Fer- 
reira , que fabia ufar tão bem das armas , co- 
mo das letras. Eita vitoria quebrantou mui- 
to aosjáos, e aífervorou tanto aos noífos , 
que defejavam ir dar nas outras tranquei- 
ras que eflavam mais affaítadas , o que Trif- 
tao Vaz da Veiga de nenhum modo quiz 
confentir , porque havia mifter muitos ho- 
mens. 

Os Jáos vendo eíle defaltre , quizeram 
pôr cobro na fua Armada , em que tinham 

to- 



230 ÁSIA de Diogo de Couto 

todo o feu remédio , etodo o feu armazém 
de mantimentos , e munições , e pêra a fe- 
gurarem a mandaram recolher no rio dos 
Malaios , meia légua da noíTa Fortaleza , 
com tão pouco refguardo , que pelas vigias , 
e intelligencia que Trilião Vaz da Veiga 
trazia fobre tudo , foi avifado do caio, e 
determinou de mandar dar nella , e fazer 
hum muito honrado feito ; e affim ordenou 
logo huma galé de D, António de Caibo, 
que havia pouco mataram , e com ella qua- 
tro fuítas , e alguns bantins , e manchuas , 
e commetteo eíte negocio a João Pereira 
deSampayo, o qual fahio huma madrugada 
pêra fora , e em breve efpaço foi ter áquel-* 
le rio, o qual entrou, e commetteo a Ar- 
mada que eítava com o defcuido que já di£ 
fe ; e dando-lhe fogo , queimou mais de trin- 
ta juncos 5 e outros navios menores : das 
mais embarcações fe proveram os noflbs de 
mantimentos , e munições , de que carre- 
garam a vontade , e foram defembarcar á 
Fortaleza , onde foram recebidos com as 
maiores demonftrações de alegrias que po- 
dia fer , porque não fo feílejáram o bom 
fucceífo i mas o remédio de todos , que con- 
íiítia nos mantimentos que traziam , porque 
eítavam já quaíi na extrema neceílídade , e 
com aquilio fe remediáraiji alguma coufa. 
Os inimigos com çlta perda defconíiáram 

da 






Década IX. Cap. XXVIL 231 

da jornada , e logo trataram de pedirem 
pazes , ou de fe irem pêra as fuás terras ; 
mas primeiro quizeram fazer algumas de- 
monírraçóes de guerra ; e porque lhe não 
acabaífem de mandar queimar a Armada, 
mandaram cerrar a barra do noíTo rio , por 
onde os noífos haviam defahir, com gran- 
des grades de madeira : atraveíTáram hu- 
mas eílacadas de maftos , e ao longo del- 
ias levantaram alguns caítellos de madeira 
fobre alguns navios tão altos que pudeífem 
chegar a igualar ao baluarte Sant-Iago , pê- 
ra por.elle poderem entrar na Fortaleza. 
Vendo Triítão Vaz da Veiga aquella fábri- 
ca , e que vedar-lhe a ferventia daquelle 
rio era pollos em extrema neceíTidade , por- 
que porelle abaixo lhe vinham muitas cou- 
fas pêra fuftentação da gente , ordenou de 
lhes mandar desfazer os caítellos , e eftaca-> 
das , o que encarregou a João Pereira , que 
com alguns batéis pavezados , manchuas , 
e balões com que deo huma madrugada na- 
quellas máquinas , e com muito valor , e 
trabalho de todos queimaram tudo , e o 
desfizeram em pó, e cinza com muitos Jáos 
que acudiram á defensão delles. 

Mettèram eftas boas venturas de João 
Pereira tanta inveja a todos , que pedio Fer- 
não Peres de Andrade licença ao Capitão 
pcra ir dar em outra tranqueira ., que os Jáos 

ti- 



232 ÁSIA de Diogo de Couto 

tinham defronte do baluarte Madre de 
Deos , a qual lhe elle concedeo , e quiz 
achar-fe com elle neíle feito Bernardim da 
Silva; e ajuntando parentes, e amigos, e 
foldados , deram no quarto d ? alva na tran- 
queira; epofto que acharam grande defen- 
são , e fobre ella tiveram trabalho , no fim 
da referta foi entrada a fio de efpada , e 
mortos os que nella eílavam , e ella toda 
abrazada , e deitas hofpedagens tinham os 
Jáos de quando em quando algumas que 
lhes não fabiam bem. 

Vendo os Jáos defimpedido o rio, por-* 
que era a maior guerra que podiam fazer 
aos noíTos o impedir-lhes os mantimentos 
que por elle abaixo entravam na Fortale- 
za, tornaram a infiftir niílb , e o cruzaram 
de novo com grafias traves , e com tran- 
queiras guarnecidas de artilheria , e folda- 
dos pêra fua defensão ; porque a fua ten- 
ção era que os noíTos chegaíTem a tanta ne- 
ceflidade , e aperto de fomes , que fe lhes en- 
tregaííem, por fe não arrifearem nos aílal- 
tos, ecommettimentos , porque fabiam que 
haviam de ficar efcalavrados : o que vifto 

f>elo Capitão j tornou a encommendar aquel- 
e negocio a João Pereira , que nos batéis , 
e mais embarcações pequenas commetteo 
a tranqueira ca valleiro lamente; mas achou-a 
XÍq forte , e psjáos tão determinados, que 

lhe 






Década IX. Gap. XXV1L 233 

lhe foi neceflario retirar-fe com dous mor- 
tos , e alguns feridos , e hum delles foi Ma- 
noel Ferreira , Capitão de hum dos batéis, 
o qual recebeo três perigofas frechadas. O 
Capitão fentio muito o fuecefíb ; porque 
fe os Jáos fuftentavam aquella tranqueira , 
ficavam elles fujeitos a grandes neceííida- 
des , pelo que lhe foi forçado tornar a com- 
metter aquelle negocio , que encarregou a 
Fernão Peres de Andrade, mas não naquel- 
laYórma em que o fez João Pereira , mas 
lhe ordenou que fe mettefle dentro no rio 
com huma naveta muito artilhada com ar- 
rombadas feitas , e os batéis com fuás man- 
tas , e outras embarcações , o que Fernão 
Peres fez, e ao entrar do rio houve de par- 
te a parte hum fermofo jogo de bombar- 
dadas que durou muito efpaço , e no fim 
delle foi entrada a tranqueira pelos noíTos , 
e desfeita ella , e as eílacadas com morte 
de muitos Jáos ; e poílo que o negocio foi 
tão arrifeado , não le perderam dos noíTos 
mais que quatro foldados, o que foi mila- 
gre grande pelo muito baralhado que an- 
daram todos com os Jáos, e pouco refguar- 
do aos pelouros. João Pereira fe deixou 
ficar com toda a Armada no rio , com que 
lhes fechou a elles a porta pêra lhes não en- 
trarem provimentos, de que já eftavam tão 
faltos p que mais fe podiam chamar cerca- 
dos 



234 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos que cercadores , porque a Armada os 
tinha prezos , e encerrados nos matos por 
eftarem efcandalizados das noíTas fahidas ; 
e fe Triftão Vaz da Veiga tivera trezentos 
homens sãos , fem dúvida os desbaratara 
de todo; e a tal eílado chegaram os Jáos, 
que o feu General confultou com o feu Da- 
to , que he entre élles , como entre nós , 
hum Prelado , que mandaíTe apalpar o Ca- 
pitão com pazes , e que contentando-fe com 
partidos honeítos , fe fariam ; o que o Dato 
fez por Interpretes muito diligentes , e pro- 
poz o negocio , não como quem eítava em 
muita neceffidade , fenão como quem que- 
ria amizade com os noifos. Depois de ou- 
vido , lhe mandou refponder Triftão Vaz que 
acceitaria a paz com eitas condições , que lhe 
deílem todos os cativos , que eíliveiTem em 
feu poder, e as armas, e hum galeão que 
tomaram aos noíTos em hum de feus por- 
tos com toda a fua artilharia ; que não na- 
vegariam nunca de Malaca pêra o Achérri 
fem cartaz do Capitão , e que dentro em 
três dias fe embarcariam , e fe iriam direi- 
tos pêra ajaoa peioEílreito de Sabão, não 
tomando até lá terra alguma , e que pêra 
cumprimento deitas condições havia de dei- 
xar reféns á vontade do Capitão ; iíto fe 
lhe metteo por condição , porque o Capi- 
tão prefumio que elies fe queriam ir refor- 
mar 



Década IX. Cap. XXVII. 23? 

mar a alguma parte pêra tornarem fobre 
aquella Fortaleza com o Achem, de quem 
havia novas que fe fazia preites pêra tor- 
nar a ella. Pareceram eftas condiçóes mui 
pezadas aos Jáos , pelo que não quizeram 
mais tratar de pazes , deíiberando-fe a ef- 
perar pelo Achem ; mas bem entenderam 
os noílos que nunca eftes dous tyrannos fe 
fiariam hum do outro , e por iíTo andaram 
pairando : o General dos Jáos entendia if- 
to muito bem do Achem, o qual efperava 
também que elles foífem desbaratados pê- 
ra poder dar nelles , e acaballos de todo, 
e quando não, que a Fortaleza não poderia 
ficar em eftado que lhe pudeífe efcapar , in~ 
do elle fobre ella com aquella potencia , 
que tinha junto de refrefco , porque bem 
fabia a pouca gente que tinha , e a maior 
parte deíTa doente , e que não havia pro- 
vimentos , nem donde lhe virem ; pelo que 
eftava tão confiado de a tomar fem golpe 
de efpada , que fe fazia já fenhor delia , o 
que também fentia muito o Rey de Vian- 
taná , porque fe tinha por Rey de todo 
aquelle Reyno ; e fe aquella Cidade vieífe 
a poder do Achem , logo todo o Reyno fe- 
ria feu, e eítranhamente lhe pezava do ef- 
tado em que via as coufas } mas como la- 
drão de cafa, fe mandou oíferecer ao Achem 
pêra o ajudar naquella guerra , fobre que 

hou* 



236 ÁSIA de Diogo de Couto 

houve cartas de parte a parte , nas quaes 
jogaram fuás lanças falfas hum contra o 
outro ; porque o de Viantaná á conta de 
o ajudar tinha a fua Armada preítes , e mui- 
to bem provida de gente, pêra que fe vif- 
fe que ao Achem lhe fuecedia mal no cer- 
co, dar fobre elle , e desbaratallo : o Achem 
com o mefmo penfamento dava voltas na 
cama , difeurfando que fe acafo fe fazia fe- 
nhor daquella Fortaleza , logo fenhorearia 
todo o Reyno Malayo ; e algumas peífoas, 
que eferevêram eíle cerco , fe enganaram 
em cuidarem que aquellas coufas fe trata- 
vam fem engano , fendo certo aos que o 
entendiam bem que tudo eram invenções , 
e eftratagemas , porque cada hum delles de- 
fejava de confumir ao outro, e o de Vian- 
taná ainda mais pelo que receava. 

Todavia eftavam osjáos em eftado , que 
tornou o feu Dato a eferever ao Capitão 
cartas mais brandas , em que lhe dizia que 
elle tinha trabalhado muito pêra abrandar 
aos Jáos , e que faria delles o que quizef- 
fe , primeiro que o Achem chegaífe , porque 
ficava com huma poderofa Armada pêra 
vir em favor da Rainha de Japará , como 
fe via por huma carta que efereveo ao Rey 
de Viantaná, a qual carta mandou também 
ao Capitão , e todos conheceram o fêllo do 
Achem , o qual dava nçlla defeulpas ao 

Rey 






Década IX. Cap. XXVII. 237 

Rey de Viantaná de não efperar pela Ar- 
mada da Rainha da outra vez que fora fo- 
bre Malaca , como entre elles eílava con- 
certado , porque cuidara (por hum certo 
refpeito) que elle fó bailava pêra tomar 
aquella Fortaleza , com que ficaria efcufan- 
do as defpezas , e trabalhos que a Rainha 
havia de ter , e paíTar naquella jornada: 
que elle eílava p refles comhuma groffa Ar- 
mada pêra tornar a voltar fobre aquella 
Fortaleza , e que em apparecendo a Lua no- 
va logo fe partia. O Capitão Triftão Vaz 
da Veiga folgou muito com o Dato fegun- 
dar no negocio das pazes , ou que foíle fin- 
gido aquelle negocio , ou verdadeiro , por- 
que em quanto durafle o trato delias , fe po- 
deria prover de mantimentos em huns leis 
juncos delles que a Rainha mandava aos 
feus , os quaes vindo os dias paíTados de 
mandar o rio de Malaca , vendo dentro a 
noíía Armada > em que andava João Perei- 
ra , tornaram a voltar pêra o rio de Jór, 
do que logo o Capitão foi avifado ; e fem 
dar conta a peífoa alguma , mandou chamar 
a João Pereira , e com elle praticou em fe- 
gredo , e lhe deo hum regimento do que 
havia de fazer , no qual lhe mandava que 
de noite (porque os noíTos o não achaífem 
menos , porque logo defcorçoariam) fe fofc 
fe ao rio de Micar , e que* logo commet- 

tef- 



238 ÁSIA de Diogo i>e Couto 

íeíle aquclles juncos, e que trabalhafle pe- 
los render a fio de efpada, fem entrar alli 
fogo , por fe não queimarem os mantimen- 
tos , e munições , porque delles fe havia 
de remediar aquella Fortaleza , dando-lhe 
Deos o bom fucceífo que elle efperava. 

Tanto que anoiteceo , fahio-fe João Pe- 
reira fóra do rio com a galé, e quatro fuf- 
tas , e entrou Micar , elogo inveítio os féis 
juncos que eftavam defcuidados , e os ren- 
deo , e de madrugada os levou á Fortale- 
za , e os mantimentos , e munições fe des- 
embarcaram prefente o Capitão , fem que 
elle confentifle que peífoa alguma tomaíTe 
huma medida de arroz , e aos foldados que 
fe acharam naquelle feito , largou as drogas , 
em que fe cevaram por feu trabalho. Re- 
colheo-fe tudo em armazéns , de que o Ca- 
pitão trazia a chave , e os foi repartindo 
conforme a neceífidade do tempo , o que 
alentou muito a todos os ânimos , que já 
traziam muito derrubados ; e porque nem 
com ifto deixavam de correr recados de pa- 
zes , e elles fe queixavam do damno que 
recebiam da noífa Armada, e não eftavam 
em menos neceífidades que os noífos , man- 
dou o Capitão a João Pereira que fe reco- 
IheíTe , porque lhe pareceo que vendo-o os 
Jáos junto da Fortaleza quizeíTem ir-fe pê- 
ra fuás terras, o que elle defejava que fof- 

fe , 



Década IX. Cap. XXVII. 239 

fe, antes que o Achem chegaíTe com o feu 
poder. 

Tanto que osjáos viram a noíTa Arma- 
da recolhida , e que cada dia podiam che- 
gar os Achéns , e que vendo-os tão desba- 
ratados , os poderiam acabar de deftruir , fem 
tomarem conclusão nas pazes que trata- 
vam , huma noite em fegredo levantaram 
o campo , e fe embarcaram , porque tinham 
mandado vir a fua Armada. O Capitão que 
íentio o cafo , mandou a João Pereira que 
iahiíTe apôs elles logo , porque hiam def- 
ordenados 3 e viíTe fe podia fazer algum 
bom feito , o que João Pereira fez , e ain- 
da lhe tomou alguns juncos , e outros na- 
vios 5 em que matou muita gente de modo, 
que além dos navios que perderam, lhes fi- 
caram enterrados por eíTes campos ao re- 
dor defetemil peífoas, que morreram afer- 
ro, e a fogo , e de doença , a fora os que 
hiam cada dia lançando ao mar , porque 
fe embarcaram os mais delles combalidos, 
e inficionados da corrupção dos ares , por 
fer o lugar em que eítavam apaulado , e 
peflifero , e as immundicies de tanta gente 
o fizeram mais peftilencial , de maneira que 
chegaram á fua terra com duas partes da 
gente menos. Durou o cerco três mezes , não 
ficando os noílbs com menos damno , ain- 
da que alcançárajn delles tantas vitorias, 

por- 



240 ÁSIA de Diogo de Couto 

porque dos naturaes morreram muitos de 
fome , e doenças , e a gente que ficou eíta-> 
va tão debilitada* que era grande laílima 
vella, deixando-lhe osjáos tudo o que ha- 
via por fora tão deílruido , aflblado , e 
abrazado , que em muitos annos fe não pu- 
deram os moradores aproveitar da cultura 
de feus campos , e de fuás hortas que ti- 
nham com arvoredos de frutos. 

E pofto que os nollbs ficaram deite luc- 
ceíTo comhuma tão grande vitoria, foi em 
tal eílado , que fe não podiam menear de 
fracos , nem tinham donde fe proverem de 
mantimentos , e munições , de que eítavam 
muito faltos , tendo por certeza que o Achem 
não tardaria muitos dias que lhe não vief- 
fedar outro repelão áquella miferavel For- 
taleza, pêra o que o Capitão Triílão Vaz 
da Veiga fe fez preítes , e reformou os mu- 
ros , baluartes , e eftaneias , e poz no mar 
toda a Armada que havia , a qual encarre- 
gou a João Pereira que andava na galé , e 
Bernardim da Silveira em huma caravella, 
e Fernão de Palhaes em huma náo , nas 
quaes embarcações andavam cento e vinte 
íoldados 5 e pêra fegurança delia forneceo 
os baluartes de fobre o mar de boa arti- 
lheria, e na Sacriília de noíTa Senhora do 
Monte mandou prantar outras peças pêra 
aflim fegurar o mar,- por onde lhe haviam 

de 



Década IX. Cap. XXVII. 241 

de entrar os provimentos , e onde fe ha- 
via de ir pefcar pêra íua fuítentação, por- 
que carnes não as havia, legumes, e hor- 
taliça tudo os Jáos deixaram fecco, e eíle- 
riles os campos , e todos eílavam com as 
efperanças poítas em algumas náos de man- 
timentos que o Capitão tinha mandado a 
Bengala , e Pegú , íòbre as quaes tinham 
grandiílimas vigias. 

Neítes traníes eftavam os noíTos , quan- 
do no primeiro dia de Fevereiro deite an- 
110 de fe tenta e finco appareceo pelo mar 
a Armada do Achem, que o cubria todo, 
o qual tendo por novas que os Jáos eram 
recolhidos , e desbaratados , e que a nofla 
Fortaleza o ficava pouco menos , e falta de 
tudo o neceífario , vendo que lhe não po- 
dia efcapar, logo deo á vela, e appareceo 
íòbre ella com tamanhas carrancas , fainas y 
e falvas de artilheria, que puderam efpan- 
tar qualquer Cidade mais forte , e melhor 
provida de tudo , o que não fez aos no£ 
iòs naquella pobre, mal cercada, e peior 
provida , porque logo tomaram íeus luga- 
res pelos muros , e baluartes com tanta con- 
fiança , e ufania, como fe eftiveram muito 
folgados , e inteiros. O Achem logo ao fe- 
gundo de Fevereiro mandou commetter a 
nofla Armada, que eítava entre a Ilha, e a 
terra , que era o íurgidouro das náos, defcar- 
Couto. Tom.F.P.iL Q. re " 



2^1 ÁSIA de Diogo de Couto 

regando íbbre ella grandes corifcadas de 
artilheria , cujas fumaças tolheram os ares 
de feição > que parecia fe armava huma gran- 
de tempeftade , e tormenta, João Pereira 
com os mais Capitães fe puzeram em de- 
fensão com grande animo, e valor, e tam- 
bém fervi ram a Armada inimiga muito bem 
com lua artilheria : a galé foi paliada de 
parte a parte com hum furiofo pelouro de 
ferro , a que acudiram os officiaes , e o re- 
mediaram o melhor que puderam ; mas nem 
ás cutilladas o pode João Pereira fazer aos 
feus foldados , que de medo daquella tor- 
menta fe quízeram acolher; e não tiveram 
menos trabalho os outros Capitães com os 
feus , porque viram todos o grande damno 
que a artilheria lhes fazia , porque na Ar- 
mada lhes tinha já mortos jfetenta e finco 
companheiros ; e todavia os Achéns aper- 
taram tanto com a noíTa Armada que a 
deílroçáram de todo , matando os feus Ca- 
pitães cada hum na praça dofeu navio, pe^ 
leijando valerofamente : não efcapáram de 
todos mais que finco , que fe acolheram a 
nado , e cativos ficaram quarenta : os Achéns 
mettêram os navios no fundo , que alli he 
vafa pêra lhe tirarem de dentro a artilhe- 
ria , o que lhe defendeo muito bem a For- 
taleza , e a do Monte fez na Armada ini- 
miga grande damno. 

Eí- 



Década IX. Cap. XXVÍL £43 

Efta perda da Armada , que erâ todo 
o remédio daquella Fortaleza, foi feittidáj 
e chorada com lagrimas dê fanguè dê to* 
dos em geral ; e o quê mais de tudo fen- 
tiam , era a ufania , e coragem quê ficou 
daquelle defeítrado feito aos inimigos ; mas 
Triítão Vaz da Veiga , que era Fidalgo dé 
grande animo , acudio a remediar as defcori- 
fianças de todos , affirmando-lhes com rofto 
muito alegre que Deos noííb Senhor lhe 
havia de dar grandes vitorias daquelles ini- 
migos , que com a gente que lhe ficara 
fe havia de defender delles , e de outros y 
fe vieíTem , que não entraífem nelles def- 
confianças, porque fóporeíTa razão oscaf- 
tigaria Deos noílb Senhor , que os não ha- 
via de defamparar , que nelle principalmen- 
te , e no valor de feus braços efperaíTefti a 
defensão daquella Fortaleza , porque fe elles 
não faltaífem , Deos o não havia de fazer 
da fua parte , por honra de feu Santiífimo 
nome , e de fua Lei fagrada. E áííim logo 
dos cento e fincoenta homens que lhe fica- 
ram na Fortaleza , e dos Quelís naturaes 
da terra, proveo os baluartes > e eftancias 
o melhor que pode : e quiz noífo Senhor 
que havia pouco tempo fe tinham ido al- 
gumas náos da China , e de outras partes 
pêra a índia cheias de fazendas , nas qiiaes 
fe foram èfcondidos muitos foldados fem 



244 ÁSIA de Diogo de Couto 

o Capitão o poder remediar, que fe acer- 
taram de citar ainda naquelle porto , fera 
dúvida o Achem fe fizera fenhor delia, e 
de todas fuás riquezas , com que ficara mui- 
to profpero : e além deita mercê que Deos 
lhe fez em fe terem ido por caufa das mui- 
tas fazendas que livraram das fuás mãos, 
foi também grande o levarem mais de mil 
Mouros marinheiros delias, que vendo fal- 
tar-lhe tudo , eítava certo paífarem-fe aos ini- 
migos , e peleijarem também contra nós; 
e neítas náos eícrevêram também o Capi- 
tão , Bifpo , e Vereadores os trabalhos em 
que ficavam , repor tando-fe aos homens que 
nellas hiam, que como teílemunhas de vif- 
ta poderiam dar melhor relação de fuás mi- 
ferias. 

OsAchéns, depois da perdição da nof- 
fa Armada , defembarcáram toda a fua gen- 
te , e artilheria. em terra , e ordenaram feus 
valios , fortes , e tranqueiras a fua vonta- 
de , donde começaram a bater a Fortaleza. 
Triítão Vaz da Veiga , que eítava muito fal^ 
to de munições , não quiz difpendellas em 
bater os valios dos inimigos , porque guar- 
dava efla pouca pólvora que havia perahu- 
ma extrema neceííidade, o que metteo aos 
inimigos em grande confusão ; porque quan- 
do viram que os noífos eítavam calados , 
fufpeitáram que era aquillo algum ardil de 

guer- 



Década IX. Cap. XXVII. 24? 

guerra pêra depois arrebentarem com todo 
o furor, como os Portuguezes coílumavam 
fazer ; mas a verdade he que Deos nollb 
Senhor foi o Author daquella fufpeita que 
os Achéns tornaram , e que lhes moveo os 
peitos pêra defapreítarem aquella Fortale- 
za , que eííava mui arrifcada pela falta de 
tudo ; porque havendo dezefete dias que 
tinham defembarcado , fupitamente fem mais 
occaíião que a que diífemos , fe embarca- 
ram , e fe foram pêra o Achem , contentan- 
do-fe da vitoria que houveram da nôíla Ar- 
mada , com que os noílos deram muitas gra- 
ças a Deos noflb Senhor , porque eltavam 
em extrema defconfiança , e temiam fua per- 
dição y mas o Ceo acudio com feus coílu- 
mados foccorros , e mercês , o que fem- 
pre faz, quando menos os homens o ^efpe- 
ram. Efta fupita fugida defte poderofo bár- 
baro , fem ver contra íi pelouros de baíilií- 
cos , nem de canhões , podemos attribuir a 
Deos noíTo Senhor , que por milagre evi- 
deritiílimo livrou aquella Fortaleza, e dei- 
tes obra fua Omnipotência muitos cada dia, 
fem que os nós entendamos. Os da' Forta- 
leza vendo-fe de fupito defapreífados , tor- 
naram a cobrar alento , enão tardaram mui- 
to as náos de Bengala , e Pegú, por quem 
Triftão Vaz da Veiga efperava , as quacs 
trouxeram tantos mantimentos que ficou a 

ter* 



246 ÁSIA de Diogo de Couto 

terra farta, e a Fortaleza provida pêra mui- 
tos dias. 

CAPITULO XXVIII. 

Das coufas que fucce deram nefte tempo 
na índia. 

PAreçeo bem ao Grão Mogor , já que era 
Senhor dos Reynos de Cambaya tão 
vizinhos do Eítado da índia , mandar hum 
Embaixador ao Governador, aííim ao viíi- 
tar , e a tratar alguns pontos das pazes , 
como em confirmar as que eftavam feitas , 
e mandar trazer algumas curiofidades , e 
fedas do Reyno , e aílim o defpedio logo 
muito bem acompanhado , e o Governador 
o reçebeo em fala grande com todos os 
Fidglgos , e Cidadãos principaes muito luf- 
trofos 5 e em hum eftrado alto o recebeo 
fm, pé encoílado a hum braço da cadeira, 
onde tiveram as praticas ordinárias de lhe 
perguntar pela faud.e de EIRey , e da Rai- 
nha, e de feus filhos , e delle Embaixador , 
e por fua jornada , e o Embaixador lhe ap- 
prefentou cja, parte do Mogor duas cabaias 
muito ricas de brocado , e huma gorra de 
veludo guarnecida de ouro ao nofFo modo, 
porque fe aítei coou muito ao trajo dos Por- 
tugu&zçs , pelo que vio trazsE- aos noífos 

que 



Década IX. Cap. XXVIIL 247 

que eftavam em Cambaya , quando elle fe- 
nhoreou aquelle Reyno , como em feu lu- 
gar fica dito ; e ailim logo mandou cortar 
muitos veftidos , e botas , e fe veílio , e cal- 
çou ao noflb modo , e fe moílrava muito 
contente , e loução a todos ; e tanto fe ale- 
grava com os noífos trajos , que nas lem- 
branças que efte Embaixador trazia , lhe 
encommendava muitos veftidos deites , ef- 
padas, talabartes , e tudo o mais neceífa- 
rio pêra os veftidos. Efte Embaixador era 
homem muito grave , e muito lido em fuás 
hiftorias , porque o viíltei algumas vezes , 
e o achei muito lido , e vifto nellas , e de 
algumas me deo muito boas informações. 
Paífado efte recebimento , tornou depois o 
Embaixador a tratar os negócios que tra- 
zia a cargo , e o Governador lhe diífe que 
fizeífe feus apontamentos , e os déífe ao Se- 
cretario pêra os ver emConfelho, e lhe re- 
fponder a elles , o que elle fez , e o Secre- 
tario ô$ apprefentou em hum Confelho pú- 
blico que pêra iflb apontou , os quaes fe 
leram prefentes todos , que eram quatro , e 
nelles fe continha o feguinte. 

» Dous cartazes pêra o anno feguinte 
» de mil e quinhentos e fetenta e féis par- 
» tirem duas náos fuás de Góga pêra Mé- 
» ca , e tornarem ao dito porto de Góga , 
» fem ferem conftrangidas a irem á Forta- 

» le- 



248 ÁSIA de Diogo de Couto 

> leza de Dio , nem a outra alguma Forta- 
» leza de EIRcy de Portugal. 

» Huma Provisão , por que mande ao 
» Capitão de Damão que lhe não impida 
» levar madeira daqueilas terras , e de Bal- 
» far pêra fe fazerem as ditas duas náos > 
» e que polia tirar embate , que he arroz 
y> com cafca, daquella Fortaleza, e da de 
» Baçaim, e Chaul pêra as terras de Cam- 
» baya , o que léus Capitães virem que he 
» neceífario, 

» Que fe confirmem as pazes que efta-> 
» vam aifentadas pelo Viib-Pv.ey D. Anto- 
» nio ; e qufi^pera demonílraçao de mais 
» amizade, e amor lhe mandaíie o Gover- 
» nador hum Embaixador, pêra que feja pú- 
)) blico , e notório a todos eítarem já as 
)) pazes entre elles feitas, e celebradas, 

» Que o Grão Mogor offerecia por el- 
» le Embaixador tudo o que fofíe neceíía- 
» rio de feus Reynos pêra bem do Eílado, 
» e de feus moradores: eque haja também 
y> o Governador por bem , que o mefmo fe 
» lhe faça das terras , e Fortalezas da In- 
» dia ; e debatido tudo no Confelho , afTen-* 
» taram que pêra quietação das terras de 
» Damão importava terem pazes com o 
?> Mogor , pois havia tão pouco viram o 
}> rifcò em que eíleve aquella Fortaleza , 
>) quando lá acudio oVifo-Rey D. Antónia 



Década IX. Cap. XXVIII. 249 

» de Noronha , a quem fe devia Damão , 
» porque fe elle lá não fora , não -era pof- 
» fível livrar-fe da potencia daquelle bar- 
» baro, e que a eíla conta fe lhe havia de 
» conceder o que pedia , porque fe os car- 
» tazes foífem em muito perjuizo da Al- 
» fandega de Dio , o que niífo podia fal- 
» tar , fe cobrava com a amizade do Mo- 
» gor, porque muito mais fe havia de gaf- 
)r tar nos foccorros daquella Fortaleza. E 
» que quanto ao Embaixador, pedia fe lhe 
;» mandaífe depois que eítiveíle nas fuás ter- 
» ras deaifento, e que por elle lhe rèfpon- 
)> deífem ás pazes de que tratava; e que o 
» Governador lhe mandaífe por elle o pre- 
)> fente que lhe pareceííe bem. » 

Aífentado iíto, defpedio o Governador 
o Embaixador do Mogor mui fatisfeito ; e 
porque vieram novas que elle era já parti- 
do pêra o feu Reyno , e que deixava hum 
Governador no de Cambaya , mandou a 
Chriítovão do Couto , Lingua do Eítado, em 
companhia do Embaixador do Mogor, avi- 
fitallo , como vizinho que ficava tão perto 
de Goa, em Abril deite anno de mil e qui- 
nhentos e fetenta e finco r 



CA^ 



2^0 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XXIX. 

Chegão novas ao Governador dos trabalhos 

em que ficava Malaca : das prevenções 

que fez , e foccorro que lhe mandou. 

EM Fevereiro defte anno de mil e qui- 
nhentos e fetenta e finco chegaram ao 
Governador cartas de Trilião Vaz da Vei- 
ga , Capitão de Malaca , do Bifpo , e Ve- 
readores , em que lhe davam conta do mi- 
feravel eftado em que ficavam, e de como 
o Achem viera fobre aquella Cidade com 
huma potente Armada , e o que lhe fucce- 
dêra , e de como cada dia efperavam por 
outra mais poderofa , que a Rainha dejapa- 
rá eílava preparando pêra mandar fobre 
aquella Fortaleza , e que fem dúvida tor- 
naria o Achem a vir ajudalla ; e que fegun- 
do a falta que de tudo havia na Fortaleza , 
correria muito rifco , e que fizeffem conta 
que perdendo-fe (o que Deos não permit- 
tiria) fe perdia todo o Sul , e ainda toda 
a índia , que daquellas partes fe fuílenta- 
ya. Eílas novas fentio o Governador mui- 
to ; porque fe lhe fuccedcífe algum defaf- 
tre naquella Fortaleza, fe lhe accrefcentava 
a culpa de não aviar o Governador de Ma- 
laca , como EIRey lhe mandava ; e como el- 
le queria que o Vifo-Rey D. António de 

No- 



Década IX. Ca?. XXIX. 25-1 

Noronha o aviafle a elle , e fobre o que 
faria, teve muitos Confel lios , nos quaes fe 
aífentou que fe foccorrefle Malaca , como 
EIRey mandava, com muita preffa, ecom 
huma boa Armada , e logo defpedio o Go- 
vernador cartas dobradas pêra as povoa- 
ções de Negapatao , e S. Thomé , em que 
pedia áquelles moradores que foccorreífem 
aquella Fortaleza com .todos os mantimen- 
tos que pudeífem, e que fe lhes pagariam 
muito bem , pêra o que lhe paliou largas 
Provisões pêra oVeador da fazenda, e Fei- 
tor daquella Cidade lhes fazer de todos bom 
pagamento ; e que não havendo donde , fe 
lhes pagariam em Goa nos direitos da Al- 
fandega , lembrando a todos , que do con- 
trato , e commercio daquellas partes fe fuf- 
tentavam, com outras obrigações que lhes 
poz diante. 

Defpedidas eílas cartas , foi-fe logo o 
Governador á Camará de Goa , e reprefen- 
tou aos principaes do povo que alli fe ajun- 
taram , as neceííidades em que Malaca efla- 
va , que era a chave de toda a índia , e 
que bem viam o eftado em que eftava por 
falta de dinheiro pêra aquelle foccorro -, que 
lhes pedia que pêra elle lhe quizeífem em- 
preitar vinte mil pardaos , não fobre o ca- 
bello da barba de D. João deCaítro, como 
ípdos fizeram na neceífidade do cerco de 

Dio, 



1Ç2 ÁSIA de Diogo de Couto 

Dio , vendendo pêra iílb fuás jóias , masque 
lhos empreítaífein fobre feu filho Duarte 
Muniz , que logo lhe entregava , e lhe paf* 
faria todas as Provisões que lhe pediítem 
pêra lhes ferem pagos na Alfandega nos 
direitos de fuás fazendas , ou de quaefquer 
outras que apprefentaífem ; e que pêra mais 
fegurança lhe hypothecava todo o dinheiro 
do rendimento das terras de Salfete , que 
rendiam fetenta mil pardaos , e que deite 
ferviço que fízeíTem a EIRey noífo Senhor , 
e de todos os mais que tinham feitos , de 
que elle era boa teftemunha , faria tão par- 
ticular lembrança a Sua Alteza , que o obri- 
gaííe a fazer muitas honras , e mercês áquel- 
la Cidade. Os Vereadores pediram licen- 
ça pêra fós praticarem aquelle negocio , o 
que fariam depois delle recolhido, e logo 
lhe mandariam refpofta do que fe aífentaf- 
Jfc; o que o Governador logo fez , e lhes 
rogou que naquelle negocio do emprefti- 
mo 5 o que fe lançaífe a cada hum , fe arre- 
cadaiTe com fuavidade, fem fe daroppref- 
são ás partes. Recolhido o Governador, 
praticou-fe o negocio na Meza , e aílentou- 
íe que fe empreílaífem os vinte mil par- 
daos , que o Governador pedia; e que af- 
iim como ofoffem ajuntando , o foíTem le- 
vando ao Governador pêra o aprefto da Ar* 
Jíiada. Deíle aflento fe mandou logo reca^ 

do 



Década IX- Cap. XXIX. 15*3 

do ao Governador, o qual tratou logo da 
Armada, que havia de mandar a Malaca ^ 
a que fe deo a maior preffa que pode. 

Com eíte aviamento fe foi o Governa- 
dor pêra a ribeira das Armadas pêra eílar 
alli mais á mão pêra feu aviamento , e man- 
dou apreftar huma fermofa Galeaça , duas 
galés , e nove galeotas muito fermofas , e 
elegeo pêra efta jornada a D. Francifco de 
Menezes, que morreo em Dio , fendo Ca- 
pitão daquella Fortaleza , o qual começou 
a correr com o aprefto da Armada , e de 
eleger os Capitães delia com o Governa- 
dor; e tanta preífa fedeo, que quando fo- 
ram vinte dias de Abril foi o Governador 
deitar efta Armada pela barra fora , e os 
Capitães que nella foram fam os feguintes.' 
Pedro Lopes Rebello em huma galé , Dio- 
go de Azambuja em outra, e das galeotas 
João de Mello de Sampayo , Francifco de 
Sande , Trilião Gomes Pereira , Ruy de Bri- 
to , Francifco Zuzarte, Martim Affonfo de 
Figueiredo, António de Ataíde, Mattheus 
Paes, e D. João de Maluco, que andava em 
Goa. 

Com efta Armada foi também D. Mi- 
guel de Caftrc , filho do bom Vifo-ReyD. 
João deCaftro, pêra ir entrar na Capitania 
de* Malaca , de que veio provido do Rey- 
no , e fói embarcado na náo Santa Cruz 

com 



2^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

com mui efcolhidos foldados que pêra iflb 
buícou. Agora continuemos com as Arma- 
das que fam fora, pêra acabarmos com as 
coufas deite verão y e feja logo Fernão 
Telles. 

O fuccejfo dejlas Armadas não efcrevea 
Diogo de Couto. 

Partido D. João deCaftro, como já dif- 
femos , pêra a coíla do Malavar , chegando 
a Barcelor , foube eltar rebelde a povoa- 
ção de Gaypor , que era do Rey de To- 
lar ; e querendo-a caftigar f mandou defem- 
barcar nella a gente de ííia Armada , na 
qual deram com tanto impeto que logo a 
entraram y e mataram mais de cento e íin- 
coenta peffoas das que íe oppuzeram á de- 
fensão y e a povoação foi logo poílo fogo 
em que toda ardeo, e feconlumio y e den- 
tro nas cafas mais de vinte mil fardos de 
arroz , e outras muitas fazendas i e hum pa- 
gode de fua adoração que elles fentíram 
muito , e lhe cortaram os palmares , e deí- 
truíram as fazendas que tinham por fára y 
com que aquelle Rey ficou mui bem caf- 
tigado j e paliando adiante defronte de Man- 
galor, tomaram os navios de fua Armada 
hum paro de Maiavares com todo o feti 
recheio , e os Mouros foram mettidos a 
banco nas galés ; e chegando defronte do 
rio Combia, íbube eftarem denti*o três pa-r 

rós 



Década IX. Cap. XXIX. 25^ 

rós pêra fahirem a roubar ; e furgindo fo- 
bre aquella barra , mandou pedir áquelle 
Rei que lhos entregaíTe ; e potto que mof- 
trou niíTo dificuldade , vendo que os nof- 
fos fe faziam preíles pêra lhe deítruirem a 
povoação , os houve de entregar fem os 
Mouros , que fe mettêram pela terra den- 
tro , e paífando ao rio de Chalé , entrou den- 
tro com toda a Armada y . e mandou defem- 
barcar na Ilha de Çamori , a qual deftruí- 
ram de todo , e lhe cortaram mais de duas 
mil palmeiras , e algumas embarcações que 
fe acharam , o que foi de grande affronta 
pêra o Çamori , e paliou a Cóchim , donde 
mandou a Francifco de Mello de Sampayo 
com a fua galé , e féis fuílas ao Cabo Ça- 
mori a recolher as cáfilas 5 o que elle fez 
com muita prefteza ; e tornando-fe o Ca- 
pitão mor a continuar na guerra do Mala- 
var contra o Çamori ? defembarcáram na 
povoação de Paragulem ; e fuppofto que 
nella achou grande reíiftencia , foi abrazada , 
€ aífolada, e nella huma náo que eftava á 
carga pêra Meca , e dez navios mais , a cu- 
ja defensão acudio o Príncipe filho herdei- 
ro daquelIeRey, que peleijou com os nof- 
fos valerofamente ; mas no fim da referta 
foi morto com duzentos Mouros ? não dei- 
xando de fe recolher o Capitão mor com 
alguns feridos y e chegando ao rio Capo- 

ca- 



25*6 ÁSIA de Diogo de Couto 

cate , vendo eftar no cabo delle varado hum 
paro com rigeiras em terra , o mandou ti* 
rar ; e acudindo muitos Mouros á defen- 
são , travaram com os noílbs huma refoa- 
da batalha tão acceza , que não puderam el- 
les mais aturar o damno que os noíTos lhes 
fizeram, porque lhe tinham já mortos tre- 
zentos , e fe retiraram , e o paro foi tirado 
pêra fora; mas cuítou todavia a vida a hum, 
ou dous dos noílbs foldados , e o langue a 
muitos j e por lhe darem recado que Álva- 
ro Paes de Sotomâyor , Capitão de Cananór , 
era morto , acudio lá a prover aquella For- 
taleza de Capitão , e no caminho tomou 
huma galeota de Malavares , que foram met- 
tidos á eípada ; e chegando a Monte Dely i 
tomaram os da fua Armada duas galeotas , 
e hum paro de Coflairos , e mandou quei- 
mar a povoação de Nilaqueirão , e com ef- 
tes feitos fe recolheo a Goa no cabo do 
verão com huma grande cáfila da China y 
Malaca , e de outras partes. 

Deixámos as coufas de Maluco no gran- 
de caftigo que Sancho de Vafconcellos deo 
aos do lugar de Atua , e no foccorro que 
o Vifo-Rey D. António de Noronha lhe ti- 
nha mandado com as novas que teve da 
morte de Gonfalo Pereira Marramaque, 
que foram duas galeotas, huma efeufa ga- 
lé, hum galeão, e huma náo., de que hia 

por 



Década IX. Cap; XllX. \ ^y- 

por Capitão António de Valladarés dè La* 
cerda-, e de como as galeotas foram arri- 
bar a Ceilão , e a efcufa galé fe foi per- 
der em huma reftinga de Queda , e o ga- 
leão , e a náo chegaram a Malaca, e dalir 
na monção fe partiram por via de Borneo 
pêra Maluco; e antes de partirem de 'Ma- 
laca , chegaram Fernão Ortiz de Távora , e 
Pedro Lopes Rabello, que fe tinham per- 
dido naMacafla. Chegou António de Val- 
ladarés a Fortaleza de Ternate em quinze 
de Novembro paífado de mil e quinhentos 
e fetenta e quatro , que foi muito feílejado 
de todos os daquella Fortaleza pelas gran- 
des neceífidades em que eítavam. D. Álva- 
ro de Ataíde ', Capitão delia, defpedio logo" 
o galeão a bufcar mantimentos á Fortale- 
za de Amboino , e a náo em que hia o Val- 
ladarés lha vendeo a elle pêra ir fazer a 
viagem de Banda. Pouco depois chegou de* 
Malaca Francifco de Lima em huma ga- 
leota , na qual levava vinte Portuguezes, 
que foram em Ternate bem recebidos pe- 
la falta que havia de gente : o António de 
Valladarés chegando a Malaca, deixou alli 
. muitas roupas , e outras fazendas pêra lhe 
mandarem em hum junco, pêra com ellas 
ir fazer a viagem de Banda; e quando che- 
gou a galeota de Francifco de Lima fem 
o leu junco, de que não lábia parte, to-* 
Couto. Tom. V. P. iL R mou 






258 ÁSIA de Diogo de Couto 

mou dilío tanta pena, t e paixão que adoe- 
ceo , e morreo em poucos dias. Eítava nef- 
te tempo no porto de Banda hum Gonfa- 
lo Mendes Pinto fazendo aquellas viagens, 
que eram deMartim Affonlb de Mello Pe- 
i-eira, por contrato que com elle tinha fei- 
to ; e os Bandarezes , que he gente má , e 
atraiçoada, trataram de lhe tomarem a náo, 
e matallo a elie , e a todos os mais Portii- 
guezes que com elle hiam , e tomarem-lha 
com as fazendas : diílo foi elle avifado , e 
logo fe metteo na náo com todos os Por- 
tuguezes , e defpedio recado a Amboino a 
Sancho de Vafconcellos que o foccorreífe. 
Eíla traição quizeram os Bandarezes fazer , 
porque viram ir as coufas daquellas Ilhas 
de feição , que por mui certo tinham que 
deprefla fe acabariam os Portuguezes , e 
quedam daquella vez ficar também aqui- 
nhoados com aquella náo , e fazendas. Che- 
gando aquelle recado a Amboino , fabido 
o, rífco em que os noílbs eílavam , e que 
fe aquella nao foífe ter a mãos de inimi- 
gos , acabariam de arruinar de todo as cou- 
fas daquellas Ilhas , logo com muita pref- 
fa fe embarcou em íinco corocoras , levan- 
do comfigo a galeota, em que tinha ido Fran- 
cifco de Lima , que lá fora bufcar provi- 
mentos, e a Frota que havia naquella For- 
taleza, em que hia por Capitão João Ra- 

bel- 



Década IX. Ca?. XXIX, % 

bello , e quiz de caminho' deftruir ô lugar 
de Tobó, x que era do Rey, o qual èftavai 
na cofta de Benaor , e da ponta daquélla 
terra forçado havia de atraveflar a Banda. 
Succedeo ter partido de Ternate Cachil 
TidòreOgá, irmão de EIRey, emhumaco- 
rocora muito petrechada pêra ir á tomada 
da náo, que eftava em Banda b por lhe te- 
rem os Bandarezes maildado recado , e af- 
lim foi correndo a cofta de Luzabatá até 
o lugar de Seirao , donde voltou pêra den- 
tro da cofta de Benaor , e foi-fe métterem 
huma calheta na mefma praia do lugar de 
Tobó, que Sancho de Vafconcellos hiacaf- 
tigar ; e como chegou alli de noite , deixou- 
fe eftar muito feguro* Succedeo ir naquel- 
la mefma noite João Rabello Capitão da 
fufta com outras três embarcações coftean- 
do a terra , pêra de madrugada dar no lu- 
gar de Tobó, levando diante duas embar- 
cações pequenas , chamadas talhas, pêra de£- 
cubridoras , que houveram vifta do Cachil 
Tidore Ogá ; e fem faberem o que era, 
voltaram a João Rabello i e lhe deram no- 
ticia delia í pelo qtie elle mandou aos três 
navios fe fizefíem ao mar > pêra que fe lhe 
nao acolheífe, e elle foi cofteando aterra, 
e de madrugada houve vifta da corocora 
já poftos todos em armas. O Cachil Tido- 
re, logo quefentio aquelle navio, nomeou- 
R ii fe, 



,i6o ÁSIA de Diogo de Couto 
fe, e perguntou quem era, parecendo-lhe 
que eram amigos. João Rabello ouvindo-o. 
nomear , levantou a voz em língua Amboi- 
na , e refpondeo-lhe : Se vós fois Cachil Ti- 
àore , eu fou João Rabello. já neíte tempo 
as outras três embarcações hiam chegando ; 
e vendo-fe o Cachil cercado , quiz fugir., 
mas João Rabello o abordou , e chaman- 
do-o pelo feu nome , lhe diffe que fe met- 
teffe na fua embarcação , e que nenhum 
mal lhe faria , o que eíle fez , porque^fe vio 
fem remédio; e por fer amigo de João Ra- 
bello , que o recebeo bem , e o agazalhou 
no toldo , convidando-o com confervas , 
lhe pedio que fe não agaítaife, que Sancho 
de Vafconcellos era feu fervidor , e ami- 
go , e lhe havia de fazer muitas honras. 
A eíle tempo chegou Sancho , e João Ra- 
bello lhe entregou o Cachil , que elle rece- 
beo muito bem , e o entregou a finco tol- 
dados, pêra que o vigi a íí em na própria co- 
rocora do Cachil , fó fem mais gente fua , 
e mandou a João Rabello que foífe dar no 
lugar do Tobó com fetenta Portuguezes , 
e alguns Tido r es ; e poíto que na entrada, 
delle houve grande refiítencia , todavia foi 
todo deílruido , e aliciado. Nefta revoltr 
tratou o Cachil Tidore de ver fe podia fu 
gir por eíla maneira. Hia, e vinha á em 
barcacão, cm que elle eifova, hum feu e' 

era 



Década IX. Cap. XXIX. 261 

cravo, por nome João, com o qual fe acon* 
jfelliou em fegredo que fe vieífe de noite 
na embarcação pequenina em que hia , e 
vinha remando ao longo da fua corocora , 
e que elle fe deitaria ao mar com elle. If- 
to parece que fufpeitou hum dos Portugue- 
zes da fua guarda J e diffe aos mais que 
tomaífem as armas aos Tidores, porque lhe 
parecia que fe queriam levantar ; e em fe 
remecando a elles v fez o mefmo o Cachil 
com alguns criados que alli eítavam , eco- 
meçou-fe entre elles huma grande revolta, 
á qual acudiram as noflas embarcações ; o 
que viíto pelo Cachil , foi-fe lançando ao 
mar, e paífando' a nado por huma embar- 
cação , em que citava hum pagem de San- 
cho de Vafconcellos com huma partazana 
nas mãos , o qual lhe bradou que fe met- 
tef[e com elle na embarcação , e fenão que 
o havia de matar ; e não' fazendo elle ca- 
lo do que o moço lhe diffe , foi nadando 
por diante , e o rapaz lhe deo por detrás 
pelas coitas com a partazana , e o matou ? 
e alfim mataram os feus todos ; e de al- 
guns que cativaram , foube Sancho de Vaf- 
concellos que hiam de foccorro a Banda 
pêra tomarem a náo • e não fe querendo 
deter \ fe partio logo pêra Banda * e em 
breves dias chegou aonde a náo eílava , 
com que os noffos fe viram livres do pe- 

ri* 



z6z ÁSIA de Diogo de Couto 

j-igo , e receio em que eftavam : e entre al- 
gumas embarcações que alli foram carre- 
gar eftava hum junco muito grande de El- 
Rey de Viantana , que tinha ido com hum 
Embaixador pêra ÉlRey de Ternate , o 
qual lhe levava muita artilheria , e muni- 
ções contra a noíTa Fortaleza , o qual San- 
cho de Vafconcellos çommetteo pêra o to- 
mar; mas eftavam nelle tantos Mouros que 
lhemat4ram finco Portuguezes. Vendo San- 
cho que não podia render o junco , foi-fe 
contra a povoação de Puloafá junto deBan-r 
dá , e a çommetteo ; e tendo entrado hum 
forte que tinha os artilheiros da noífa Ar- 
mada, vendo andar pela praia alguns Ban- 
darezes , lhe atiraram algumas bombardadas , 
que era o final que Sancho de Vaíconcel- 
los tinha dado aos que foram commetter o 
forte , os quaes em ouvindo a noíTa arti- 
lheria, largaram tudo, efe foram recolhen- 
do pêra a Armada, o que Sancho de Vaf- 
çoncellos fentio em extremo ; e porque a 
gente lhe começava a adoecer daquellas fe- 
bres de Banda, que fam peítilenciaes , tor- 
nou-fe a embarcar , e a náo de Gonfalo 
Mendes Pinto , e a de António de Vala- 
dares mandou com muita carga de cravo a 
noz , e maíía pêra Malaca > e efcreveo áquel- 
le Capitão os trabalhos em que os de Ter-» 
nate ficavam 3 e o galeão S. Chriftovão man- 
dou 



Década IX. Càp. XXIX. 263 

dou carregado de mantimentos pêra Ter- 
nate , que lhe foi grande íbccorro , e re- 
médio. 

Defpedidos eftes foccorros, foi-fe San- 
cho de Vafconcellos pêra as Ilhas de Am- 
boino com tenção , fe lhe foíTe algum foc- 
corro de Malaca , ir cercar o lugar de Hia- 
mao , porque fe hia fazendo muito forte , 
e poderofo 5 e aíTim foi correndo as coíks 
daquellas Ilhas 5 tomando muitas embarca*- 
coes aos inimigos 5 e foi por aqui de va- 
gar por efperar pelos juncos , que haviam 
de vir de Jaoá ; e andando a/fim fazendo 
toda a guerra que podia , foi avifado que 
hum Capitão de EIRey de Ternate hia com 
huma boa Armada em favor , e foccorro 
dos Amboinos inimigos da noíTa Fortale- 
za , o qual Capitão fe chamava Maladao , 
mancebo esforçado , e atrevido , pelo que 
foi neceílario ao Sancho acudir á fua For- 
taleza, por não fer a Armada que tinha ca-*- 
paz de peleijar com a que elíe trazia. O 
Capitão Maladão vinha táò confiado em 
feu esforço ; que não quiz trazer mais de 
quatro corocoras , e dizia que aquellas lhe 
bailavam ; e pelos inimigos amedrentarem 
,aos noífos , lançaram fama que elle trazia 
maior Armada. O Sancho chegou humama^ 
nhã á noíTa Fortaleza , e o Ternate ás duas 
horas depois do meio dia foi ter á praia 

do 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

•do lugar de Rofanive duas lcguas da mof-> 
Ta Fortaleza, c logo foi dar viíta delia. O 
Sancho tanto que o vio, embarcou-fe á pref? 
ia nas duas galeotas , e foi demandar o 
-Ternate , o qual em o vendo voltou a 
.proa , e foi-fe acolhendo ; e entendendo 
.Sancho de Vafconcellos que feria eftrata-r 
gema y tornou a voltar pêra a Fortaleza ± 
abicou as galeotas v e fe fortificou muito 
.bem , porque entendeo que o Ternate ha T i 
via de vir com poder fobre elle, e cercou 
a povoação que havia á roda da Fortale- ! 
za com tranqueiras de madeira. O Malar 
r dão tanto que yio recolher a Sancho . de 
/Vafconcellos, ajuntou dez corocoras , e foi 
xommetter o lugar de Titiray , porque era | 
-noíTo amigo , e commetteo o forte , em que 
,eftava hum Toldado -Partuguez com alguns í 
; Amboinos Çhriftaos ,- o qual tinha dous beir 
-ços com quçpeleijou tão valerofamente que 
quafi' o desbaratou , matando4he muita genr I 
^te 5 pelo que foi neceílario ao Ternate aco* 1 
Jher-fe fugindo'; o que viíío pelos Amboi- 
^nos, lhefahíram alguns mancebos muito es* 
forçados, e o foram efperar çm huns pav- 
ios eítreitos , e difficultofôs v onde Mala- 
dão , e hum primo feu foram. mortos , ej 
.os Amboinos lhes tomaram as armas , coi> 
, taram as cabeças , e os corpos de todos os 
mortos comeram depois, por fer feu coft 

tUra - 



Década IX. Cap. XXIX; 265- 

tuítie comerem todos os que matao na guerra. 
Eftas novas fe levaram a Sancho de Vaf- 
concellos, que ellefeftejou com grande ale- 
gria, por fe ver aliviado daquelle inimigo* 

CAPITULO XXX. 

Vai Sancho de Vafconcellos cercar o lugar 
de Hiamão , e o que lhe fuccedeo. 

VEndo Sancho de Vafconcellos a mer-» 
cê que Deos lhe fizera na morte da- 
quelle Ternate , não defíílio da empreza de 
Hiamão , porque os vizinhos amigos , e 
confederados lhe pediram que os deítruif* 
fe , porque eítava já mui poderofo ; e fe 
fe diffimulaífe com elle, fe poderia vir a fa- 
zer fenhor daquelles lugares , e pêra aquela 
la jornada lhe offerecêram parte da defpe-» 
za ; porque fe em algum tempo fe podia 
fazer aquelle negocio era uefte, em que el- 
les eítavam quebrantados com a morte de 
Maladao , em que elles tinham íua guede- 
lha , e que de Ternate lhe não podia vir 
tão depreífa foccorro , porque não fabiam 
ainda da perda do Teu Capitão. Foi efte lu-; 
gar de Hiamão muito amigo dos Portugue-- 
zes , -e já nelle houve Igrejas , em que re- 
fidiam Padres da Companhia ; e a caufa de 
agora eftarem tão rebellado? nafceo. da Re-^ 

Ipoan* 



166 ÁSIA de Diogo de Couto 

boangé , pêra que lhe tornafle os que tiniia 
cativos da embarcação de Simão de Abreu, 
o que elles fizeram ; e ficaram daquellaobra 
confederados com os Ternates ; mas não 
de maneira que fizeílem mal aos Portugue- 
zes que . alli viviam , fomente defmanchá- 
ram a Igreja 5 e deita amizade fizeram fa- 
bedor a Sancho de Vafconceilos , e que 
nunca deixaram de ferem amigos dos Por- 
tuguezes , mas com condição que os defen- 
deflem dos Ternates , ao que lhe elle não 
refpondeo. Os Ulates como eram vizinhos 
deite lugar , e muito amigos dos noíTos , re- 
cearam que por caufa dos Hiamãos , de 
que não eram amigos , os Ternates os def- 
truiíFem ; peio que pediram a Sancho de 
Vafconceilos hum Capitão Portuguez com 
alguns foldados pêra eítarem com elles , e 
os defenderem , quando lhes foífe neceífa- 
rio , o que elle lhes concedeo , e lhes deo 
hum Alexandre de Matos , aiíim por fer ho- 
mem muito esforçado , como por ter cabe- 
dal pêra poder fuilentar quinze foldados 
que lhe deo , o qual como fe vio naquelle 
lugar y quiz logo capitanear, e mandou re- 
cado aos Hiamãos que negaííem a obediên- 
cia aos Ternates , fenao que os havia de 
çaftigar ; ao que elles lhe refpondêram que 
aíEm o fariam, fe elle feobrigaíTe aos de- 
fender dos Ternates, Diffimulou o Alexan- 
dre 



Década IX. Cap. XXX. 267 

dre de Matos , e convocou a íi outros Por- 
tuguezes , que eítavam efpalhados p^elas Ilhas 
vizinhas, que feriam dez, com que fez vin- 
te e finco , e com feiscentos Amboinos hum 
dia , fem fe temerem os Hiamaos de tal, 
foi dar nelles , e lhes entraram a povoa- 
ção , e mataram muita gente , e levaram 
muita fazenda, Diílo fizeram aquelles mo- 
radores a Sancho de Vafconcellos varias 
queixas, fem elle fazer alguma demonftra- 
ção de amizade ; mas antes efcrevendo hu- 
ma carta ao Alexandre de Matos, lhe fez 
grandes gabos , e lhe deo nella os agrade- 
cimentos do que fizera. Dilto que os Hia- 
maos fouberam , ficaram tão efcandaliza- 
dos , que logo fe confederaram com os So- 
rocoros , e Buros , e os mettêram no feu 
lugar , porque entenderam que Alexandre 
de Matos com a cubica das prezas que le- 
vou , havia de tornar a bufcar mais , no que 
fe não enganaram , porque dalli a poucos 
dias tornaram os noílos fobre elles , e hu- 
ma madrugada commettêram as tranquei- 
ras ; mas os Hiamaos com os que tinham 
convocados lhes fahíram , e dando nos nof- 
fos , lhes mataram logo dous , e os mais def- 
ampararam tudo , e fe foram acolhendo 
apreífados ; ficando detrás de todos Alexan- 
dre de Matos com quatro Portuguezes , 
com os quaes os Hiamaos apertaram de 

mo- 



268 ÁSIA de Diogo de Couto 

modo que os mataram , c o mefmo fizeram 
ao irmão do Patê de Atua com dez , ou 
doze parentes que foram com os noííos. 
Deite negocio ficaram os Hiamaos inimi- 
çiifimos dos noflbs ; e o que foi peior , que 
os lugares vizinhos , amigos , e confedera- 
dos da noíTa Fortaleza , ficaram cobrando 
tão grande medo aos Hiamaos , que não 
havia coufa que os quietaffe j e os Ulates 
eíliveram de todo pêra largarem o feu lu- 
gar, e irem-íe pêra a Fortaleza, fenão fo- 
ra humPortuguez caiado que alli fe achou, 
que teve mão nelles , e os confortou , e 
animou , e avifou a Sancho de Vafconcel- 
los , pedindo-lhe osvifitaffe, e foccorreííe, 
e deo ordem pêra fe vigiar aquelle lugar , 
e com oito Portuguezes que ficaram fe pu- 
zeram em vigias pêra fe defenderem , em ca- 
£o que lhes foffe neeeffario. Os Hiamãos fi- 
caram tão foberbos , que todos os dias hiam 
ao pé das tranqueiras a fazerem aos noífos 
grandes algazaras , e grandes aíFrontas, fem 
eiles oufarem a lhcfakir. 

Sancho de Vafconcellos fabendo o ca-* 
fo, mandou hum tio de ! ElRey de Tidore , 
chamado D. Henrique, grande cavalleiro, 
pêra que os foffe foccorrer , que he aquel- 
le que foi morto em Malaca em ferviço de 
EIRey de Portugal , como fe dirá em feu 
Jygar. Efte foi áquelie negocio com liuma 

có* 



Década IX. Cap. XXX. ' 269 

cópia de gente ; e eítando na tranqueira 
com os noílos , foram os Hiamãos com 
grandes carrancas commetter os lugares ,. 
aos quaes fahio (TD. Henrique com todos 
os que tinha em íua companhia , e com ta- 
manho impeto , e força deram nelles que 
os desbarataram , fendo elles mais de dous 
mil , e os da noífa parte duzentos e fmi 
coenta; e affirmáram os noíTos que alii fe 
acharam , que hum Atua da nofía parte , 
chamado Moné, matara por fua mao mais 
de vinte e íinco ; e outro chamado Papua 
Caíianhoré matara mais de trinta , e que 
eftes dous homens eram quafi agigantados , 
tão grandes cavalieiros , e de tantas forças, 
que todos os daquella Ilha os temiam. O 
Sancho, depois dedefpedir a D. Henrique, 
fe fez preftes , e partio com toda a fua Ar- 
mada em foccorro dos Ulates ; e tomando 
a gente que lá eítava , foi contra o lugar 
de Amao , e chegando á fua praia , a to- 
das as fuás embarcações que achou man- 
dou pôr fogo ; e defembarcando em terra , 
ordenou em o lugar que lhe melhor pare- 
ceo hum forte com fuás tranqueiras pêra 
dalli bater os inimigos ; e fabemlo que os 
Hiamãos tinham feito duas corocoras mui- 
to fermofas , dalli hum quarto de légua pe- 
la terra dentro, e marchando por hum te- 
zo aíílma., foi até á. parte onde as coroco- 
ras 



2?<y ÁSIA de Diogo de Couto 

ras eftavam ainda por acabar; e querendo-' 
lhes pôr o fogo , nao pode , porque foi avi- 
fado que os inimigos eílavam já em filada 
efperando por elles , como em eífeito foi ; 
porque em Sancho de Vafconcellos voltan- 
do pêra a praia, lhefahíram elles em hum 
paflb eftreito , e João Rabello que hia na 
dianteira em os vendo gritou a Sancho de 
Vafconcellos , que hia na retaguarda , que 
voltaíTe pêra o tezo , o que elle fez , indo-o 
encaminhando João Rabello, o que foi ca- 
fo de todos efcaparem da morte. Sancho 
de Vafconcellos , quando fe vio em íima, 
remetteo a hum efquadrao de inimigos que 
o feguiam, hum dos quaes endireitou com 
elle > encarando a efpingarda no rofto , e lhe 
diííe : Ah Capitão , hoje vos hei de matar , 
e no mefmo tempo dífparou a efpingarda ,. 
e quiz Deos que foi o tiro por alto , e com 
a fúria rebentou a coronha de páo da ef- 
pingarda , e foi dar por huma coixa a San- 
cJio de Vafconcellos , que fe houve por mor- 
to , parecendo-lhe que a haftilha da coro- 
nha era pelouro , e todavia remettendo com 
o que lhe tirou (que lhe voltou as coitas) 
o foi feguindo , e o alcançou com huma 
geneta que o varou , e lhe cortou a cabe- 
ça. João Rabello peleijou na dianteira com 
tanto furor , que quando Sancho lhe acu- 
dio , já não tinha folgo, e comfua chega- 
da 



Década IX. Cap. XXX. 271 

da Te recolheram os inimigos; e feelle não 
viera , perecera alli João Rabello , e com 
ifto tiveram os noílbs tempo de fe irem re- 
colhendo pêra a praia , levando João Ra- 
bello a retaguarda ; e chegando ás tranquei- 
ras , defcançáram, e todavia Sancho de Vaf- 
concellos determinou de não largar aquel- 
la empreza , e commetteo a entrada do lu- 
gar por vezes , fem nunca o poder entrar ; 
e infíftindo niffo , tornou a commetter as 
tranqueiras , e as entraram, e o primeiro 
que fe poz em íima foi hum filho do Re- 

fedor das Relações , o qual mataram de 
uma efpingardada que lhe deram pela ca- 
beça ; e quando cahio ellava junto delle 
hum parente feu por nome Franeifco, ho- 
mem de grandes forças , o qual vendo-o 
cahir lhe pegou por huma perna pêra o 
lançar ás coitas, e o levar, como fez; e in- 
do com elle, lhe tiraram com hum chichor- 
ro , com que o vararam , e aíTim cahio mor- 
to debaixo do outro que levava ás coitas r 
e ao cahir lhe ouviram os noífos chamar 
três vezes pelo nome de Jefus , e aflim fe 
cumprio huma profecia do Bemaventurado 
Padre S. Francifco Xavier que o baptizou ; 
e acabando o afto do baptifmo, lhe diíTe, 
que viveffe confiado nas mifericordias de 
Deos , que quando acabajfe , havia de fer 
com o nome de Jefus na baça* 

Ef- 



I 



Ift ÁSIA de Diogo dé Couto 

Eitando Sancho de Vafconcellos fidle- 
trabalho , lhe chegaram cartas de Terna te 
do aperto em que aquella Fortaleza eftava , 
em que lhe pediam os foccorreíTe com man- 
timentos , porque pereciam de fome ? com 
o que largou tudo , e fe fci pêra Amboi- 
no, onde achou o galeão, de que foi por 
Capitão Francifco de Lima, a bufcar man- 
timentos , que lhe Sancho de Vafconcellos 
deo em abaftança , e o defpedio em bre- 
ves dias , e elle ordenou a Fortaleza de pe- 
dra , e cal com confentimento dos vizi- 
nhos , e a mudou hum pouco aífaftada da 
velha, porque eftava entre dous padraftos ; 
epera c|ue a obra crefceííe todo o dia, af~ 
íiítia nella em peííba , e nella jantava , e 
dormia a féíla ; e como os Amboinos são 
maíiílimos , e atraiçoados , trataram de o 
matarem pelo temerem muito ; e por ve- 
rem que muitas vezes ficava fó , e também 
porque fabiam que fe aquella Fortaleza fe 
açabalTe de todo, haviam de fer todos fo- 
peados , pelo que encommendáram efte ne- 
gocio a hum Chriílão , chamado Cofia Ar- 
fem , por fer muito atrevido, o qual vendo 
hum dia a Sancho de Vafconcellos fó , re- 
metteo a elle com huma tomara , que he 
li um a arma cruel ; e todavia não foi tão 
preftes , que Sancho de Vafconcellos não 
tiveífe tempo de fe levantar com huma ada- • 

g a 



Década IX. Cap. XXX. 273 

ga na mão , com a qual fe abalançou a el- 
le > e lha metteo pelo pefcoço, de que lhe 
cahio aos pés , fem que Sancho de Vafcon- 
cellos pudeíTe íufpeitar donde aquella mal- 
dade nalcêra, antes cuidou que lhe dera a 
dor , e fe fizera amouco , como cada hora 
nefta gente fuccede ; e vendo os conjura- 
dos que lhe eícapára daquella > ordenaram 
de o matarem defcubertamente , e a todos 
osPortuguezes , e fizeram cabeça deita con- 
juração a Patê de Soya , o qual também 
convocou o Patê Daló feu cunhado > o qual 
não fó fe não quiz achar naquelle cafo y 
mas teve modo com que avifou aos Padres 
da Companhia , e o Padre Jeronymo Ro- 
drigues fe embarcou logo a toda a prefla em 
huma almadia, e foi a Fortaleza nova , on- 
de Sancho de Vafconcellos andava , e o le- 
vou comfigo pêra a velha, onde lhe defcu- 
brio a conjuração , e melhor o Patê Daló , 
que foi ter alli com elle ; e diífimulando 
Sancho de Vafconcellos o cafo , mandou cha- 
mar os moradores dos lugares dos Atires, 
eTavires, que eram os vizinhos da Forta- 
leza , e lhes diífe que tomaífem as armas , 
porque era avifado que eram entrados na- 
quélla Ilha duzentos Ternates ,. e juntos 
com elle foram todos pêra a Fortaleza no- 
va , onde os da conjuração citavam lança- 
dos em cilada , os quaes tiveram logo re- 
Couto. Tom.F.P.it S ba- 



274 ÁSIA de Díogo de Couto 

bate da ida do Sancho ; e todavia ainda 
os noífos lhe mataram huns poucos , e os 
conjurados feaufentáram, c Sancho deVaf- 
concellos dalli em diante ficou tendo mais 
refguardo em íi. 

O lugar deRofanive he o maior de to- 
da aquellallha, cuja cabeça era humChri- 
ftão , chamado Ruy de Soufa , homem pru- 
dente , e ornais rico de todos , o qual ima- 
ginou Sancho de Vaiconcellos que não po- 
dia deixar de ferfabedor daquella traição, 
e que dera toda a traça pêra ella ; e com 
eíla fufpeita o mandou chamar o mefmo 
dia que ifto íiiccedeo por António Lopes 
de Rezende > Feitor de Amboino £ que era 
grande feu amigo , e compadre , como tam- 
bém o era Sancho de Vaiconcellos , e os 
Padres da Companhia , com quem parece 
que o Capitão communicou o que queria 
fazer 5 eícrevéram logo ao Padre Fernão 
Alvares de Caftello-branco , que reíidia em 
Rofanive , que logo fe foífe pêra a Forta- 
leza , porque importava muito ; o que elle 
fez. O Ruy de Soufa em lhe dando o Fei- 
tor o recado do Capitão logo fe foi com 
elle , e levou hum feu filho com elle ;' San- 
cho de Vafcôncellos o recebeo bem , e lhe 
fez gazalhados, porque como eíle homem 
tinha tantas poffes, determinou de o gran- 
gear , e fazello da fua parte ^ que eíta foi 

a 



Década IX. Cap. XXX. 275* 

-a fencao com que o mandou chamar. O 
Ruy de Soufa na prática que teve com o 
Capitão lhedifle, que os Regedores do lu- 
.gar de Puta lhe urdiram aquella traição , e 
que feelle fe quizeffe fatisfazer d-elles, lhe 
déíTe vinte Portuguezes , que com elles , e a 
gente de feu lugar fe obrigava aos deftruir 
a todos ; e que lhe affirmava que os outros 
lugares , que eile fufpeitava, n.ão tiveram 
*diflb noticia. Os Padres da Companhia que 
alli eílavam , e alguns Portuguezes reque- 
reram ao Capitão que prendeffe a Ruy de 
Soufa 5 o que o Capitão de nenhum modo 
queria fazer ; mas infíílíram tanto todos n.a- 
quelle negocio que fe não pode valer , e 
bem contra feu gofto lhe mandou lançar 
huma grande adoba , o que elle fendo tan- 
to , que logo difle que todas as honras que 
os Portuguezes fempre lhe fizeram ? não 
chegaram todas aquella aíFronta; e as pef- 
foas de melhor conhecimento aconfelháram 
ao Capitão que o bom feria não o folta- 
rejn nunca , porque tinham por fem dúvi- 
da que o prenderam innocentemente , e que 
Jião fora comprehendido na traição, e que 
era força que elle trataífe de algum modo 
de fe vingar daquella affronta; e aílim co- 
mo foi mal prezo , affim permittio Deos , 
que he juílo Juiz , que elle fugiífe da pri- 
zao em que eíiava, tendo o Capitão conhe- 
S ii ci- 



ij6 AS IA de Diogo de Couto / 

eido que fizera náquillo injuftiça : e por 
fem duvida tenho que nunca osVifo-Reys, 
nem Capitães a fariam , fe não foram os 
induzidores dos males , que fam mais cer* 
tos que os dos bens ; e íuppoílo que neíle 
negocio entraífem Padres da Companhia , 
de quem fe não pode prefumir o fizeíTem 
por mal , bem poderia fer que foliem mal 
informados , e fó f e lhes poderia dar cul- 
pa de crerem os mal intencionados , que 
fempre por relpeitos particulares aconfe- 
Ihão, e perfuadeijro mal. Sancho de Vaf- 
concellos tanto que prendeo aRuy de Sou- 
fa , logo mandou recado aos Rofanives que 
fe queriam que lho foItaíTem , lhe mandaf- 
fem fua mulher , e filhos em reféns \ do 
que elles zombaram i e refpondêram que 
entre elles não faltavam homens que os pu- 
deífem governar, e logo lhe deram em ca- 
fa ao Ruy de Soufa , e o roubaram de quan- 
to nella tinha. Feito ifto , convocaram os 
lugares vizinhos , e fizeram huma liga con- 
tra a noíía Fortaleza , da qual fe temeo o 
Patê Daló ; e receando que lhe folfem def- 
truir o lugar, pedio a Sancho de Vafcon- 
cellos alguma ajuda contra elles , o qual 
lhe deo dez Portuguezes , e com elles, e 
com a lua gente fe fortificaram muito bem. 
Os conjurados depois que juntaram feu 
poder fe foram ao lugar de Varenulla , on- 
■ - de 



Década IX. Cap, XXX. 277 

de eílavam féis juncos de Jáos feus ami- 
gos ? aos quaes pediram lhes deffem cem 
homens pêra os ajudarem , com os quaes ? 
e com mais dous mil que elles levavam, 
partiram dalli por terra pêra o lugar de 
Bagoella, no qual eílavam vinte Portugue- 
zes , e por Capitão delles António Vilhe- 
gas ; e porque fouberam que eílavam mui- 
to fortes , pairaram ao lugar de Alo , que 
íería meia légua da noífa Fortaleza , fem fe- 
rem fentidos , nem viílos mais que de hum 
pefcador, e com muito filencio çommettê- 
ram a entrada do lugar , e o entraram. Ef- 
tava naquelle tempo o Patê Daló jogando 
o Xadrez com hum Portuguez chamado João 
de Mello, homem Fidalgo ; e fentindo a re- 
volta , levantou-fe depreíla , e chamou pçr 
los feus , que logo lhe acudiram com armas : 
os que entraram no lugar feriam menos de 
yinte , os quaes logo fe tornaram a fahir, 
yendo que eram fentidos : os noífos com 
os naturaes acudiram ás eítancias pêra fe 
defenderem , e foi a tempo que os inimi- 
gos fe hiam recolhendo , nos quaes foram 
dando , e mataram dous dos principaes ? e 
os mais foram fugindo pêra onde os da li- 
ga eílavam embofcados em hum valle ; e 
como os inimigos entendiam que qs A1ó$ 
# haviam de acudir , deixaram algumas per- 
igas efcondid^s em huma horta muito frefr 

«3 



278 ÁSIA de Diogo de Couto 

ca comhumas cafas novas, que eftavam ao 
pé da noíla tranqueira , e as cafas dos ar- 
rabaldes eftavam dalli muito perto ; e tan- 
to que os noíTos fahíram fóra , que entra- 
ram pelos arrabaldes , que eram de cafas 
de palha , deram-lhe os inimigos fogo da 
farte donde ventava o vento , o qual co- 
mo era rijo , começou a arder toda a po- 
voação , e com aquella fúria faltou nas gua- 
ritas do forte , e ardeo tudo , fem o Patê 
Daló que com os noíTos eílava querer fu- 
gir ao fogo , do qual os noíTos Portugue- 
ses fe foram recolhendo pêra hum terrei- 
ro , qile eílava fora da povoação , onde ef- 
tava inima Cruz , no qual o fumo que cu- 
bria os ares os aíFogou , e alli os acharam 
os inimigos mortos fem final de queima- 
dura , nem nos corpos , nem nos fatos , e 
foram bufcar os mais , pelos quaes fizeram 
tantas diligencias até que os acharam met- 
tidos em huma cova , em que fe efcondê- 
i*am , onde os mataram como ovelhas , e 
lhes cortaram as cabeças, Opefcador, que 
vio entrar o lugar , foi dar rebate a San- 
cho de Vafconcellos , o qual juntou vinte 
Portuguezes y e alguns naturaes da terra , 
c foi caminliando por terra pêra o lugar 
de ÀIó , e pelo caminho foi encontrando 1 
muita gente danoífa, que hia fugindo pe^ * 
rg a Fortaleza , os quaes tornou a levar 

com-* 



Década IX. Cap. XXX. 279 

comíigo , e delles foube a morte dos nof- 
fos que fentio em. extremo; e chegando ao 
lugar de Alo , achou os da conjuração , e 
remettendo aelles, travaram huma boa ba- 
talha , em que mataram alguns dos inimi- 
gos , e os mais fe puzeram em fugida ; e 
deixando-os ir, entrou no lugar, e achou 
ainda os mortos ao pé da Cruz , e os man- 
dou levar pêra a Fortaleza , onde lhes de- 
ram fepultura , e achou ainda a arti-lheria , 
que não tiveram tempo de a levarem ; e 
porque o filho do Patê Daló acudio alli > 
Sancho de Vafconçellos o confolou da mor- 
te do pai , e lhe entregou a Fortaleza pe^ 
i"a a governar. 

CAPITULO XXXL 

De como fe perdeo o galeão de Belchior Bo»> 
telho que hia pêra Maluco , e onde. 

PArtio o galeão ., em que hia Belchior 
Botelho com o íbecorro de Maluco , 
no qual também hia Nuno Pereira de La- 
cerda , que era provido naquella Capitania 
de Ternate ; e depois que em Malaca fe 
reformou, e partio por via de Borneo , ao 
diante daquella Ilha , fe foi perder nos bai- 
xos chamados Solocos , onde encalhou , e 
logo fe metteo a gente no batel , e o dei- 
xai 



i8o ÁSIA de Diogo de Couto 

xáram ) que fe fizeram diligencia , pudera 
mui bem fer , e certo he que facilmente o 
puderam tirar; e tanto foi iílo certo, que 
os Borneos acudiram logo a elle , e o acha- 
ram inteiro , e lhe tiraram toda a fazenda , 
e acharam ainda nelle humajaoa velha , que 
hia de Malaca ., que foi levada aBorneo, e 
depois tornou a paliar a Malaca , e de- 
pois deo relação de toda eíla jornada ; e 
da gente do galeão , que fe lalvou no batel y 
foram fetenta Portuguezes , e por todo o 
caminho foram accommettidos de muitas 
embarcações, com quem peleijáram , efem- 
pre lhes mataram alguns companheiros ; af- 
fim chegaram perdidos com infinitos rif- 
cos , e trabalhos ás Ilhas de Celebes , on- 
de os náturaes os agazalháram , e lhes de- 
ram de comer : tudo iíto fizeram , porque 
os ajudaram contra huns vizinhos , com 
quem eftavam em guerra , o, que elles fize- 
ram , mandando Belchior Botelho trinta 
companheiros áquelle negocio , ficando com 
elles dez, por ferem outros mortos, e ain- 
da deites neíta jornada mataram aquelles 
inimigos vinte , e os dez tornaram bem mal- 
tratados : eftando affim , lhes deram a no- 
ticia , que em outro porto ahi perto eíla- 
va hum galeão noíTo , que hia pêra Malu- 
co , pelo que fe foram em bufea d elle - % e 
yendo que era o galeão S, Chriítovão , 

de 



Década IX. Cap. XXXI. 281 

de que era Capitão Francifco de Lima , que, 
como diífemos atrás , Sancho havia manda- 
do com provimentos a Ternate , os do ga- 
leão em os vendo os agazalháram com mui- 
ta humanidade , e delles fouberam íua per- 
dição , e trabalhos : ahi fe proveram de al- 
gumas coufas , e fe partiram pêra Terna- 
te , aonde chegaram , e acharam os noflbs 
em tal extremo de fome , que já comiam 
cevadiihas da terra , e outras coufas perju- 
diciaes á faude : foram todos agazalhados 
na Fortaleza com o que traziam. D. Álva- 
ro entregou logo a Fortaleza a Nuno Pe- 
reira ? e ferecolheo pêra o galeão S. Chri- 
ílovao pêra ir nelle bufcar alguns provimen- 
tos , por fer aquelle Rey muito feu ami- 
go ; o que fabido pelos Ternates , deter- 
minaram queimar o galeão pêra acabarem 
de pôr os noífos na ultima defefperação , 
aflim pêra os obrigar a entregar a Fortale- 
za , como por não fe confederarem com 
o Rey de Tidore em feu damno. 

Aífentado iílo entre todos , encarrega- 
ram deite negocio ao Reboange , e lhe or- 
denaram tudo o precifo de gente, e muni~ 
coes ; mas por fe não atreverem a accom- 
metter o galeão , trataram de o queimar, 
porque eílava junto ao Recife, e furto, on- 
de lhe podiam lançar balfas de fogo , as 
quaes logo fe ordenaram. D. Álvaro da 

Atai. 



282 AS IA de Diogo de Couto 

Ataíde eítava no galeão com alguns com- 
panheiros pêra o defenderem. Reboange 
tanto que teve ordenadas as jangadas , e 
balfas de fogo, mandou-lhes dar toa, e foi 
accommetter o galeão. D. Álvaro eftava já 
advertido daquellas máquinas , e tinha or- 
denado deitar as entenas pela borda fora 
por não poderem as jangadas abordallos ; 
e pela poppa vinha o batel com homens 
de recado , e muitas afteas com eílropalhos 
molhados pêra defviarem as jangadas , e 
fe metterem pêra o Reboange : foi-fe che- 
gando com a enchente da maré ; e fendo 
já perto ., deram fogo ás jangadas , que 
hiam liadas de duas em duas , as quaes co- 
meçaram a arder com grande braboíidade , 
e toda a Armada fe poz a bater o galeão 
com grande eftrondo , e elle defcarregou 
nella a fua fúria : as jangadas quiz Deos 
que com a maré fe foram defviando do ga- 
leão , até que remeílaram no Recife , fo- 
mente duas foram em direitura pela proa 
do galeão. Hum homem atrevido fe lançou 
ao mar com hum traçado na mão , e che- 
gando aífim a nado ás jangadas , lhe cor- 
tou as cordas , com que hiam amarradas ; 
então fe apartaram, e cada huma foi paf- 
fando de longo , e foram-fe também des- 
fazer no Recife : a bateria foi-fe continuan- 
do > e como a Armada inimiga era muita , 

def- 



Década IX. Cap. XXXI. 283 

deílroçou-lhe a artilheria do galeão muitas 
delias', e ainda a em que o Reboange hia , 
pelo que lhe foi forçado recolher-fe fem fa- 
zer damno algum , e fó mataram hum Hef- 
panhol, e feriram dous Portuguezes. 

Poucos dias depois diílo , eílandô eíle 
galeão já prefte pêra fe partir pêra Tido- 
re, e D. Álvaro de Ataíde nelle i levan- 
tou-fe huma tormenta do Sudueíte tão for- 
te , e rija , e os mares fe alteraram de fei- 
ção , que com o trapeaf do galeão fe lhe 
trincaram todas as amarras , e elie foi á ca- 
cea até encalhar no Recife, que era de pe- 
dra , onde fe desfez , e os noflbs , que nel- 
le eítavam, fe falváram , alguns a nado, e 
outros nas embarcações , que eftavam a bor- 
do , e D. Álvaro de Ataíde efcapou mila- 
grofamente , e eífe pouco , que tinha tira- 
do da Fortaleza , ahi fe acabou \ e certo , 
que fam muito pêra con.fiderar às coufas 
deite Fidalgo , que era muito bom homem , 
porque nenhuma vez fe embarcou , que fe 
não perdeíle. Vindo de Portugal, foi enca- 
lhar nos baixos de Pezo dos banhos , aqui 
nas Ilhas de Maluco , onde fe perdeo duas 
vezes; e indo pêra o Reyno, fe tornou a 
perder nos mefmos baixos de Pezo dos ba- 
nhos , e fe falvou em huma embarcação , 
que de ambas as vezes fizeram aqui. To- 
dos os três annos que eíteve nefta Forta- 

le- 



284 ÁSIA de Diogo de Couto 

leza teve guerras contínuas, fomes cruéis, 
trabalhos cncapellados , perdições a cada 
pailo , de maneira , que podia dizer , que 
veio entrar na Fortaleza , não pêra enri- 
quecer nella, fenao pêra padecer todas as 
miferias da vida , e experimentar os cafti- 
gos , que Deos noífo Senhor foi dando áquel- 
la Fortaleza; porque depois que nella ma- 
taram aquelleRey , fem nunca fazerem juf- 
tiça a feus filhos , que fempre a requere- 
ram , até que fe entregou , o que lhe íuc- 
cedeo no Reyno , que foram finco annos , 
tudo o que nella fe vio foram defaventu- 
ras , e çaftigos dos Ceos ; porque féis , ou 
íete galeões, que lhe foram com provimen^ 
tos, todos fe perderam : por lá acabou Gon- 
falo Pereira Marramaque com huma tão 
poderoía Armada , fem delia efcapar httr 
311a taboa : por lá morreram mais de dous 
mil homens , tanta artilheria , e fazenda , 
e fe pairaram tantas miferias , que não he 
poffivel poderem-fe contar. Em fim, veio 
Deos noífo Senhor a fazer juíliça , que os 
noííbs Reys não fizeram , do matador , do 
innocente , como era ufo da índia , e aca-r 
bar as crifadas a mãos de Jaós crueliíTimos : 
e pode fer que parte dos eaíligos de Por- 
tugal , e perdições de Africa procedeíTem 
daqui ; e que os que hoje padecemos na 
lAdia com a vida deíles rebeldes , (coufg. 

que 



Década IX. Cap. XXXI. 285- 

que nunca fe imaginou) também daqui vief- 
fem ; porque Deos nolTo Senhor nunca dei- 
xou de caíligar culpas , e algumas vezes fe 
diflimula , he pêra mor damno nofíb, co- 
vno aqui fuccedeo; porque os caíligos que 
nos deo nefte negocio > foram os maiores ? 
que a índia até agora padeceo : e praza a 
elle que não vam mais por diante. Os nof- 
fos da Fortaleza com a perda deite galeão 
ficaram os mais miferaveis homens da vi- 
da , em tal eílado , que até os feus pró- 
prios inimigos fe compadeciam delles , por- 
que na terra não tinham donde fe valer; 
do mar, que era foccorro da índia, ou de 
Malaca , hiam-lhes faltando , porque eíta- 
vam em fim de Novembro , e a monção 3 
em que lhes havia de chegar alguma coufa, 
era até os quinze, o mais tardar; e já na 
Fortaleza não havia coufa, de que fe pu- 
deíTem fuítentar nem dous dias : de todas 
as partes miferias , e defconfianças ; as ar- 
mas continuadamente nas mãos , os olhos 
nos Ceos , donde não viam fenão caíligos ; 
e em fim , vieram a defconfiar de feu re- 
médio de todo haver-fe perdido. O Rey 
de Ternate era por momentos avifado de 
todos aquelles males ; e parece que lhe 
diíTe o diabo , que vinha huma náo com 
provimentos dahi algumas léguas com cal- 
maria ^ que também era caftigo do Ceo ? 

pe- 



1% ÁSIA de Diogo de Couto 

pelo cjue determinou antes de concluir com 
os noílos , os quacs não queriam mais que 
íalvar as vidas , e trataram algum concer- 
to com aquelle Rey , que folgou muito de 
lho mandarem commetter, e lhes mandou 
dizer , que fe lhe entregaíTem dentro de 
vinte e quatro horas aquella Fortaleza , lhes 
daria as vidas a todos , e confentiria que 
ficaíTem os que quizeíTem. Os Padres da 
Companhia lhes fizeram requerimentos da 
parte de Deos, que fe entregaíTem, íenão 
«qs*e dariam conta a Deos dos damnos que 
diíTo fuccedeífe , e dos que apontaíTem , to- 
mando o inimigo aquella Fortaleza por for- 
ça ao Rey , com condição de os pôr fora : 
dentro nas vinte e quatro horas fe refol- 
vèram a entregar a Fortaleza ao Rey, com 
condição , que lhes daria embarcações pêra 
fe paliarem aAmboino, e que todas as ve- 
zes queElRey lhe fizeíTe juítiça de quem 
lhe matara feu pai , a tornaria a entregar. 
Neftes concertos andou Henrique de Li- 
ma , até que veio aos concluir , de que fe 
fizeram autos , papeis affignados por El- 
Rey , e feus irmãos ; e logo fe foi EIRey 
g>era a porta da Fortaleza, e os de dentro 
fe fahíram delia, e EIRey os confolou. , e 
animou; e entrando logo dentro, mandou 
por humTabellião fazer entrega da Forta- 
leza, eliUímauto, no qual Xe obrigou aquel- 
le 



Década IX. Cap. XXXI. 287 

íe Rey a tornalla a entregar aos Capitães 
cPElRey de Portugal , todas as vezes que 
lhe fizeíTe juftiça do matador de feu pai, 
no qual auto íe fez inventario da artilhe- 
ria , que com a Fortaleza recebia : e man- 
dou EiRey accrefcentar mais , que elle re- 
cebia a artiíheria delia como olheiro d > 
EIRey de Portugal , até elle o fatisfazer , e 
que mandaria á índia a tratar com o Go- 
vernador de íua juftiça , no qual auto fe 
aífignou EIRey com ieus irmãos, e Rege- 
dores , e allim ficou aquelle Rey de poííe 
daquella Fortaleza , e vimos em tão pou- 
cos annos entrega r-fe efta > e a de Chalé 
aos inimigos por falta de mantimentos > 
e não vimos caftigar EIRey aos Governa- 
dores pelo pouco cuidado que tem de to- 
das , e feus provimentos , porque algumas 
deitas eftam em eftado , que as não tomam 
es inimigos , porque não querem , como 
fam as de Cananor, Bauchor, Mangalor, 
Honor, que todas eftam rotas, e mal pro- 
vidas; e a Deos deixemos ifto, vamos con- 
tinuando com a hiftoria. 

Entregue aquelle Rey da mifcravel For- 
taleza , recolhêram-fe os noííos nas cafas 
dos Padres da Companhia, ondeElRey os 
mandou prover muito bem ; e havendo três 
dias que ifto era paílado, quando appare- 
ceo huma náo muito fermoía , que hia de 

Ma- 



288 ÁSIA de Diogo de Couto 

Malaca com muitos provimentos , a qual 
vifta foi pêra todos de mor deíconíblação , 
que a viíla da Fortaleza ; porque bem en- 
tenderam que aquella tardada fora pêra 
feu caíiigo , e não veio furgir no porto, 
donde logo teve recado do que era paf- 
fado. Vinha por Capitão delia Leonel de 
Brito, filho deMem de Brito , aquelle que 
D. António de Vafconcellos , fenhor de 
Mafra, filho do Conde de Penella, matou 
por huns amores que teve com huma pa- 
renta fua , no qual cafo fe não f aliou , por 
dizerem que EIRey D. João mandara a 
D. António pêra Lisboa , temendo-fe dos pa- 
rentes de Mem de Brito , e trazer cornfi- 
go muita gente ; e algumas vezes a encon- 
trar no caminho por onde hia efte Leonel 
de Brito , e outro feu irmão menino , am- 
bos em huma mula pêra a efcola. Efte 
Leonel de Brito veio fervir á índia , onde 
foi defpachado , e vinha com efte íbccor- 
ro 7 e fabendo elle da entrega da Fortale- 
za , fentio muito , e teve logo recado d 5 El- 
Rey , e dos noíTos , que podia defembar- 
car feguramente , como elle fez ; e EIRey 
o recebeo muito bem , e lhe diífe , que 
mandaíTe defembarcar as fazendas, e asre- 
colheíTe , e fizeíle fua carga tão livremen- 
te , como fe aquella Fortaleza foíTe d'El~ 
Rey de Portugal, cuja era, o que fe fez y 

e 



Década IX. Cap. XXXL 189 

e poz toda em terra em cafas , fem lhe bu- 
lirem em Còufa alguma , fó das munições 
lhe mandou EIRey tomar algumas , que 
eram pêra defeza da Fortaleza, que era do 
feu Rey. Affim ficou o galeão até o tem- 
po de carregar , e comprou-fe o cravo com 
as fazendas pelo preço ordinário , fem ha- 
ver alteração ; e como foi tempo de par- 
tir , fe embarcou nelle Belchior Botelho > 
D. Álvaro de Ataíde , a quem EIRey fez 
mercê de huma cópia de cravo , e Nuno 
Pereira de Lacerda , e os mais que quize- 
ram ; e defpedidos cPElRey , que teve com 
elles muitks fatisfaçóes , deram á vela pê- 
ra Amboino , mandando EIRey com elles 
hum Embaixador feu , pelo qual efcrevia 
a EIRey o que era paíTado , e lhe pedia 
juítiça ae quem lhe matara feu pai , dizen- 
do-lhe , que entre tanto elle teria aquella 
Fortaleza em guarda, fobre o que lhe ef- 
creveo huma carta muito avifada , que eu 
tinha guardada pêra efte lugar , e não a 
achei. Deo efta náo á vela em Junho defte 
anno de fetenta e finco > em que eftamos , 
e em breves dias foi a Amboino , onde to^ 
mou alguns provimentos 5 e dahi fe fez á 
vela em 1^ de Julho contra o parecer de 
todos, por fer já tarde; e fazendo fua der- 
rota , como Deos nolfo Senhor ainda efta- 
ya irado contra aquellas Ilhas , permittiq 
Couto. Tom. V, Pi iL T que 



290 ÁSIA de Diogo de Couto 

que fc foííe perder em huns baixos , que 
fe chamam de Tucubeicu , onde encarna- 
ram , e os noflbs fe puzeram em huma Ilha y 
que ahi eílava perto. O Embaixador d 3 El- 
Rey de Ternate , que ahi hia , como fabia 
tudo aquillo muito bem , diífe aos noflbs , 
que fe não buliffem dalli , que elle os vi- 
ria buícar em embarcações , e aífim em 
hum baião fe paíTou ás Ilhas deButre, jun- 
to a huma cafa , onde negociou embarca- 
ções , com que tornou a bufear os perdi- 
dos , que fe embarcaram com elle , e fo- 
ram ter a huma cafa , onde já tinham ido 
outra vez perdidos, e aquelle Rey os ne- 
gociou, e lhes deo hum junco , com que 
fe foram pêra Malaca ; e aíllm deixaremos 
as coufas de Maluco até feu tempo, 

CAPITULO XXXII. 

Do que nefte tempo fucceâeo na índia. 

T Ornemos a continuar com as coufas da 
índia, e feja com o Embaixador, que 
o Governador mandou ao Grão Mogor em 
companhia do feu , o qual foi em breves 
dias ter a Cambayete , e viíitou o Gover- 
nador, que ahi deixou o Mogor, como le- 
vava no Regimento. Succedeo no mefmo 
tempo Ruy Pires de Távora , Capitão de 

DÍO y 



Década IX. Cap. XXXIL 291 

Dio , comprar a hum Mouro Parfeo hum 
cavallo muito fermolb, que diziam levara 
o Governador de Cambaya ; o qual faben- 
do do cafo , metteo a Chriílovão do Cou- 
to em ferros } e a todos os Portuguezes , 
que ahi eílavam com fuás fazendas > e a el- 
las confifcou-as 5 e além diíTo mandou fa- 
zer a Chriílovão do Couto muitas aífron- 
tas ; e fazendo-o elle a faber ao Capitão 
de Dio , pedindo-lhe largaífe o cavallo pê- 
ra o reígatar a elle , e a todos ? o que lo- 
go elle fez , e nem com tudo iíto o Go- 
vernador os quiz largar , antes lhes fez mais 
aífrontas ; e pofto que lhes tirou os ferros , 
os não quiz deixar ir pêra Goa , o que tu- 
do Chriílovão do Couto efcreveo ao Go- 
vernador António Moniz Barreto em car- 
tas que eu vi , affirmando que daquillo tu- 
do foram cauía os correfpondentes da na- 
ção , que lá eílavam fazendo fuás fazendas 
pêra oReyno., e que aílim como elles fof- 
rriam infinitas aífrontas , que lhe faziam 
em Cambaya , cuidava o Governador del- 
ia que também elle Chriílovão do Couto 
foífria outras tantas. 

Chegou atéqut > e daqui não pajfou. 

Fim da Década Nona, 



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Barros, João de 


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Da Ásia de João de Barros e 


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de Diogo de Couto 


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